Saúde

Mudanças na venda de remédios "tarja preta" Objetivo é evitar fraudes e excessos na venda de controlados. Brasil é campeão mundial na compra de inibidores de apetite

Fernanda Leonel
Repórter
24/05/2007

A caneta e o caderno de anotações estão com os dias contados nos registros de vendas de medicamentos psicotrópicos, mais conhecidos como "tarja-preta". Hoje em dia, profissionais de todo o país fazem a verificação da venda desse tipo de medicamento, vendido sob controle, de forma manual, através de um livro que contém todas as entradas e saídas de receitas.

Situação que vai mudar, de acordo com as novas determinações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão criou um programa de computador para registrar as compras de psicotrópicos e evitar abusos e fraudes. O objetivo é que ele seja implementado na região Sudeste, até outubro deste ano.

A justificativa para a mudança está na defesa de que o sistema manual usado pelos farmacêuticos é ultrapassado e de difícil controle, abrindo mais brechas para possíveis fraudes. Para se ter uma idéia, os registros em papel feitos em mais de 70 mil farmácias são encaminhados às autoridades municipais e estaduais para depois seguirem para a Anvisa, em um processo que pode levar até um ano e meio.

Com a mudança e o novo programa de computador, o farmacêutico terá que informar, no momento da venda, o tipo de medicamento, o lote, o nome do paciente e o do médico que receitou. Na rede, essas informações vão ser monitoradas em tempo real pela Anvisa.

Foto de remédio Para a subgerente de uma farmácia de Juiz de Fora, Meiriane Portes de Castro, a mudança traz pontos positivos, porque valoriza o farmacêutico, já que para executar o programa da Anvisa, o credenciado deve possuir diploma.

"Só um farmacêutico vai poder ter a senha de acesso ao programa. Só vão ter acesso a esse tipo de medicamento, vendido em larga escala, profissionais da área. É até mesmo uma grande oportunidade para novas contratações", analisa Meiriane.

Para a farmacêutica e para o estabelecimento, a rotina só vai ser alterada no sentido burocrático. "Agora vamos ter que fazer levantamentos semanais e mensais do medicamento", diz. No entanto, ela acredita que a nova medida pode sim ajudar na fiscalização, à medida que todo controle que procura a melhoria da saúde pública é bem-vindo.

Porque fiscalizar os "tarja preta"?

Foto de Carla Pelas contas da Anvisa, os brasileiros estão entre os que mais consomem medicamentos de uso controlado em todo o mundo. No caso das vendas de remédios para emagrecer, que também precisam de receita médica, ninguém supera o Brasil.

A médica nutróloga Carla Valéria de Alvarenga Antunes (foto) comprova essa estatística. "Hoje em dia o que a gente nota é que as pessoas estão prescrevendo remédios com muita facilidade e os pacientes também estão preferindo o caminho mais curto. Não adianta só você bloquear, tem que tratar a causa", comenta.

Para a nutróloga, a iniciativa da Anvisa é válida, até mesmo porque vai conseguir detectar os profissionais que trabalham com o uso exagerado desse tipo de medicamento. Psicotrópicos, como inibidores de apetite, por exemplo, não podem ser usados por qualquer pessoa, correndo-se o risco de sérias lesões no organismo e até mesmo morte subita do paciente.

Existem ainda medicamentos específicos indicados para cada resultado esperado ou histórico médico de cada paciente. Por isso, como fez questão de ressaltar a nutróloga, o acompanhamento por parte de um profissional é imprescindível.

Quem tem conhecimento de causa sobre o assunto concorda com a médica. Amanda Lima (foto) é um exemplo bem sucedido de quem procurou ajuda para conseguir de volta uma numeração a menos na calça jeans.

"Emagrecer não é brincadeira, não. Eu cheguei ao resultado esperado, mas mesmo assim não me vi livre de alguns efeitos colaterais de remédios. Para quem pretende perder alguns quilinhos, eu aconselho que nenhum passo seja dado sem orientação de um profissional especializado", afirma.

Amanda também ressaltou a importância da dieta e da reeducação alimentar na manutenção do peso ideal. A história dela, na sua própria opinião, só pode ser classificada como "de final feliz", porque ela aprendeu a comer bem e sem exageros.

"O melhor remédio para emagrecer ainda é uma reeducação alimentar aliada a exercícios físicos. Os remédios devem funcionar como um suporte para ajudar a pessoa a se controlar".

Para Carla, a prova de que a medicação deve servir como suporte está no exemplo de pessoas que emagrecem com remédios e depois engordam de novo. Esse "efeito sanfona" aconteceria, porque inibidores de apetite não funcionam com a idéia de "cura".