Entenda as punições de Douglas e Mara Casares, expulsos do São Paulo

Por VALENTIN FURLAN

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O Conselho Deliberativo do São Paulo definiu as punições a Mara Casares e Douglas Schwartzmann em uma votação com ampla maioria, mas com enquadramentos diferentes em cada caso.

O Conselho Deliberativo do São Paulo enquadrou Mara Casares e Douglas Schwartzmann pela mesma ilicitude: gestão irregular e temerária, conforme previsto no regimento interno do clube e na Lei 13.155/2015.

A diferença está na forma como as punições foram consolidadas ao longo da votação.

Apesar de todas as deliberações terem sido aprovadas com mais de 90% dos votos, a leitura interna da apuração considera como decisivo o item com maior percentual de aprovação em cada caso.

Para Mara, esse índice aparece na condenação por gestão irregular, que recebeu 94,10% dos votos favoráveis e já prevê a eliminação do quadro associativo. Na prática, ela foi expulsa do clube, além de perder o mandato e ter contra si o reconhecimento do dever de ressarcir prejuízos ao São Paulo.

Já no caso de Douglas, o maior percentual (93,25%) está na deliberação que determina a eliminação do quadro associativo, consolidando sua expulsão. Além da perda de mandato e da obrigação de ressarcimento, ele também teve decretada a inelegibilidade, enquadrado na Lei Geral do Esporte.

A inelegibilidade prevista na Lei Geral do Esporte impede Douglas Schwartzmann de exercer cargos de direção em entidades esportivas por um período de 10 anos. Na prática, ele fica proibido de se candidatar ou ser nomeado para funções como presidente, diretor ou conselheiro em clubes, ampliando os efeitos da punição para além do São Paulo e afastando-o da atuação institucional no futebol.

MARA CASARES REPUDIA DECISÃO

A defesa de Mara Casares contatou o UOL repudiando a decisão do Deliberativo do São Paulo:

"A Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares, por meio de seus Advogados Rafael Estephan Maluf e Paula Stoco de Oliveira, manifesta publicamente seu profundo repúdio à decisão proferida nesta data pelo Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube, que determinou o encerramento do vínculo associativo com a instituição.

Frisa-que que a Sra. Mara Casares respeita as instâncias do clube ao qual dedicou anos de trabalho com extrema dedicação e zelo. No entanto, discorda frontalmente da referida decisão emanada de um procedimento interno que se baseou unicamente em matérias jornalísticas.

Ao longo de todo o procedimento, Mara colaborou irrestritamente com a apuração dos fatos, prestando todos os esclarecimentos solicitados e colocando-se à disposição da Comissão de Ética do São Paulo Futebol Clube. Não há, até o momento, qualquer evidência concreta de que tenha auferido benefício financeiro ou pessoal em relação aos fatos investigados.

Uma condenação desta gravidade sem lastro mínimo probatório é, no mínimo, um grave equívoco institucional, seja para a Sra. Mara, seja para outros associados do SPFC, pois criou-se um precedente gravíssimo de utilização de apurações internas do clube como instrumento de manobra política.

É lamentável que uma decisão desta magnitude, com consequências tão severas para a honra e a trajetória de uma pessoa, tenha sido adotada sem a observância do rigor probatório que o caso exige.

Por fim, a Sra. Mara Casares permanece certa de sua inocência, amparada pela convicção de sua integridade e pela confiança de que a Justiça cumprirá seu papel."

SCHWARTZMANN ACUSA CONSELHO DE 'PERSEGUIÇÃO POLÍTICA'

A defesa de Douglas Schwartzmann também enviou uma nota à reportagem:

"O processo administrativo que o Sr. Douglas Eleutério Schwartzmann a que foi submetido no SPFC pautou-se por perseguição política, linchamento midiático e flagrante cerceamento de defesa.

A acusação utilizou em um áudio de origem controvertida, sem cadeia de custódia comprovada, divulgado de forma fragmentada e fora de contexto, que acabou sendo tratado como prova absoluta, apesar das inúmeras inconsistências já apontadas pela Defesa.

A Defesa manifesta profunda preocupação com o perigoso precedente que se abre no âmbito do São Paulo Futebol Clube, especialmente diante da comemoração, por setores políticos, de uma decisão que se afasta diametralmente dos recentes julgados da própria instituição.

Não obstante repudie com veemência a decisão tomada pelo Conselho Deliberativo do SPFC, Douglas mantém absoluto respeito com a instituição São Paulo Futebol Clube, time que dedicou parte relevante de sua vida, de sua história e de seu trabalho."

RELEMBRE O CASO

Schwartzmann e Mara Casares protagonizaram um áudio no qual falam de uma suposta comercialização ilegal de ingressos de um camarote para o show da cantora Shakira, que ocorreu em fevereiro do ano passado, no Morumbis. Ambos seguem afastados e alvos de sindicância interna.

O nome do Marcio Carlomagno, considerado internamente o 'braço direito' de Casares, indicado pelo mandatário como superintendente geral do clube no CT da Barra Funda e até então principal nome da situação política para a eleição presidencial do clube em 2026, também foi citado no áudio.

Douglas reconhece que a operação foi clandestina, afirma que Carlomagno tinha conhecimento dos fatos e demonstra preocupação com os reflexos internos no clube, incluindo o risco de punições e desgaste político para os envolvidos.

O camarote envolvido é o 3A, localizado no setor leste do estádio e registrado nos sistemas internos como "sala da presidência".

Mara Casares teria recebido de Carlomagno o direito de uso do camarote 3A do estádio e repassado o espaço para exploração comercial no show de Shakira, em fevereiro. A venda dos ingressos ficou a cargo de Rita de Cássia Adriana Prado, que faturou cerca de R$ 132 mil com entradas de até R$ 2.100.

O caso avançou para a esfera judicial após Adriana acionar uma empresa parceira por suposta apropriação de ingressos sem pagamento. Com o boletim de ocorrência e o processo em andamento, Douglas Schwartzmann e Mara passaram a pressioná-la para retirar a ação.

O escândalo foi o que fomentou o afastamento dos diretores, alvos de auditorias interna e externa, bem como o processo de impeachment que culminou na renúncia de Casares à cadeira de presidente. Carlomagno acabou tendo demissão encaminhada dois dias depois de Harry Massis Júnior assumir a presidência do clube.