Regra da hidratação transforma futebol em novo esporte e acende o debate
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A paralisação de três minutos para hidratação nos jogos da Copa do Mundo de 2026 vai transformar o futebol em um novo esporte. O cooling break, novidade implantada pela Fifa para o torneio no Canadá, Estados e México vai causar forte impacto em todas as áreas, dando mais poder aos treinadores com duas janelas para intervenções durante o confronto.
Muitos apontam a mudança como uma 'americanização' do futebol, com a divisão do jogo em quatro quartos, assim como os principais torneios esportivos dos Estados Unidos, NFL e NBA, e a criação de mais dois blocos comerciais para monetização.
O argumento da Fifa é que a paralisação foi feita para o bem-estar dos atletas devido a alta temperatura, com índices que podem superar a marca de 35 graus, nesta época do ano nos países-sedes (Canadá, Estados Unidos e México).
Entre os envolvidos do jogo e que foram procurados pelo UOL, apenas atletas apresentaram ressalvas sobre a pausa de três minutos. Um deles foi o meia Willian, atualmente no Grêmio. Jogador da seleção brasileira entre 2011 e 2019, ele aprova a ação para os jogos da Copa do Mundo por conta do forte calor, mas não vê necessidade de que isto seja implementado em países que não sofrem com altas temperaturas.
"É uma situação diferente nos Estados Unidos nessa época. No Brasil eu não sei se seria válido. No Brasil tem lugar que faz calor, mas tem lugar que faz frio no meio do ano. O meio do ano é inverno no Brasil e não tem tanto impacto. Acho que a parada para hidratação vale apenas nos lugares mais quentes, como é agora nos Estados Unidos nesse meio do ano. No Brasil, por exemplo, eu não vejo necessidade dessa parada", avaliou Willian.
Técnico da seleção brasileira, Carlo Ancelotti foi assistente técnico da Itália na Copa do Mundo de 1994. O calor dos Estados Unidos teve forte influência no desempenho dos atletas, que criticaram o horário das partidas. Para 2026, a Fifa não prevê jogos nas fases mais quentes do dia, situação que agrada ao treinador.
"Em 1994, os jogos eram meio-dia em Nova Iorque com 43 graus. Agora os horários são melhores. O clima não vai ser problema como foi em 1994", explicou o treinador.
No Campeonato Paulista deste ano, a Federação Paulista adotou sistema semelhante (o Campeonato Carioca adotou esse tempo técnico em 2010), mas com uma pausa inferior, de dois minutos. Atual técnico da Chapecoense, Fábio Mathias comandou a Portuguesa, equipe que surpreendeu no torneio e parou nas quartas de final nos pênaltis para o Corinthians.
A experiência no estadual foi aprovada por Mathias, que já colocava no planejamento da partida o que fazer em cada paralisação.
"Você pode usar a pausa para várias situações. A gente usava para ajustes posicionais da equipe. É importante a pausa para hidratação e dar uma energia maior para os atletas, mas é também um momento para o treinador ajustar a equipe. Eu vejo que isso deixa o jogo ainda mais estratégico", disse o treinador.
"A gente já deixava umas coisas pré-ajustadas sobre o que poderíamos fazer durante a parada. A gente fazia a leitura do início do jogo e ia ajustando para colocar essa ideia em prática nessa segunda parte de cada tempo", complementou.
A paralisação para hidratação aumentará o poder de arrecadação das emissoras detentoras dos direitos de transmissão da Copa do Mundo. Com os dois novos blocos comerciais, a expectativa dos canais é que o faturamento seja quase semelhante ao intervalo de 15 minutos entre cada tempo.
"É uma pausa curta, mas com alto potencial de engajamento e integração de marcas, especialmente se bem contextualizada na transmissão. Dependendo do formato de entrega, a inserção no cooling break pode, sim, ter um valor equivalente ou até mesmo maior que o intervalo tradicional por ser um momento em que o jogo está aberto", explicou Danielle Vilhena, especialista em marketing e diretora da agência End to End.
O SBT é um dos detentores dos direitos de transmissão da Copa do Mundo. O canal, que terá Galvão Bueno como grande estrela na narração, não fará um intervalo para propagandas. A ideia é ter alguma ação comercial, mas de forma leve para não perder a atenção da audiência.
"O SBT não fará um intervalo comercial no cooling break, mas terá um formato diferenciado do que costumamos fazer habitualmente em nossos intervalos. Esse "break" representa uma nova oportunidade complementar de faturamento, mas sem grandes intervenções publicitárias. O maior valor está na qualificação da entrega comercial, menos intrusivas e potencialmente mais eficazes em termos de engajamento. A pausa técnica deve ser compreendida como um espaço estratégico de reforço e diversificação de receitas, e não como um novo bloco publicitário de alta densidade", respondeu o SBT.
Já TV Globo e CazéTV, que também têm os direitos de transmissão da Copa do Mundo, não responderam sobre como vão usar a paralisação de três minutos.
Por mais polêmica que seja a decisão da Fifa, que também privilegia o aspecto comercial, a ação tem um peso científico que foi comprovado durante o Paulistão deste ano.
Coordenador de saúde e performance do Novorizontino, Anselmo Sbragia disse que o rendimento dos atletas foi superior no segundo tempo, contrariando os números de anos anteriores, quando não havia pausa e os atletas caíam de produção na etapa final.
"Essa é uma medida que deveria ser implantada para sempre. Ela é muito produtiva para o futebol. Quando você perde o rendimento físico, obviamente também cai o cognitivo e o tático. No Paulistão desse ano tivemos uma experiência muito boa. Temos estudos com uma base de dados que o atleta pode perder até 10% em todas as valências no segundo tempo. No Paulistão desse ano, não teve queda e o desempenho até melhorou", explicou Sbragia.