Como Neymar convenceu Ancelotti e garantiu sua última dança na Copa
(UOL/FOLHAPRESS) - Há alguns meses, as perspectivas de Neymar na luta por um lugar na Copa do Mundo não pareciam nada animadoras. Com dificuldades físicas, parecia incapaz de emendar uma sequência de jogos, a ponto de desfalcar o Santos justamente na partida na qual Carlo Ancelotti foi a Mirassol, em março, apenas para observá-lo.
Fora da última data Fifa antes do Mundial, o astro viu o treinador italiano dar um basta e dizer que não responderia mais perguntas sobre ele e sim sobre os jogadores que eram parte da seleção.
A novela terminou de forma apoteótica nesta segunda-feira (18), no Rio de Janeiro, com Neymar recebendo uma ovação ao ser anunciado entre os 26 nomes que disputarão a Copa do Mundo. Houve uma série de passos que fizeram com que Ancelotti fosse convencido a dar ao atacante a sua "última dança" com a camisa da seleção em um Mundial.
A EVOLUÇÃO FÍSICA
O primeiro deles é a evolução física de Neymar. A seleção brasileira o monitora desde a volta ao Santos no passado e esperava que ele atingisse uma série de parâmetros físicos ?no caso dele, os estabelecidos para jogadores ofensivos do elenco.
Dentre eles, marcos de distância percorrida durante os jogos, velocidade máxima atingida e ações por jogo em alta velocidade ?a grosso modo, acima dos 32 km/h. Neymar atingiu esses parâmetros nas últimas semanas, passando a ficar entre os primeiros do elenco do Santos em alguns deles.
Para além da capacidade de atingir essas marcas quando estivesse em campo, a segunda exigência para Neymar era que o fizesse sem se lesionar e jogando a maior parte das partidas. Com seis jogos em abril e quatro em maio, vários deles separados por intervalos de dois a três dias, o atacante evoluiu também nesse quesito.
Com isso, passou a ter a convocação considerada de forma mais profunda.
LOBBY NACIONAL, MAS, PRINCIPALMENTE, DE COLEGAS DE TIME
Neymar foi foco de um crescente lobby nacional pela sua convocação, mas, dentro dele, destaca-se o de outros jogadores da seleção brasileira, inclusive alguns que em tese concorreram com ele por uma vaga entre os 26.
Casemiro, Raphinha e João Pedro, entre outros, pediram por ele, em diferentes entrevistas e oportunidades. O lobby e a influência foram determinantes, ao lado da evolução física, na decisão final, como admitido pelo próprio Ancelotti depois da convocação.
"A avaliação tem sido a parte física para ele. Os últimos jogos [ele] jogou com continuidade, pode melhorar a condição até o primeiro jogo da Copa, mas pensamos que parte da experiência nesse tipo de competição, o carinho que tem no grupo, o ambiente que pode ajudar a criar e tirar o melhor dele", disse o italiano.
MUDANÇA DE POSTURA E SINALIZAÇÕES POSITIVAS
Em agosto do ano passado, ao ser questionado sobre a presença do coordenador técnico da seleção Juan para observá-lo em um confronto diante do Juventude, Neymar deu uma resposta atravessada: "Não preciso provar para nada para ninguém".
Precisava, e teve que provar. A postura na reta final foi bem diferente, deixando a decisão a cargo de Ancelotti e dizendo que, caso não fosse convocado, acompanharia a Copa como torcedor. Nos bastidores, nas últimas semanas, a comissão técnica da seleção recebeu sinalizações positivas sobre a disposição de Neymar em ir a Copa como mais uma opção de elenco e a sua vontade de contribuir de qualquer forma que fosse possível.
Em uma das entrevistas pedindo por Neymar, Casemiro ressaltou a possibilidade de tê-lo para atuar por 20 ou 30 minutos em partidas, sem que houvesse qualquer reação negativa da parte do atacante.
Ao convocá-lo, Ancelotti não deu qualquer garantia de que vai utilizá-lo como titular. "É um jogador importante na Copa, tem o mesmo papel e obrigação que os outros. Tem a possibilidade de jogar, ficar no banco, tem a mesma responsabilidade. É experiente".
FUTEBOL, UMA NÃO CIÊNCIA, E SEUS INTANGÍVEIS
Com Neymar no elenco, Carlo Ancelotti está diante do maior jogador brasileiro dos últimos 15 anos. O camisa 10 não tem brilhado pelo Santos e mostra um futebol bem abaixo do mostrado nos tempos de Barcelona e PSG, mas o nível que um dia foi capaz de atingir não foi esquecido.
Em mais de uma ocasião, Ancelotti relacionou seu amor pelo futebol ao fato do esporte não ser uma ciência e carregar consigo alguns aspectos místicos e imprevisíveis.
"O futebol não é uma ciência exata. Cada um tem sua opinião, não dá para dizer se é errada ou correta. A medicina tem uma universidade, o futebol, por sorte, não. Digo por sorte porque isso é que é o bonito do futebol, todo mundo pode opinar, pensar de diferentes maneiras", disse nesta segunda-feira (18) na convocação.
Ao ter Neymar no grupo, o italiano aposta que, no ambiente de seleção brasileira e em sua última chance de escrever um final feliz com a camisa amarela, o atacante consiga, ainda que por alguns minutos, mostrar que ainda é Neymar.
A seleção brasileira se apresenta na Granja Comary, em Teresópolis, no próximo dia 27, para iniciar a preparação para a Copa do Mundo. A estreia no Mundial é no dia 13 de junho, diante do Marrocos, em Nova Jersey,