Na era da informática e da internet, o vocabulário brasileiro incorpora e cria novos termos
Fernanda Leonel
Repórter
19/12/05
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A informática e a internet já fazem parte de nossas vidas. Juntas, elas
transformam nossos hábitos (leia a matéria!), nosso lazer, nossas tarefas e
quem diria... até mesmo nosso vocabulário.
Quem nunca pediu para um amigo mandar um e-mail, quis 'deletar' da memória uma nota ruim da faculdade ou pensou em criar um 'site' para a sua empresa (leia a matéria!)?
Essas e muitas outras palavras, surgidas com o advento das novas tecnologias são "modismos naturais da língua", de acordo com o professor do Departamento de Letras da UFJF, Mário Roberto Zagari (foto acima). Ele afirma que o vocabulário é um conjunto aberto e sempre vai estar "disposto" à incorporar novidades.
Mas o que preocupa a grande maioria dos gramáticos, não é exatamente a incorporação das novidades, mas sim, quais são essas novas palavras que passam a fazer parte do nosso dia-a-dia. Como dos Estados Unidos vieram a maior parte das tecnologias para computadores, o inglês é hoje o idioma dominante de softwares e hardwares do mundo todo, e portanto, o maior difusor de novos termos para gramáticas mundiais.
Para o caso do Brasil, o professor Mário alivia: "Sempre damos um jeitinho de "abrasileirar" nosso vocabulário; não há muito risco de invasão de outra língua". Ele comenta o fato de o português brasileiro ser totalmente diferente do de Portugal e de até transformamos em verbos as palavras estrangeiras. "Primeiro foi a caso do xerox. Agora o delete. Xerocamos e deletamos tudo", brinca.
A professora de Língua Portuguesa do Colégio João XXIII, Maria Cristina
Weitzel (foto ao lado) concorda. Para ela, a língua é extremamamente flexível e
acaba sofrendo influências - não modificações- de outras culturas. Maria
Cristina afirma ainda que o grande desafio do professor de Português do
século XXI é trabalhar dentro do novo cenário das tecnologias, que além de
incorporar palavras estrangeiras, criou um vocabulário próprio: o
internetês.
Não é a primeira vez!
Não é a primeira vez que a nossa língua ganha novas palavras devido à
incorporação de hábitos e objetos novos de culturas estrangeiras. O
professor Mário lembra que quando o futebol, criação inglesa, chegou
ao Brasil, não se sabia direito que nome dar a todas as novidades que
passavam a incorporar a realidade da nação.
O que aconteceu? Devagar, fomos dando o nosso "jeitinho brasileiro" para as palavras novas que os ingleses nos apresentavam. Goal, que quer dizer objetivo, finalidade, acabou se transformando em "Gol", a palavra mais esperada durante uma partida de football, ou para nós , apenas futebol.
Dentro dessa perspectiva, o professor faz uma aposta: "Já recebo muitas coisas pela internet com a denominação de correio eletrônico, não e-mail. Isso já é a prova de nossa cultura agindo sobre às outras".
É site ou sítio?
O fato do vocabulário de uma cultura ser flexível, não quer dizer, no
entanto, que não seja preciso estabelecer limites para agregação de novos
termos. Os dois professores alertam que é preciso ter bom senso para uso dos
estrangeirismos. Não há porque dizer 'deletar', se no contexto, a palavra
apagar for suficiente para suprir tal definição.
Muitos gramáticos discutem se não seria melhor procurar termos similares de palavras estrangeiras no vocabulário brasileiro. A Espanha, por exemplo, ao adotar as novas tecnologias informáticas dos Estados Unidos não adotou a palavra site. Os espanhóis usam sítio para designar endereço eletrônico.
Os professores acreditam que essa é uma discussão que ainda promete "muito pano para manga". Os dois são unânimes em dizer que tudo isso é muito pessoal, e que, a nesse momento da discussão, já não seria mais possível padronizar para fala ou escrita nenhuma das duas palavras.
Padronização
Os novos termos surgidos com a informática e a internet estão longe de
encontrar uma padronização e são escritos de diferentes formas por
jornais, revistas e pelos próprios usuários da rede.
A palavra internet, por exemplo, gera sempre muita confusão quando o assunto é saber se deve ser escrita com letra maiúscula ou minúscula. O corretor de texto do Windows XP apresenta como versão correta Internet (com letra maiúscula) ao mesmo tempo que jornais e revistas já se habituaram a escrever com letra minúscula.
Os professores aconselham que as palavras que já constam no dicionário (on-line,off-line, delete e e-mail) devem ser escritas como foram denominadas. Eles defendem que a partir do momento que alguma palavra passa a fazer parte do nosso vocabulário, ela deve ser usada com rigor.
Já no que diz respeito às palavras que fazem parte do nosso cotidiano por conseqüência do contato com o computador, mas que ainda não foram integradas à nossa língua, o conselho é tentar buscar a grafia correta na língua de origem, sem se estressar com o resultado. "Não podemos obrigar as pessoas em geral a saber outra língua", destaca o professor Mário. "Devagar vamos encontrando soluções", completa.
Não há padronização dos novos termos nem mesmo na própria internet, a difusora das novidades. Uma variedade de grafias povoam as páginas virtuais e a concepção de cada um.
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"Sempre escrevo e-mail, on line e offline. Acho nunca parei para
pensar o porque. É tudo muito automático. Mas acho que esse "automático veio
da internet". Jória Motta, 20 anos, estudante de jornalismo.