Fui eleito como democrata socialista e vou governar como tal, diz Mamdani ao assumir prefeitura de Nova York

Por FERNANDA PERRIN

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Zohran Mamdani, 34, tomou posse nesta quinta-feira (1º) prometendo perseguir como prefeito de Nova York a agenda socialista pela qual foi eleito. "Disseram-me que esta é a ocasião para recalibrar expectativas, que eu deveria aproveitar a oportunidade para incentivar os nova-iorquinos a pedir pouco e esperar ainda menos. Não farei nada disso", disse.

O primeiro prefeito muçulmano da maior cidade americana fez uma cerimônia que, apesar de municipal, dirigiu-se aos EUA e ao mundo. "A partir de hoje, vamos governar com amplitude e ousadia. Talvez nem sempre tenhamos sucesso. Mas nunca poderão nos acusar de ter faltado coragem para tentar", afirmou, sob aplausos.

Em um dia gélido mesmo para os padrões locais, com sensação térmica de -8°C, o evento atraiu milhares de pessoas, que ocuparam quarteirões bloqueados nas proximidades da Prefeitura, localizada no sul da Manhattan. Nas redes sociais, a equipe do novo prefeito fez uma forte divulgação em dezembro, descrevendo o evento como uma festa.

Embora raramente citado nominalmente, o presidente Donald Trump esteve presente o tempo todo como o contraste contra o qual Mamdani e seus aliados se colocam -discursaram também nomes como o senador independente Bernie Sanders, que conduziu o juramento do novo prefeito, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, a primeira a falar à plateia.

Mas também foram alvo a elite nova-iorquina, com o público entoando o slogan "taxem os ricos", e o establishment do Partido Democrata que, apesar de ser a agremiação de Mamdani, relutou para aceitá-lo. Sanders e Ocasio-Cortez usaram suas falas para denunciar a desigualdade de renda e defender políticas públicas de educação, saúde e habitação.

"Nós escolhemos esse caminho porque sabemos que é o jeito correto, é o jeito inteligente, e porque sabemos que se pudermos ser bem-sucedidos aqui, podemos ser em qualquer lugar", afirmou a deputada, usando o famoso verso de Frank Sinatra sobre a cidade para ilustrar a esperança de que a plataforma à esquerda de Mamdani se fortaleça para além das fronteiras municipais.

O novo prefeito fez referência à mesma letra ao encerrar seu discurso, exaltando a cidade a fazer "o que os nova-iorquinos fazem melhor do que ninguém: daremos um exemplo para o mundo". "Se o que Sinatra disse é verdade, vamos provar que qualquer pessoa pode vencer em Nova York e em qualquer outro lugar também."

Sanders, por sua vez, parabenizou a cidade por "inspirar a nação". "Vocês desafiaram o establishment democrata, republicano, o presidente dos EUA e oligarcas ricos, e derrotaram eles na maior reviravolta da história americana", afirmou, sob aplausos.

Mamdani também disse ver sua gestão como uma oportunidade de restaurar a confiança na democracia, e prometeu ser um prefeito de todos os nova-iorquinos, incluindo aqueles que votaram em Trump. Em outro ataque ao atual presidente, o novo prefeito e seus aliados ressaltaram a diversidade étnica, religiosa e cultural da cidade como uma das suas principais qualidades, e prometerem defender a população imigrante.

Um dos convidados do evento, Murad Awawadeh, presidente da Coalizão de Imigrantes de Nova York, uma das maiores entidades de imigrantes dos EUA, afirma à reportagem que o novo prefeito não vai permitir a colaboração da polícia local com a ICE, a força federal usada por Trump para executar sua política de deportações em massa. "Sabemos que Mamdani vai garantir o investimento em serviços legais para imigrantes, para que as pessoas tenham um advogado para se proteger das ações federais", disse.

Por esse mesmo motivo, a ativista pró-imigrantes Aber Kawas, candidata democrata à Assembleia Estadual de Nova York, teme que o governo federal faça a cidade de exemplo para mostrar sua força. Ela diz que por isso vê como positiva a linha de comunicação estabelecida pelos dois em um encontro surpreendentemente amistoso na Casa Branca no final do ano passado.

Outro ponto central do discurso de Mamdani foi a defesa de um Estado atuante e competente. "Por tempo demais, buscamos grandeza no setor privado, enquanto aceitávamos mediocridade de quem serve ao público. Não posso culpar ninguém que tenha passado a questionar o papel do governo", disse. "Esperamos grandeza dos cozinheiros que manejam mil especiarias, de quem pisa nos palcos da Broadway, do nosso armador titular no Madison Square Garden. Vamos exigir o mesmo de quem trabalha no governo."

Conhecido por seu carisma, Mamdani também brincou em sua fala, citando logo no início a descoberta recente da confusão de Nova York ao contar seus prefeitos que gerou a dúvida se ele seria o 111º ou 112º.

Além do prefeito, tomaram posse o comptroller (posição equivalente a controlador de contas) Mark Levine e o defensor público Jumaane D. Williams -que fez uma referência inusitada ao Brasil ao citar o slogan "ninguém solta a mão de ninguém", viral entre opositores de Jair Bolsonaro após a eleição do ex-presidente.

O evento na Prefeitura de Nova York foi a segunda posse do dia. Mais cedo, à meia-noite de quinta (2h no horário de Brasília), Mamdani fez seu primeiro juramento em uma cerimônia menor, privada, oficializada por Letitia James, procuradora-geral de Nova York e desafeto de Trump. O local escolhido foi uma estação de metrô abandonada exatamente abaixo da Prefeitura.

Durante a cerimônia, Mamdani usou um Alcorão de seu avô e outro que pertenceu a Arturo Schomburg, escritor e historiador negro. Foi a primeira vez que um prefeito fez o juramento com o livro sagrado do islã.

James também participou do evento público, conduzindo desta vez o juramento de Levine, que prometeu apoiar o novo prefeito a executar suas principais promessas de campanha, como moradia e educação infantil acessíveis, e a proteger a comunidade imigrante das ações do governo federal.

A cerimônia alternou posses e discursos de figuras políticas com momentos comandados por religiosos e artistas. Logo no início, o imã Khalid Larif fez uma prece acompanhado por lideranças de outras religiões na cidade. Um coral de crianças de Staten Island entoou "Somewhere over the Rainbow", e o poeta Cornelius Eady declamou um texto dedicado à comunidade queer. Lucy Dacus cantou o hino trabalhista "Bread and Roses" (pão e rosas), que defende o direito à comida, lazer e artes da população.

O comitê de posse de Mamdani incluiu uma longa lista de celebridades, como a atriz Cynthia Nixon, de "Sex and the City", o ator John Turturro, de "Ruptura", o comediante e dramaturgo Cole Escola, a educadora e estrela da televisão infantil Ms. Rachel, e o lendário saxofonista de jazz Sonny Rollins.

Nascido em Kampala, capital de Uganda, Mamdani mudou-se aos sete anos para Nova York com os pais, de origem indiana. Filho de um professor da Universidade Columbia e de uma diretora de cinema, tornou-se cidadão americano em 2018.

Antes de ingressar na política, trabalhou como conselheiro habitacional, ajudando moradores de baixa renda do Queens a evitar despejos. Formado em estudos africanos pela Bowdoin College, criou na faculdade um grupo de defesa da Palestina, bandeira que também levou à campanha para prefeito.

Mamdani ainda chegou a ser cantor de rap, um histórico que contribuiu para seu carisma e forte conexão com a juventude. Seu apelo popular também vem de propostas voltadas ao custo de vida, especialmente o da habitação -um dos maiores problemas de Nova York.