Impeachment no São Paulo avança, mas oposição vê dificuldades para destituição de Casares

Por LUCIANO TRINDADE E LUCAS BOMBANA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar de ter recebido um parecer favorável do Conselho Consultivo, que se reuniu na noite de terça-feira (6) e se posicionou contra a abertura de um processo de impeachment, o mandato de Julio Casares na presidência do São Paulo ainda corre risco.

Formado por ex-presidentes do clube e do Conselho Deliberativo, o órgão é apenas consultivo e não tem poder para afastar ou manter o dirigente no cargo. A decisão cabe ao Conselho Deliberativo, que se reunirá no próximo dia 14, a partir das 18h30 (horário de Brasília), para decidir o futuro do presidente.

A assembleia foi convocada pelo presidente do conselho, Olten Ayres, após um grupo de 57 conselheiros protocolar, em dezembro, um pedido formal de afastamento de Casares.

Denúncias sobre a suposta comercialização irregular de camarotes no estádio do Morumbis e sobre movimentações financeiras consideradas suspeitas colocaram o já pressionado presidente do clube na berlinda.

Casares vinha sofrendo desgaste por críticas à gestão. Além de encerrar a temporada de 2025 sem conquistas em campo, o São Paulo viu seu endividamento crescer e se aproximar de R$ 1 bilhão. Sem recursos para investimentos, as perspectivas para este ano também não são vistas como favoráveis.

Mesmo diante desse cenário, integrantes da oposição demonstram pessimismo quanto à possibilidade de afastamento do dirigente na próxima semana. Além da dificuldade de reunir os dois terços dos votos dos 254 conselheiros aptos -exigência prevista no estatuto-, a escolha da data da reunião é interpretada como uma estratégia que favorece a situação.

"Janeiro é um mês em que não se vota nada. Eu aprendi isso na política. Eu fui vereador e sempre ouvi dizer: 'se você quiser fazer uma maldade, faz em janeiro que as pessoas estão desmobilizadas'", reclama o conselheiro Marco Aurélio Cunha, umas das principais vozes de oposição atualmente no São Paulo.

Há preocupação entre os opositores de que o encontro seja esvaziado por ocorrer durante o período de férias de parte dos conselheiros, muitos fora da cidade. A oposição precisa de, no mínimo, 171 votos para aprovar o afastamento. Também há quem veja na rapidez do processo uma forma de evitar que novas revelações negativas possam agravar ainda mais o desgaste do presidente.

"Alcançar 171 votos é difícil, mas é possível, sim", afirmou Flávio Marques, conselheiro da oposição da mesma chapa de Marco Aurélio Cunha e um dos signatários do pedido de impeachment. "Hoje, basicamente, o trabalho é de conversa, praticamente um a um", acrescentou.

Se o número for atingido, uma assembleia geral de sócios deverá ser convocada em até 30 dias para ratificar ou rejeitar a decisão dos conselheiros.

Caso o impeachment seja aprovado, quem assume a presidência é o primeiro vice-presidente, Harry Massis Júnior, que cumprirá o restante do mandato até a realização de novas eleições, previstas para o fim do ano.

O pedido de afastamento se baseia na alegação de "administração temerária", com descumprimento orçamentário nos últimos anos, falta de transparência na divulgação das contas do clube e comercialização irregular de ingressos para camarotes.

Segundo Marques, o processo é "puramente técnico" e não tem motivação política. "Ele se baseia em uma série de descumprimentos da gestão", afirmou.

Em dezembro, o site ge.com divulgou áudios que indicavam um suposto esquema de venda clandestina de ingressos para um camarote do Morumbis reservado à presidência em dias de shows.

Após a divulgação, Mara Casares, ex-esposa de Julio e então diretora feminina, cultural e de eventos, e Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto do futebol de base, se afastaram de seus cargos.

Em nota, o São Paulo afirmou que "realizará a devida apuração dos fatos" e que, a partir dela, adotará as medidas cabíveis. O clube abriu duas sindicâncias -uma interna e outra externa, com auditoria independente- para investigar o caso.

"Que gestor é esse que não sabia do que estava acontecendo no próprio quintal? Ou, se sabia, por que não tomou providências?", questiona Marques.

Também pesou contra Casares a informação divulgada pelo portal UOL de que a Polícia Civil investiga o recebimento de R$ 1,5 milhão em dinheiro pelo presidente do clube, além de 35 saques que somam R$ 11 milhões realizados em contas do São Paulo.

"As investigações estão em andamento no DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), em segredo de Justiça, razão pela qual os detalhes são preservados para garantir a autonomia do trabalho policial", informou a Secretaria da Segurança Pública em nota.

Os advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, que representam Casares, afirmaram que as movimentações financeiras apontadas em relatório do Coaf "têm origem lícita e legítima, compatível com a evolução da capacidade financeira" do dirigente.

Eles destacaram que, antes de assumir a presidência do clube, Casares ocupou cargos de alta direção na iniciativa privada, com remuneração elevada, e que a origem dos recursos será esclarecida ao longo das investigações, com apresentação de documentos e declarações fiscais.

Foi mesmo com essa apuração em curso que o Conselho Consultivo sugeriu a rejeição da abertura do processo de impeachment.

Dos 12 integrantes do órgão, nove participaram da reunião. Apenas José Carlos Ferreira, presidente do Conselho Deliberativo entre 2011 e 2014, votou a favor da abertura do processo, agora nas mãos dos membros do Conselho Deliberativo.