La Repubblica completa 50 anos com jornalistas temendo demissões em massa
MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - À venda, o jornal La Repubblica completou nesta quarta-feira (14) 50 anos de circulação na Itália. Fundado em 1976 por Eugenio Scalfari, morto em 2022, o diário com sede em Roma se consolidou como um dos mais lidos e influentes do país.
Para celebrar o marco, foi inaugurada em Roma a exposição "La Repubblica. Uma História de Futuro", com imagens e páginas importantes dos 50 anos do diário. Participaram o presidente italiano, Sergio Mattarella, e outros políticos e personalidades. Do lado de fora, jornalistas da Redação protestaram contra a provável venda do jornal com faixas e os dizeres: "jornalismo, dignidade e independência".
Nos últimos meses, após rumores, os proprietários do grupo Gedi, ao qual pertence o La Repubblica, confirmaram que negociam a venda do jornal e outros títulos. Uma das tratativas é com o grupo grego Antenna. O Gedi faz parte da holding controlada pela família Agnelli-Elkann, também à frente da Stellantis (Fiat, Peugeot e outras montadoras) e do clube Juventus.
"Depois de seis anos de gestão desastrosa do grupo editorial, o atual dono, John Elkann, decidiu vender o que resta do Gedi para um armador grego", dizia um panfleto distribuído pelos jornalistas no protesto. "Ele tem esse direito, e nós temos o direito e dever de fazer exigências." Os jornalistas temem demissões em massa e o enxugamento do veículo, crítico do governo Giorgia Meloni.
Criado cem anos após o concorrente Corriere della Sera, tradicional jornal milanês, o La Repubblica surgiu num contexto de ebulição social e política e encontrou espaço entre leitores que buscavam acompanhar e entender as transformações em andamento.
Como lembra o documentário "Repubblica 50", quando o jornal foi criado, a Guerra do Vietnã tinha terminado havia pouco, a Microsoft era uma empresa recém-lançada e ainda repercutia no país o assassinato do escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini ?um dos intelectuais mais ativos daquele tempo. O documentário foi dirigido por Ezio Mauro, sucessor de Scalfari em 1996 e diretor de Redação por 20 anos.
Em 1976, a Itália vivia seus anos de chumbo, como é conhecido o período entre o fim dos anos 1960 e a metade dos anos 1980, marcado por atos terroristas da extrema direita e da extrema esquerda. "Era este o mundo a entender e a decifrar para poder contá-lo", diz Mauro no longa.
Quando o ex-primeiro-ministro Aldo Moro (Democracia Cristã) foi sequestrado, em 1978, pelo grupo Brigate Rosse, de extrema esquerda, foi com um exemplar do La Repubblica em mãos que ele foi fotografado pelos terroristas como prova de que estava vivo. Moro seria assassinado por eles semanas depois.
Nesse período, a tiragem do jornal, que era em torno de 70 mil cópias por dia, pulou para cerca de 150 mil. "Finalmente identifiquei meu público: reformista e republicano, apoiador de direitos civis, mas também dos deveres que deles decorrem", teria dito Scalfari, que já havia fundado nos anos 1950 a revista semanal L?Espresso, ainda hoje em circulação.
Entre os leitores a serem conquistados em 1976, escreve a jornalista Simonetta Fiori no caderno especial publicado nesta quarta, estavam professores, estudantes, políticos, intelectuais, sindicalistas, jovens e mulheres saídos do movimento feminista e do Maio de 1968.
Quando surgiu, o La Repubblica inovou no formato. Chegou em tamanho tabloide, manchetes curtas e tipografia forte. "Somente 20 páginas, com economia de papel e de peso: apenas um terço do Corriere. Nada de páginas policiais, pouco esporte, nenhum obituário", escreve Fiori. A ambição era ser um jornal menos local e mais nacional.
"O Repubblica nunca foi um jornal de partido, mas sempre esteve ao centro das grandes batalhas políticas e culturais do país. Isso devido ao relacionamento especial com a comunidade de leitores", diz no documentário o atual diretor de Redação, Mario Orfeo. "Com seu nascimento, o Repubblica dá cidadania a uma opinião pública que existia, mas não era reconhecida."
Nos anos seguintes, o periódico abriria lugar para esses temas, assim como ampliou a cobertura cultural e de variedades, com suplementos dedicados a moda, design, saúde e comida, entre outros. Além do diário impresso, hoje são duas revistas semanais, uma mensal e o caderno dominical "Robinson", referência em literatura.
Em 1997, o La Repubblica se tornou o primeiro jornal italiano a ter um site. Em 2025, fez uma reforma gráfica no impresso e lançou novo aplicativo para smartphones, que destaca podcasts e vídeos e permite ao usuário personalizar o acesso ao conteúdo, escolhendo repórteres e colunistas de preferência.
Hoje é o segundo jornal do país em números de circulação, atrás do Corriere della Sera. Segundo dados de novembro, teve tiragem diária de 130 mil (impresso e digital), ante 209 mil do concorrente.
