Times do pentacampeonato resistem no que sobrou da Little Brazil em Nova York
NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - "É isso, mano, tá ligado?", disse Fernando Fiore, 34, que se empolgou em uma discussão sobre a seleção brasileira. Para o paulista de São Bernardo do Campo, que atua há dois anos como garçom em Nova York, o cliente tinha toda a razão ao apontar que o problema da atual equipe nacional é o salto alto dos jogadores.
Fiore trabalha na rua West 46, em um trecho específico chamado de Little Brazil, entre a Quinta avenida e a Sexta avenida. Esse pedacinho da Big Apple, como é conhecida a cosmopolita cidade americana, já foi dominado por estabelecimentos comerciais brasileiros, com um fluxo frenético de turistas vestidos de verde e amarelo nos anos 80 e nos anos 90.
Hoje, restam dois restaurantes.
Naquele em que está Fernando ?entre imagens de sambistas, tucanos e figuras como Carmen Miranda e Santos Dumont?, a parede é ornada com pôsteres dos cinco times do Brasil que conquistaram a Copa do Mundo, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Mas até eles podem estar com os dias contados.
"Eu costumava colocar os cinco e também o time do ano, com uma interrogação: será que vem o hexa? Parei. Desta vez, eu nem quis colocar o sexto", afirmou o dono do Via Brasil, Luís Gomes, 79, antes de adotar um tom brincalhão, quase ameaçador: "Se não ganhar agora, eu vou tirar os cinco. Chega!".
Gomes montou seu restaurante em 1978. Viu o apogeu da Little Brazil, em uma época na qual se tornou comum brasileiros de classe média aportarem nos Estados Unidos buscando aparelhos eletrônicos ?eram múltiplas as lojas da rua 46 que vendiam esses produtos, àquela altura bem mais baratos do que no Brasil. E resistiu a múltiplas crises.
"O pessoal vinha para cá comprar Atari [videogame clássico, sucesso nos anos 80]. Agora, apertam um botão, chega tudo. Tinha excursão que vinha, a molecada toda feliz... Aí, descobriram a Disney. O que vão fazer aqui, nesta cidade suja?", resmungou o mineiro, que passou a maior parte de sua vida nessa cidade suja.
Mais do que a Disney, como observou a antropóloga Maxine M. Margolis no livro "Little Brazil ? uma Etnografia dos Imigrantes Brasileiros em Nova York", de 1993, a queda teve direta relação com a elevação dos aluguéis na ilha de Manhattan. Subiram prédios gigantescos, hotéis luxuosos, e minguou o espaço para pequenos negócios.
Em 1984, quando o espaço ainda nem era conhecido como Little Brazil, o jornal The New York Times publicou texto intitulado "Crise da dívida brasileira afeta um canto de Nova York". Luís Gomes, o dono do Via Brasil, já lamentava na reportagem que a rua não era mais a mesma, mas ela sobreviveu a ponto de ser o enredo do Império Serrano em 1999, "Uma Rua Chamada Brasil".
Na narrativa do carnavalesco Mário Borriello ?o mesmo do histórico "Peguei um Ita no Norte", do Salgueiro de 1993, aquele do "explode coração"?, "um jovem brasileiro, aventureiro como todos os jovens, após muitos sacrifícios e dificuldades (principalmente para obter o visto), finalmente chega à cidade de Nova York, cheio de sonhos e ilusões".
O samba é assinado pelo bamba Arlindo Cruz, em parceria com Carlos Sena, Maurição e Elmo Castro. "Em busca de um novo eldorado, ô, viajei? pro melhor lugar do mundo, fui tentar a minha sorte na 46", cantou Jorginho do Império. "Vi o jeito brasileiro na Grande Maçã", sorriu o intérprete, em rima que desaguava na "esperança de um novo amanhã".
Não muito depois do desfile imperiano, a Folha de S.Paulo noticiou em janeiro de 2000 que "a desvalorização do real foi o golpe de misericórdia para o reduto dos comerciantes em Nova York, a rua 46". O jornal apontava que, "das 18 lojas de brasileiros que se concentravam num único quarteirão, todas fecharam suas portas; ficaram só alguns restaurantes".
Ainda assim, o local se manteve como palco de celebrações cheias de verde e amarelo. Uma delas se deu em junho de 2002, na conquista do penta.
"Começou a festa: batucada, crianças, apitos, pulos e trenzinhos de Carnaval. A maioria era de imigrantes: brasileiros de todos os estados, de todas as idades e de todas as camadas da classe média, que vieram tentar fortuna, na esperança de que fazer a América do Norte fosse mais fácil do que fazer a América do Sul", relatou na Folha de S.Paulo Contardo Calligaris.
"Os brasileiros, vestindo as cores nacionais, embrulhados em bandeiras de vário feitio, dançavam por nostalgia da terra deixada: celebravam, assim, o vilarejo, o calor das famílias extensas, a clara definição das tarefas da vida e do que se precisa para cumpri-las, o conforto de uma comunidade em que os lugares são poucos, mas, em compensação, mais bem definidos", observou o psicanalista italiano.
Esses brasileiros se reuniam também em festejo anual realizado por quase quadro décadas. No Brazilian Day, multidões se juntavam na junção da rua West 46 com a Sexta avenida, com atrações musicais como Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho. O evento já não ocorreu em 2025, e não há planos divulgados de realização em 2026, outro sinal de que restou pouco da Little Brazil.
A pandemia de Covid-19 fechou mais uma porção de portas na rua 46 em 2020 e 2021. Sobraram o Emporium Brasil e o Via Brasil, no qual o garçom Fernando critica atualmente os jogadores da seleção. E admite a falta que sente do Brasil, tal qual a personagem que é o fio condutor da apresentação do Império Serrano de 1999.
No desfecho do samba e do desfile, o protagonista recebe uma carta de sua mãe, uma baiana da escola de Madureira, que lhe costurou a fantasia de mestre-sala, à sua espera. Ele não resiste e volta, certo de que manteve o padrão de outra notória homenageada da agremiação verde e branca: "Parabéns, Carmen Miranda, que conseguiu, mesmo distante, não deixar de ser Brasil".