Classificada à Copa, seleção do Irã tem futuro incerto após ataques dos EUA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã iniciados no último sábado (28) lançam dúvidas sobre a participação da seleção iraniana na Copa do Mundo, eventualmente até inviabilizando a presença da equipe na competição.
Especialistas em Relações Internacionais e em Direito Internacional enfatizam que, embora ainda haja muitas incertezas em torno da continuidade do conflito armado e suas potenciais ramificações, é fato que a preparação da seleção iraniana para o Mundial já está prejudicada pela tensão na região.
"Não apostaria muito dinheiro na participação do Irã na Copa do Mundo", disse Kai Lehmann, professor do IRI (Instituto de Relações Internacionais) da USP (Universidade de São Paulo).
Segundo ele, diante dos acontecimentos recentes, a própria segurança da delegação iraniana em solo americano fica sob elevado risco.
"A Copa vale muito dinheiro para a federação iraniana [cada federação recebe US$ 10,5 milhões da Fifa pela participação no torneio] e, diante da crise no país, acho que eles gostariam de participar. Por outro lado, nesse momento, não vejo como, em termos práticos, essa participação poderia acontecer, porque ninguém poderia garantir a segurança do elenco e dos funcionários", disse Lehmann.
O professor do IRI acrescentou que, com os conflitos no Irã e a morte do líder supremo Ali Khamenei, é difícil de prever qual será a situação do próprio país asiático daqui a cerca de três meses, quando começa a Copa do Mundo.
"É um sistema onde o líder acumula um grande poder. Então, quem garante que não vai haver mudanças na federação iraniana de futebol até lá?", questionou Lehmann.
Cientista político e coordenador do curso de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, Rodrigo Gallo afirmou que, em caso de exclusão da seleção do Irã da Copa do Mundo, ou se a seleção se retirar de forma voluntária do torneio, como um protesto, a Fifa tem precedentes no regulamento para preservar o formato da competição ?que será disputada por 48 seleções? indicando um substituto com base em critérios esportivos ou via repescagem continental.
"Além disso, o regulamento disciplinar da entidade prevê a possibilidade de sanções à federação envolvida, que podem incluir multas, indenizações por perdas contratuais e até suspensões em competições futuras, dependendo das circunstâncias e da fundamentação da eventual exclusão", disse Gallo.
Advogado especialista em Direito Internacional, Daniel Toledo também afirmou que as alternativas mais prováveis para substituir o Irã seriam chamar o próximo classificado asiático ou recorrer ao sistema de repescagem, sempre tentando manter a coerência esportiva e reduzir o risco jurídico.
"Chamar a seleção que ficou imediatamente atrás do Irã no grupo ou na fase final classificatória é o critério mais simples e juridicamente mais defensável, porque preserva a lógica esportiva do torneio", afirmou Toledo.
O Irã confirmou sua participação na Copa em março de 2025, após um empate com o Uzbequistão que garantiu à seleção iraniana uma das vagas diretas no Grupo A das Eliminatórias asiáticas. O próprio Uzbequistão também ficou com uma das vagas diretas do grupo. Terceiros colocados, os Emirados Árabes Unidos disputaram um play-off e foram eliminados pelo Iraque.
O Irã está no Grupo G da Copa do Mundo, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, com jogos em Inglewood e Seattle, nos Estados Unidos, e Vancouver, no Canadá.
"Além dos bombardeios ao Irã, já vínhamos tendo toda a questão envolvendo a política anti-imigratório do governo americano e a atuação do Ice", afirmou Camylle Caldas, pesquisadora de esportes e RI do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
"Então, se o Irã de fato comparecer à Copa, seus jogos vão ser sempre marcados por muita insegurança, até para a própria torcida e a comunidade iraniana presente", disse Camylle.
Toledo acrescentou ainda que a Fifa, como entidade privada de direito suíço, tem estatuto próprio e exige que as federações nacionais sejam independentes de interferência governamental. "Em tese, conflitos armados não levam automaticamente à exclusão de uma seleção."
O que poderia gerar a suspensão é o descumprimento de regras da Fifa ou uma eventual intervenção estatal direta na federação, afirmou Toledo. "Portanto, apenas o fato de haver ataques militares contra o Irã não implica, juridicamente, a exclusão imediata da seleção."
O especialista assinalou também que um fator que não pode ser descartado é a possível pressão de patrocinadores. A governança do futebol moderno é altamente dependente de contratos comerciais bilionários, e decisões esportivas muitas vezes acabam sendo influenciadas por riscos reputacionais, disse Toledo.
"Do ponto de vista jurídico, qualquer federação que se sinta prejudicada pode recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte alegando violação do princípio da igualdade esportiva ou mudança abrupta de regulamento. O CAS costuma analisar se a decisão respeitou critérios objetivos e previamente estabelecidos no regulamento da competição", afirmou o advogado.
Procurada, a Fifa afirmou que não se pronunciaria por enquanto. "Tivemos uma reunião hoje e seria prematuro comentar sobre ela em detalhes. Mas, é claro, acompanharemos os desdobramentos em torno de todas as questões ao redor do mundo", declarou Mattias Grafstrom, secretário-geral da Fifa, no sábado.
