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“Esquerda positiva” e reforma da Previdência

Cláudio de Oliveira - Fevereiro 2019
 


Você já ouviu falar da “esquerda positiva”?

O termo foi cunhado por San Tiago Dantas, ministro da Fazenda do governo João Goulart, na difícil crise do pré-1964.

Dantas propunha uma Frente Progressista entre os partidos de centro (PSD e PDC), centro-esquerda (PTB e PSB) e esquerda (PCB) em torno de um programa moderado de reformas [1].

Visava tirar Goulart do isolamento político, resolver as dificuldades econômicas e sociais do país e evitar um golpe de Estado.

Ainda antes, em 1962, juntamente com o então ministro do Planejamento, o economista Celso Furtado, Dantas havia apresentado o Plano Trienal, bombardeado à esquerda e à direita.

O PCB inicialmente aceitou o diálogo, o que levou Dantas a falar em “esquerda positiva”, em contraposição aos setores da esquerda contrários à proposta.

Infelizmente, prevaleceram os setores radicais e o Brasil caiu numa ditadura.

A “tática de soluções positivas”

Dentro do PCB, desde fim dos anos 1950, o jornalista Marco Antônio Tavares Coelho defendia “uma tática de soluções positivas”:

apregoei a substituição da temática e do combate desbragado a todas as proposições dos governantes por uma ação alicerçada em soluções alternativas, viáveis e concretas [...] [2].
Ele criticava a tática do “quanto pior, melhor” que o partido usara contra o presidente Getúlio Vargas.

Após o golpe de 1964, Marco Antônio Tavares Coelho foi um dos responsáveis para que o PCB não caísse na aventura da luta armada e partisse para uma resistência pacífica dentro do MDB.

A reforma da Previdência de Temer

Quando o então presidente Michel Temer apresentou sua proposta de reforma da Previdência, em dezembro de 2016, achei que os partidos progressistas deveriam se sentar à mesa de negociação.

Eles deviam topar debater e aprovar uma reforma nas aposentadorias em uma discussão casada sobre reforma tributária progressiva, taxando mais as altas rendas e aliviando a carga sobre os assalariados, bem como uma revisão da política de subsídios às grandes empresas, que muito contribuiu para a presente fiscal.

Mas, outra vez, a “esquerda positiva” não prevaleceu.

A reforma da Previdência de Bolsonaro

E agora, os progressistas proporão uma discussão conjunta sobre Previdência, impostos e subsídios, e apresentarão suas propostas? Dessa vez a “esquerda positiva” vencerá?

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Jornalista e cartunista do jornal Agora São Paulo.

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Notas

[1] Sobre o programa da Frente Progressista, cf. Gabriel da Fonseca Onofre, Em busca da esquerda esquecida: San Tiago Dantas e a Frente Progressista. Rio de Janeiro: Prismas, 2015. Sobre as posições do PCB, cf. Gildo Marçal Brandão, O partido comunista como “esquerda positiva”. Lua Nova n. 35, São Paulo, 1995. Disponível em: https://bit.ly/2tGIN44

[2] Sobre a “tática de soluções positivas”, cf. Luiz Sérgio Henriques, Uma vida exemplar. Disponível em: https://bit.ly/2Eek23X

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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