Ação dos EUA contra Maduro deixa vazio de poder, diz professor venezuelano
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ação militar sem precedentes dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás Maduro cria um vazio de poder na Venezuela cujas consequências imediatas são imprevisíveis. A avaliação é de Tomás Straka, historiador e professor da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, que teme o aprofundamento da crise política e econômica no país.
Maduro e sua esposa foram capturados pelas forças americanas neste sábado (3), na maior intervenção contra a América Latina em décadas e após meses de ameaças feitas pelo governo de Donald Trump, que acusa o ditador e aliados de ligação com atividades ilícitas. Eles serão julgados por narcoterrorismo e crimes relacionados a tráfico de drogas em Nova York.
"Maduro acumulou muito poder. E não há um substituto óbvio à vista. Tecnicamente, [a vice-líder do regime] Delcy Rodríguez é a presidente e deveria convocar eleições dentro de 30 dias. Mas ela está em Moscou", diz Straka. "O chavismo está tentando se reagrupar, mas o único que se manifestou foi [o ministro do Interior] Diosdado Cabello. E não temos ideia do estado das Forças Armadas."
Número dois do regime, Delcy Rodríguez foi a principal articuladora de uma agenda econômica que combinou privatizações de ativos estatais e uma política fiscal mais conservadora, medidas que ajudaram a estancar o colapso econômico vivido pelo país nos últimos anos. Ainda não estão claros os objetivos da viagem dela à Rússia de Vladimir Putin, aliado histórico de Caracas, que até agora tem reagido de forma discreta à ação americana deste sábado.
Ainda assim, qualquer pretensão de Rodríguez ao Palácio Miraflores ficaria comprometida pelas denúncias de fraude eleitoral envolvendo Maduro. Para a oposição, o ditador e todos os integrantes do Executivo por ele indicados ocupam seus cargos de forma ilegítima.
Outros nomes apontados como possíveis sucessores de Maduro incluem Diosdado Cabello, um dos principais operadores da repressão contra dissidentes, além de figuras da oposição. Entre estas estão María Corina Machado, laureada com o Nobel da Paz em 2025, e Edmundo González, que disputou a Presidência contra o ditador em 2024. Ambos, porém, vivem fora do país, o que torna incerta a capacidade de exercer influência política efetiva dentro da Venezuela.
Diante de um cenário de completa incerteza, o professor Straka teme um aprofundamento da crise no país caso a transição de poder não seja resolvida de forma pacífica e por canais institucionais. Em 2017, a repressão contra manifestantes contrários à criação de uma Assembleia Constituinte resultou em mais de 150 mortes, de acordo com organizações que atuam com direitos humanos.
"De qualquer forma, na Venezuela, pelo menos até agora, não há uma situação de anarquia como as do Afeganistão e do Iraque [após a intervenção americana]. Em parte, isso pode ser consequência do medo decorrente das lembranças dos protestos de 29 de julho de 2024. A situação é de tensão e expectativa para ver o que acontece", diz Straka, em referência às manifestações após a contestada eleição em que Maduro foi proclamado vencedor, em que houve forte repressão das autoridades.
Segundo o professor, a ação dos EUA neste sábado foi cirúrgica, o que alimenta a suspeita de que tenha havido algum tipo de negociação com o governo Trump.
"Não sabemos se Maduro negociou sua saída. Ou se algum setor o entregou aos EUA. Também não sabemos se os EUA vão forçar uma mudança de regime ou se estão dispostos a uma transição com o chavismo", diz. "Quer dizer, de que outra forma eles [americanos] poderiam ter contornado todos os postos de controle de segurança e entrado em Caracas com a Força Aérea parada?"
Por ora, diz, há um "silêncio quase absoluto nas ruas", e as pessoas "estão em choque, aguardando mais informações". "Em poucas horas, veremos mais ou menos para onde isso está caminhando", afirma.
