Da base em Ubá à Europa: Kauã Sales, futebol, a maior batalha da carreira e a luta pela volta aos gramados
Zagueiro formado em Ubá, Kauã construiu um caminho sólido até o futebol europeu, viu a carreira ganhar projeção em Portugal e precisou interromper o sonho para enfrentar um câncer, transformando a luta fora de campo no maior desafio da sua vida.
Natural de Ubá, em Minas Gerais, o zagueiro Kauã Batista Sales de Souza, de 19 anos, cresceu em um ambiente onde o futebol fazia parte da rotina. Desde muito cedo, a bola esteve presente, impulsionada pelo incentivo da família. “Eu comecei a jogar quando era molequinho mesmo. Quem me incentivou muito foram meus pais, a Rita e o Leandro, e meus tios. Todo mundo jogava bem, eu cresci no meio deles”, relembra.
Os primeiros passos aconteceram na escolinha do bairro, onde encontrou um personagem fundamental na formação inicial. “O treinador Denilson, mais conhecido como D, me ajudou bastante, me incentivou muito”, conta. Depois, veio a passagem pelo Aymorés, onde permaneceu até os 15 anos e passou a enxergar o futebol com outros olhos. “Foi ali que eu comecei a criar mais gosto”.
A carreira ganhou novos contornos quando Kauã deixou Minas Gerais para atuar no Mato Grosso do Sul, defendendo o Águia Negra no Campeonato Estadual Sub-17. Na sequência, voltou ao estado natal para jogar pelo Uberlândia, já no Sub-20. Mesmo começando no banco, conquistou espaço com o desempenho nos treinos. “Eu era mais novo, tinha zagueiros mais velhos, mas comecei a treinar bem, pegar titularidade e ganhar experiência”.
O bom rendimento abriu portas para o Goiás, onde encontrou forte concorrência. “Era uma geração muito boa, que tinha chegado na semifinal da Copinha. Não tive tanta oportunidade”, explica. A alternativa foi o empréstimo ao Trindade, clube parceiro, onde viveu um dos melhores momentos da carreira no Brasil. “Cheguei, consegui fazer um ótimo campeonato, fui eleito o zagueiro ideal do time do campeonato.” O título escapou nos pênaltis, mas o desempenho chamou atenção.
A boa fase resultou em uma proposta internacional, o Santa Clara, de Portugal. A decisão foi tomada em conjunto com a família. “Conversei com meus pais e com o empresário, e a gente decidiu ir.” A adaptação ao futebol europeu foi rápida. “No começo estranhei bastante, foi tudo muito rápido. Mas me adaptei. Cheguei no banco, briguei pelo espaço, virei titular e estava jogando todos os jogos. Estava bem”.
Foi justamente atuando em Portugal, vestindo a camisa do Santa Clara, que sua trajetória sofreu uma interrupção inesperada.
A luta fora de campo: O diagnóstico em Portugal e o recomeço no Brasil
No auge da passagem pelo futebol português, Kauã começou a sentir sinais que mudariam completamente sua rotina. “Apareceu uma dor estranha no joelho. Começou a evoluir com o tempo, não melhorava com fisioterapia nem com remédio.” O inchaço chamou a atenção do departamento médico do clube. “O Santa Clara achou estranho e pediu exame”.
Os exames realizados em Portugal indicaram a suspeita. “No exame deu a suspeita de tumor no fêmur.” A partir daquele momento, o futebol deixou de ser prioridade. “Daí pra frente foi uma série de exames, exames de sangue, até constar o tumor, na parte distal do fêmur.”
Com o diagnóstico confirmado, Kauã decidiu retornar ao Brasil para iniciar o tratamento ao lado da família. “Vim pra ficar perto da minha mãe e do meu pai. É bem melhor.” O impacto da notícia também trouxe silêncio e cuidado emocional. “No primeiro momento, eu queria evitar ficar falando”.
A mãe foi a primeira a saber, seguida pelo pai. “Eu tinha receio de contar pros meus irmãos mais novos. Sou o mais velho, não sabia como eles iam reagir.” O tratamento acontece em Muriaé, na Fundação Cristiano Varella, instituição que ele faz questão de destacar. “É um hospital que não tem nem palavras pra descrever. Todo mundo me abraçou”.
Após a cirurgia, o foco passou a ser a recuperação. “Graças a Deus, já fiz a cirurgia. Estou quase terminando o tratamento, deve acabar no meio do ano. Agora é focar na recuperação.” O apoio familiar tem sido decisivo. “Tenho que agradecer muito meu pai, minha mãe, minha avó Marli, que fica comigo o dia inteiro. Meus irmãos, o Luan e a Luísa, mesmo sem saberem de tudo, já me ajudam muito”.
Mesmo à distância, o vínculo com o futebol europeu segue presente. “O Santa Clara me ajuda até hoje com tudo que eu preciso. Sou muito grato ao presidente, o Bruno Vicentim”.
Sem prazos definidos para o retorno aos gramados, Kauã mantém serenidade e fé. “Previsão mesmo eu não tenho. A recuperação é demorada. Vou deixar na mão de Deus e ver o que Ele pretende pra mim”.
A história de Kauã Sales segue em construção. Dos campos em Ubá ao futebol europeu, e agora na maior batalha da sua vida, o zagueiro enfrenta o momento mais difícil da carreira com a mesma característica que o levou até ali: Resiliência.