Campeão mundial de rali quebrou jejum do Brasil após Senna e mira o Dakar
RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Lucas Moraes vem de uma família com íntima e longa ligação com o automobilismo, o que explica a relação dela com Ayrton Senna e o registro dele, com apenas nove meses, no colo do tricampeão da Fórmula 1. O que, à época, não se poderia imaginar é que aquele menino, anos depois, se tornaria o primeiro piloto brasileiro a vencer um mundial da FIA desde o próprio Senna.
Piloto oficial da Toyota, Lucas foi campeão do Rally-Raid, título inédito para o país, e, agora, se prepara para o Rally Dakar, a mais longa prova de rali do mundo, que será realizado entre os dias 3 a 17 de janeiro.
"O Dakar 2026 vai ser muito novo para mim porque estou em uma nova equipe, com um novo carro, um novo navegador... Então, tem esses fatores e, no fundo, é uma busca contínua por evolução, para tentar ganhar o Dakar para o Brasil. A preparação foi diferente por causa disso, de estar experimentando um carro novo, novo time de engenheiros. Tem de absorver essas novidades. No restante, parte física, mental, mantivemos o trabalho que vínhamos fazendo, e não vejo a hora de começar", disse Lucas Moraes à reportagem.
Por ter sido campeão do mundo, Lucas será o primeiro a largar no prólogo, que é uma etapa classificatória.
ANO 'INESQUECÍVEL'
Lucas Moraes se sagrou campeão mundial de Rally-Raid (W2RC), que é considerada a Fórmula 1 das competições off-road. Para alcançar o topo do pódio, o brasileiro ?que tem a companhia do navegador espanhol Armand Monleón?, superou em nove pontos o qatari Nasser Al-Attiyah, apontado como um dos grandes nomes da modalidade.
"Se fosse definir essa temporada em uma palavra, acho que seria 'inesquecível'. Foi uma temporada que consagrou muitos anos de trabalho, de esforço, de empenho. É para guardar com muito carinho. Começou com um Dakar difícil. Apesar de termos vencido duas etapas, não ganhamos o evento em si. Mas, depois, fizemos quatro pódios seguidos, terminando como campeões do mundo. Realmente, inesquecível".
Essa foi a segunda temporada de Lucas no W2RC. Em 2024, ele terminou na terceira posição.
LESÃO O TIROU DO MOTOCROSS
Lucas cresceu acostumado à velocidade. Ele é filho de Marcos Moraes, o MEM, que é piloto e foi, por exemplo, organizador do Rally dos Sertões de 1993 a 2019. A trajetória nas pistas, porém, começou com o motocross.
"Tive a sorte de ter uma família que sempre acreditou muito na educação através do esporte. Isso fez muita diferença para diversos aprendizados. Quando eu tinha 14, 15 anos, comecei a despontar nos rankings de motocross aqui no Brasil e tomei a decisão de que queria fazer isso profissionalmente. Quando me formei no colegial, estava indo bem, era piloto de fábrica".
Quando tinha 20 anos, Lucas teve de mudar o rumo da carreira. Uma lesão no quadril o impedia de continuar no motocross e ele se afastou do automobilismo.
"Foi um período difícil, porque eu era novo, estava no auge do motocross e tive de parar. Foi aquela questão de 'por que comigo?', 'por que agora?'. Comecei a tentar achar respostas e não quis mais saber de esporte, essa é a verdade. Inclusive, me mudei para o Vale [do Silício, Estados Unidos], e veio a questão de empreender. Eu tinha ficado sem saber para onde ir depois que vivi intensamente um esporte. Fui fazer outra coisa na minha vida, e aí depois de dois anos, mais ou menos, comecei no rali, mas como hobby".
"Comecei a andar, gostei, e comecei a fazer alguns brasileiros, depois Mitsubishi Cup, e a coisa foi evoluindo. Mas, óbvio, nunca imaginei chegar onde cheguei até agora", afirma.
No período nos Estados Unidos, o piloto trabalhou na área de tecnologia voltada à inteligência artificial. Lucas voltou para valer para as corridas em 2019, quando conquistou o primeiro título no Rally dos Sertões.
"Sempre gostei muito da tecnologia e fui estudar lá em 2014, e vi inteligência artificial pela primeira vez na minha vida. Encontrei o cara que acabou virando meu sócio e fizemos a companhia [de plataforma financeira] por 7, 8 anos, e vendemos pro Nubank em 2021. Quando ganhei meu primeiro Sertões, vi uma chance de poder focar mais e ser profissional nisso".
A FOTO COM SENNA
Lucas Moraes tem uma foto em que, aos nove meses, está no colo de ninguém menos que Ayrton Senna. A imagem é de 1990.
Senna morreu em 1º de maio de 1994, em um acidente durante o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, Itália. À época, o brasileiro ?campeão em 1988, 1990 e 1991? era apontado como principal nome da categoria.
"A minha família era, relativamente, próxima da [família] do Ayrton. O meu padrinho, irmão do meu pai, estudou com o Senna na mesma escola, e ficaram amigos. Então, de vez em quando, o Senna aparecia na casa dos meus avós para uma visita, e em uma dessas aconteceu aquela foto. Eu tinha uns nove meses, se não me engano", disse.
"O Senna, a família dele e a minha tinham certa relação, e eu cresci muito próximo disso. Os meus pais usavam muito o Senna quando falavam sobre inspiração, e tentavam me mostrar como ele conseguia representar bem o Brasil, era carismático..."
NOVA PAIXÃO BRASILEIRA?
O brasileiro tem uma notória paixão pelo automobilismo, mas que, talvez, ainda não tenha chegado de forma mais ampla os ralis, apesar de oferta mais ampla de estrada para as modalidades off-road no país."O Brasil tem muita cultura do asfalto, pelos campeões do mundo que a gente tem, o Ayrton, o Nelson [Piquet] e o Emerson [Fittipaldi]. Mas quando corremos o [Rally dos] Sertões, conseguimos sentir esse amor do brasileiro pelo automobilismo. Você, realmente, desbrava o Brasil e vê isso É muito legal porque, no fundo, o Brasil tem muito mais estrada de terra do que asfalto", disse.
Lucas acredita que mais resultados relevantes podem fazer o off-road ganhar mais fãs e faz elogios a jovens pilotos que estão começando a surgir. "O brasileiro tem um pouco essa coisa de gostar de torcer para quem ganha, né? Então, diria que faltam mais vitórias mesmo (risos). Temos excelentes pilotos, a base está cada vez melhor, especialmente nos UTVs, que é uma categoria mais acessível", diz.
"Acredito que se a gente conseguir construir e ter mais brasileiros indo para a Europa, experimentando o Mundial, experimentando correr algumas provas lá fora, e vencendo, acho que pode ser um trampolim. Foi incrível ser campeão mundial, mas foi só mais um tijolinho. Precisamos de mais gente e que possamos ter mais vitórias como tivemos no asfalto".
