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Uma grande história de tudo

José Eli da Veiga - Junho 2020
 

David Christian. Origens: uma grande história de tudo. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 406p.

O relato épico proposto neste quinto livro do historiador David Christian começa por tudo o que já se conseguiu descobrir sobre o surgimento do universo, e termina com especulações sobre os possíveis futuros abertos à humanidade.

O magnata filantropo Bill Gates ficou muito impressionado pela narrativa acessível e elegante, obtida por costura de evidências e insights, a partir de diversas disciplinas científicas e históricas. E o modo com que a história serviu para ordenar tais conhecimentos sobre o mundo foi considerado “um feito maravilhoso” pelo físico italiano Carlo Rovelli, excelente divulgador científico.

A exposição está organizada em oito etapas cronológicas, correspondentes a situações radicalmente subvertidas por propriedades em “emergência”. Termo usado pelo autor em um de seus dois sentidos filosóficos: novidades qualitativas, resultantes da interação entre partes de um conjunto, mas ausentes em cada uma delas. Por exemplo, a junção do cabo e da cabeça do martelo que faz ‘emergir’ a função intrínseca à ferramenta.

Por tal prisma, dos oito pontos de transição — chamados de “limiares” — cinco foram anteriores à virada do Homo sapiens, há uns duzentos mil anos. Vão do ‘big bang’ ao Homo erectus, passando pela formação do sistema solar e pela mais antiga vida na Terra. Depois da virada, mais dois: o início do Holoceno, há uns dez milênios, e a revolução dos combustíveis fósseis, há dois séculos. Possível nono limiar seria a tão desejada “ordem mundial sustentável”.

Uma das principais qualidades de tão abrangente panorama histórico está no tratamento dado à recentíssima proposta de nova Época (com maiúscula) batizada de Antropoceno. Ao contrário de Yuval Noah Harari, nem sequer citado, David Christian faz questão de ser absolutamente fiel ao atual debate científico, respeitando a escolha de meados do século passado para seu início, com a chamada “Grande Aceleração”, do período 1948-1973.

Em vez de poesia sobre os últimos setenta mil anos, desde que o Homo sapiens teria “reescrito as regras do jogo”, o Antropoceno é sobriamente apresentado como “um drama com três atos principais e muitas mais mudanças em andamento”.

Tudo começou em meados do século XIX, quando as tecnologias baseadas nos combustíveis fósseis passaram a transformar o mundo. No segundo ato, as primeiras potências movidas a combustíveis fósseis se voltaram umas contra as outras, tornando extremamente violenta a primeira metade do século XX.

Finalmente, o atual testemunhou o mais notável surto de crescimento econômico da história da humanidade. “Durante a Grande Aceleração, os seres humanos mobilizaram energia e recursos naturais numa escala tão sem precedentes que começaram a transformar a biosfera. É por isso que muitos estudiosos datam o alvorecer do Antropoceno em meados do século XX”.

Esse terceiro ato teria deixado bem evidentes os lados “Bom” e “Mau” da nova Época, pois a elevação da expectativa de vida, a ascensão das classes médias e a redução da pobreza de renda absoluta foram progressos dos últimos setenta anos, tanto quanto foram deletérias a geração de enormes desigualdades, o aquecimento global e a erosão da biodiversidade. É esta a contradição que estrutura as últimas vinte páginas da quarta parte — sobre “O futuro” — nas quais o autor se arrisca a responder à pergunta de um milhão de dólares: “Para onde vai tudo isso”?

Para Christian, o primeiro dos objetivos da busca humana neste exato momento é evitar um acidente. “Se pudermos fazer isso, há dois objetivos adicionais: garantir que os benefícios do ‘Antropoceno Bom’ estejam disponíveis para todos os seres humanos e garantir que a biosfera continue a prosperar, porque, se a biosfera fracassar, nenhuma missão poderá ser bem-sucedida”.

Em seguida, conjectura como poderá ser o “Antropoceno maduro”, emprestando ideias do astrobiologista David Grinspoon e do físico Paul Raskin. O crescimento da população diminuirá para zero e talvez comece a cair. A pobreza será largamente eliminada por melhores sistemas de bem-estar social e controles do acúmulo de riqueza.

O crescimento econômico deixará de ser o objetivo principal dos governos e os indivíduos começarão a valorizar mais a qualidade de vida e o lazer do que o aumento de renda. A educação e a ciência se tornarão muito mais decisivas. As economias do mundo vão “desmamar” dos combustíveis fósseis. Inovações e mudanças nos padrões de consumo farão parte de uma transformação da agricultura que a torne menos exigente de recursos naturais.

Claro, as ideias também mudarão muito. Para que o Antropoceno “amadureça” todos terão muito o que aprender com aqueles que preservaram culturas de sociedades que viveram por milhares de anos em estável relacionamento com o meio ambiente. De resto, muitas das dificuldades dessa busca por um mundo melhor ficam patentes na simples comparação dos dois documentos fundamentais adotados, em 2015, no âmbito da Nações Unidas: “Transformando Nosso Mundo” — mais conhecido como “Agenda 2030” — e “Acordo de Paris sobre a Mudança Climática”.

O autor acha que é fácil demais ser cético, mesmo admitindo que caiba um pouco de cinismo. Não obstante, fecha com depoimento pessoal: “alguém que cresceu em meados do século XX, quando havia pouca compreensão dos perigos do ‘Antropoceno Mau’, é notável ler esses dois documentos de um órgão que representa a maioria das nações da Terra. Trinta anos atrás, tais declarações teriam sido inconcebíveis”.

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Professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, é autor de O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (Ed. 34, 2019) e mantém dois sites: www.zeeli.pro.br e www.sustentaculos.pro.br

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Fonte: Valor, 19 jun 2020.

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