Em 10 anos, Infantino aproximou a Fifa de disputas geopolíticas e expandiu competições
SÃO PAULO, SP, E SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Fotos ao lado de ídolos do esporte, como Marta e Cristiano Ronaldo, misturam-se a registros com chefes de Estado em eventos como o Fórum Econômico Mundial e o Conselho de Paz, recém-criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O perfil de Gianni Infantino no Instagram reúne cerca de 3.300 publicações entre fotos e vídeos, organizadas em uma linha do tempo cuidadosamente construída para reforçar as conexões do presidente da Fifa dentro e fora do esporte.
Em dez anos à frente da entidade, o suíço-italiano se apresentou ao mundo como um diplomata global, disposto a atuar como interlocutor entre países, governos e organizações internacionais.
Essa atuação política foi recentemente investigada pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), do qual é membro, sob suspeita de violar as regras de neutralidade da entidade. A apuração foi aberta após sua participação, no início do mês, na reunião inaugural do Conselho de Paz, em Washington, dedicada à reconstrução da Faixa de Gaza.
O presidente da Fifa aderiu a um fundo voltado à revitalização do futebol na região. Durante o discurso, porém, chamou atenção ao usar um boné vermelho com a sigla USA e os números 45-47, referência aos dois mandatos de Trump na Casa Branca. O republicano é o 45º e o 47º presidente americano.
O COI absolveu o dirigente sob o argumento de que a Fifa cumpria "seu papel" ao integrar esforços de reconstrução, sem mencionar o boné que motivou a denúncia.
A proximidade com o republicano nunca foi disfarçada. Infantino entregou a Trump o "Prêmio da Paz" da Fifa em dezembro de 2025, na cerimônia do sorteio da Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, México e Canadá.
Os EUA também receberam ano passado a primeira edição do Mundial de Clubes com 32 equipes, vencida pelo Chelsea, torneio reformulado como parte da estratégia de expansão global da entidade.
Infantino já havia defendido publicamente que Trump deveria receber o Nobel da Paz pelo papel no cessar-fogo entre Israel e Hamas. A homenagem da Fifa ocorreu em meio à escalada de tensão entre Estados Unidos e Venezuela, quando Washington já ensaiava uma operação militar no país sul-americano que seria concluída em janeiro, com a captura do ditador Nicolás Maduro.
O dirigente também se posicionou sobre outros conflitos internacionais. Em janeiro, em entrevista ao programa The World with Yalda Hakim, da Sky News, afirmou ser favorável ao fim da proibição imposta à Rússia após a invasão da Ucrânia. "Essa proibição não alcançou nada, apenas gerou mais frustração e ódio", disse.
Segundo ele, a Fifa mantém diálogo com regimes considerados repressivos, como Irã e Coreia do Norte, na tentativa de promover o futebol feminino. "São processos que levam anos. Não se consegue isso com ameaças e sanções", afirmou.
Infantino declarou que mulheres iranianas, proibidas de frequentar estádios desde a revolução de 1979, passaram a receber autorização para assistir a jogos. Também citou visitas a Pyongyang como exemplo de sua estratégia. "Disseram que não deveríamos ter relação alguma com a Coreia do Norte, mas fui lá, conversei com o regime e hoje temos equipes femininas campeãs mundiais nas categorias juvenis", afirmou, apontando o episódio como legado de sua gestão.
O dirigente chegou ao poder em 26 de fevereiro de 2016, impulsionado pela influência do francês Michel Platini, então presidente da Uefa e principal nome na sucessão de Joseph Blatter. As ambições políticas do ex-jogador ruíram após os escândalos de corrupção que atingiram a Fifa a partir de 2015.
No fim daquele ano, Blatter e Platini foram banidos do futebol por oito anos ?punição depois reduzida para seis. O francês havia recebido cerca de US$ 2,3 milhões (aproximadamente R$ 8 milhões à época) em pagamento autorizado pelo suíço por serviços prestados entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000.
Embora ambos tenham sustentado a legalidade da operação, o Comitê de Ética da Fifa os puniu por "conflito de interesses" e "gestão desleal", encerrando a era Blatter após 18 anos no poder. Os dois também foram investigados pela Justiça da Suíça e, no ano passado, acabaram absolvidos.
Na campanha, Infantino transformou a crise institucional em sua principal bandeira. Durante cinco meses, percorreu o mundo prometendo recuperar a credibilidade da entidade, então associada às imagens de dirigentes sendo presos.
Também conquistou apoio das federações nacionais ao defender a ampliação da Copa do Mundo. O torneio passará de 32 para 48 seleções a partir da próxima edição, organizada por Estados Unidos, Canadá e México.
A estratégia garantiu a vitória no pleito mais disputado da história da Fifa, decidido em dois turnos. No primeiro, venceu o xeque Salman bin Ibrahim Al-Khalifa por apenas três votos, 88 a 85. No segundo, ampliou a vantagem para 115 a 88.
"Quero trabalhar para reerguer a Fifa em uma nova era. Vamos colocar o futebol no centro do palco", afirmou em seu discurso de vitória.
Reeleito por aclamação em 2023 como candidato único, Infantino poderá disputar um último mandato em 2027. Se vencer e concluir o período, terá permanecido no poder por 15 anos.
