Receita dos clubes bate recorde em ano de Mundial, mas dívidas geram alerta

Por IGOR SIQUEIRA

RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Os resultados financeiros mais recentes dos clubes da elite do Brasileirão mostram que o time de bilionários aumentou. Mas isso não quer dizer que a saúde financeira geral está boa.

Em um universo de arrecadação total de R$ 14,9 bilhões, o endividamento líquido é quase equivalente: R$ 14,3 bilhões, segundo levantamento e critérios adotados pela EY.

Na parte positiva desse cenário, cinco clubes ultrapassaram individualmente a marca do bilhão: Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense. Juntos, eles representam 49% das receitas dos clubes da Série A no ano passado. Quatro deles disputaram o Mundial de Clubes da Fifa.

"A competição adicionou mais de R$ 800 milhões aos cofres dos clubes participantes. Sem ela, o incremento total da receita não recorrente dos clubes da Série A teria subido 21% ao invés de 31%", aponta ao UOL Martin Larriera, gerente de Esportes da EY.

PARA ALÉM DO MUNDIAL

No contexto geral, o dinheiro contabilizado pelos clubes ganhou um impulso também pelo início do novo ciclo do contrato de TV do Brasileirão. A divisão disso foi afetada do lado em que cada um estava ?Libra ou Futebol Forte União.

O ano de 2025 trouxe mais um passo de crescimento nas receitas dos clubes. O percentual de aumento de 2021 para cá é de 73%, também pelo fenômeno das SAFs e chegada dos patrocínios de casas de apostas.

Líder de arrecadação, com 2,08 bilhões em 2025, o Flamengo já está navegando nas cifras bilionárias desde 2021 e ganhou a companhia do Palmeiras em 2023.

São Paulo, Fluminense e Botafogo são novatos no clube do bilhão ?que chegou a ter o Corinthians no ano anterior, mas não em 2025.

"O Mundial trouxe uma receita relevante para os times que participaram, principalmente para o Fluminense, único clube brasileiro a ir até a semifinal da Copa do Mundo de Clubes, que teve um aumento de aproximadamente 247% em relação a 2024, passando de R$ 167 milhões para R$ 580 milhões em receitas de direitos de transmissão e premiação", disse José Ronaldo Rocha, Sócio de Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY para América Latina.

As principais fontes de receitas dos clubes se dividem, em linhas gerais, em quatro categorias: direitos de TV/premiação, matchday, parte comercial e transferências de jogadores.

*

O RESULTADO TOTAL EM 2025 FOI:

Direitos de TV/premiações: R$ 4,9 bilhões

Receitas comerciais: R$ 3,1 bilhões

Transferências de jogadores: R$ 3,9 bilhões

Matchday (bilheteria e estádios): R$ 1,8 bilhão

O Mundial de Clubes impactou diretamente na primeira delas (TV e premiações). Mas como fenômeno que acontece a cada quatro anos, o pedaço da arrecadação referente ao Mundial de Clubes precisa ser vista com certas ressalvas no diagnóstico dos clubes.

"O principal ponto é como essa receita é utilizada. Quando esses recursos são direcionados para investimentos pontuais, como infraestrutura, reforços ou redução de dívida, eles fortalecem o clube. O risco está em transformar uma receita extraordinária em despesas recorrentes, como folha salarial, criando um desequilíbrio nos próximos ciclos", disse Larriera.

E AS DÍVIDAS?

Mas nem só com receitas se mede a saúde financeira de um clube. O diagnóstico coletivo fica mais realista quando o endividamento entra no cenário. Para alguns, o saldo é preocupante.

O Botafogo é o principal retrato disso. Até porque o balanço da SAF então comandada por John Textor contabilizou um montante fora do comum em transferências (R$ 733 milhões), mas passa longe de representar dinheiro em caixa, como se vê na temporada atual.

A dívida - esta, sim - traz o choque de realidade. O Botafogo, segundo o levantamento da EY, tem o segundo maior endividamento líquido do Brasil, na casa dos R$ 2 bilhões. Só perde para os R$ 2,28 bi do Atlético-MG.

Diante da dificuldades de pagar as despesas do cotidiano, sufocado por transfer bans e ameaçado de execuções na Justiça, o Botafogo entrou em recuperação judicial.

A dívida, por si só, não é um problema. Há clubes com alta capacidade de pagamento que fazem compromissos e investimentos futuros, sem que isso comprometa o dia a dia. Tanto é que o Flamengo quis e conseguiu já aumentar seu endividamento em 2026, ao contratar Lucas Paquetá.

Um índice que ajuda a entender se a dívida cabe no bolso é a proporção com a receita.

Mesmo entre os bilionários da temporada, o São Paulo ficou com o terceiro resultado mais alto (com isso, mais preocupante). O nível de endividamento líquido representou 2,24 vezes o que foi arrecadado em 2025.

O Tricolor só não esteve pior do que Atlético-MG (dívida 3,44 vezes maior do que a receita) e Corinthians (2,81 vezes), mesmo desconsiderando o passivo da Neo Química Arena.

"O setor como um todo assumiu mais risco nos últimos anos. Houve um ciclo de investimento para ganho de competitividade, impulsionado pelo crescimento de receitas (como o patrocínio de empresas de casas de apostas e o ciclo de negociação dos direitos de transmissão) e pela entrada de novos recursos de investidores externos, o que naturalmente elevou o nível de gasto. Dá para dizer que, em muitos casos, as receitas não recorrentes (vendas de jogadores) foram transformadas em custos permanentes, o que aumenta a pressão de caixa nos períodos seguintes", analisou Martín Larriera.

Como parte do alerta sobre as dívidas aparece o número de endividamento com empréstimos: R$ 3 bilhões, 34% a mais do que em 2024.

Os clubes também estão se enrolando em relação aos tributos. O endividamento nessa linha bateu R$ 4,5 bilhões, 22% a mas do que no ano anterior.