Após acordo do Flamengo com a Libra, Palmeiras anuncia saída do bloco
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cerca de uma hora após o anúncio de um acordo entre Flamengo e Libra (Liga do Futebol Brasileiro) relativo à distribuição do dinheiro dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras comunicou sua saída do bloco. Irritada com o que chamou de "atitudes egoístas", a presidente do clube, Leila Pereira, comunicou sua decisão na tarde de terça-feira (5).
É o mais novo desdobramento de uma briga que já vem se arrastando há algum tempo. Quando foi eleito à presidência do Flamengo, na virada para 2025, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, passou a questionar o contrato da Libra, assinado por seu antecessor, Rodolfo Landim. Ele chegou a conseguir o bloqueio de R$ 77 milhões destinado ao pagamento dos demais times do grupo.
Pelo modelo adotado na Libra, que reúne também agremiações como Flamengo, São Paulo e Santos, o dinheiro é distribuído no modelo 40-30-30: 40% de maneira igualitária entre os membros do bloco, 30% por performance no Brasileiro e 30% por audiência. O grupo chegou a um acerto até 2029 com a Globo para seus jogos como mandante.
Não foram divulgados os termos do novo acordo entre o Flamengo e a Libra. A nota oficial divulgada nesta terça diz que "foi encontrado um ponto de equilíbrio entre o que a nova diretoria do Flamengo requisitava desde que assumiu o comando do clube, em janeiro de 2025, e o que alguns clubes da Libra entendiam ser o modelo de sua preferência".
Estima-se que a agremiação da Gávea tenha assegurado ao menos R$ 30 milhões a mais por ano, o que irritou o Palmeiras. Leila Pereira, que coleciona entreveros públicos e particulares com Bap, chamou diversas vezes a conduta do rival de "torpe". Foi a linha também adotada no mais recente comunicado.
"É inegável que o bloco tenha obtido conquistas, entre elas o acordo vigente pelos direitos de transmissão na TV. Ao longo desse processo, contudo, atitudes egoístas -quando não predatórias- inviabilizaram a coesão necessária para a criação de um modelo compartilhado de gestão e governança", diz o texto divulgado pela agremiação alviverde.
"A saída da Libra não implica adesão do Palmeiras a qualquer outra associação representativa. O clube opta, neste momento, por acompanhar os próximos passos da possível estruturação de uma liga, conduzida no âmbito institucional da CBF. Seguimos abertos ao diálogo e dispostos a contribuir para promover a evolução estrutural de que o futebol nacional necessita", conclui.
O comunicado formal da saída não implica uma interrupção do contrato com a Globo. Como o compromisso da Libra com a emissora foi firmado com o Palmeiras como integrante, o clube continuará recebendo os valores que lhe cabem até a edição de 2029. Até lá, haverá provavelmente agressivas negociações sobre os campeonatos de 2030 em diante.
Quando cita em sua nota "outra associação representativa", o Palmeiras se refere à FFU (Futebol Forte União, o outro bloco de times que negociam os direitos de transmissão.
Esse grupo, inicialmente chamado de LFU (Liga Forte União), com equipes como Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e Internacional, adotou estratégias diferentes da Libra, tanto na captação dos recursos (com várias emissoras, não uma) e na distribuição (45% divididos igualitariamente, 30% por performance e 25% por audiência).
A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que mantinha alguma distância dessa disputa, liberando os clubes para negociar à sua maneira, passou recentemente a participar mais ativamente no processo. A confederação promoveu no último dia 6 um encontro sobre o tema que chamou de "histórico" com os 40 times das duas primeiras divisões nacionais.
Chegou a ser formulado um cronograma para a formação de uma liga única, sem a atual divisão em dois blocos. Mas as declarações dadas por múltiplos dirigentes na saída da reunião deixaram claro que a união está distante. O presidente do Vasco, Pedrinho, por exemplo, deixou o evento criticando Bap e John Textor, que ainda comandava o Botafogo. Já Leila concentrou seu ataque no Flamengo.
"O Palmeiras sempre caminha na posição de valorizar a competição. O Palmeiras não é o centro do universo. O Palmeiras não é o Real Madrid do Brasil nem o Real Madrid das Américas. Há clubes que se acham o Real Madrid. Podem até ser o Real Madrid da Shopee. Todos nós precisamos uns dos outros", declarou, na ocasião.
Um mês depois do "encontro histórico", em vez de o futebol brasileiro estar mais perto de uma liga única, vê-se mais dividido.