O mais importante é criar uma cultura, diz Tiago Splitter, novo técnico do Chicago Bulls

Por JOSUÉ SEIXAS

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Primeiro brasileiro campeão da NBA como jogador. Primeiro brasileiro a comandar uma equipe da liga. Primeiro brasileiro a levar um time aos playoffs como técnico. Primeiro brasileiro a vencer uma partida de pós-temporada. Agora, Tiago Splitter acrescenta mais uma linha à lista de pioneirismos na carreira: tornou-se o primeiro brasileiro a assumir uma franquia da NBA -ele estava atuando como interino.

Apresentado pelo Chicago Bulls, o catarinense de 41 anos deixou claro que o trabalho à frente da franquia será pautado em desenvolver jogadores e estabelecer uma cultura para os próximos anos.

"Às vezes, existe uma relação em que, quando você desenvolve jogadores, isso significa que você vai perder muitos jogos. E o mais importante nessa questão toda é tentar desenvolver os jogadores e, aos poucos, que as vitórias reflitam isso, que isso seja um espelho. Quanto melhor eles acabam se desenvolvendo, mais vitórias vão vir no futuro", afirmou ao ser questionado pela reportagem em entrevista coletiva nesta segunda-feira (22).

A fala ajuda a explicar o momento vivido pelo Bulls. A franquia terá quatro escolhas no draft desta terça-feira (23), incluindo as posições 4 e 15 da primeira rodada, e aposta em uma base jovem para voltar a competir em alto nível nos próximos anos.

Segundo Splitter, esse tipo de projeto exige uma paciência que nem sempre é comum ao torcedor brasileiro.

"A gente sabe que esses atletas jovens vão demorar um tempo para melhorar. Eu acho que é uma paciência que a gente tem que ter e é um processo longo, às vezes. E eu acho que é uma coisa que talvez o brasileiro não está acostumado a ver. Isso se vê muito nos esportes americanos, quem acompanha sabe que existe uma etapa de construção dos seus jogadores."

Na avaliação do treinador, o próprio funcionamento da NBA obriga as franquias a seguirem esse caminho, já que existe um teto salarial que impede os times de contratar os melhores. É preciso desenvolvê-los, o que leva tempo.

"O mais importante de tudo é criar uma cultura. Acho que é uma palavra que pouco se fala no Brasil, mas muitos tentam fazer nos Estados Unidos. Então, criar um ambiente dentro do Chicago Bulls de desenvolvimento de jogadores, onde esses jovens que estão vindo ou que já estão no time realmente melhorem. Esse é o grande objetivo."

Foi justamente a possibilidade de participar dessa construção que atraiu Splitter para Chicago .

"A projeção de futuro, poder começar um time do zero e realmente colocar esse time pra jogar da forma que eu gosto. Obviamente, tendo a quarta escolha no draft, é uma coisa que dá uma refrescada no time."

Apesar da dimensão histórica da contratação, Splitter afirmou que não costuma pensar muito nos pioneirismos acumulados ao longo da carreira.

"É um orgulho poder ser, por sorte, o primeiro em muitas coisas. Espero que eu seja o primeiro de muitos. Mas, na verdade, no dia a dia eu não penso muito nisso."

O foco, segundo ele, está nos próximos passos: o draft, a montagem da comissão técnica e o início de um projeto que exigirá tempo para amadurecer.

"Todo mundo é ciente disso aqui, dentro da organização, dentro da franquia. Então, a gente está muito unido nisso e sabe qual é o objetivo. Mas também é até para os torcedores brasileiros entenderem um pouquinho como que funciona essa etapa que a gente vai passar aqui nos próximos anos. Que, às vezes, não é só vitórias e derrotas o mais importante, e sim esses jogadores jovens melhorando e, aos poucos, conseguindo vitórias."

Nascido em Joinville, Splitter atuou por sete temporadas na NBA. Foi comandado por Gregg Popovich no San Antonio Spurs e conquistou o título da liga em 2014, tornando-se o primeiro brasileiro campeão da competição.

Depois da aposentadoria, trabalhou nas comissões técnicas do Brooklyn Nets e do Houston Rockets antes de assumir o Paris Basketball, que levou aos títulos da liga e da copa francesas na temporada 2024/25.

No ano passado, chegou ao Portland Trail Blazers como auxiliar e acabou promovido ao comando da equipe. Sob sua direção, o time terminou a temporada com campanha de 42 vitórias e 40 derrotas, voltou aos playoffs pela primeira vez desde 2021 e venceu uma partida de pós-temporada antes da eliminação para o San Antonio Spurs.