Em Davos, China desvia de crítica direta a Trump e fala em evitar 'lei da selva'
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O vice-primeiro-ministro da China, He Lifeng, criticou o que chamou de "lei da selva" durante seu discurso nesta terça-feira (20) no Fórum Econômico Mundial, em Davos, e reforçou a busca de Pequim por se posicionar como defensor da ordem internacional e do diálogo em meio a movimentos agressivos de Donald Trump.
"O mundo não pode retornar à lei da selva, onde os fortes se aproveitam dos fracos", disse He, sem mencionar um país específico.
Seu discurso, no entanto, ressaltou a necessidade de cooperação, em oposição ao confronto, recuperando inclusive as conversas renovadas entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping.
"Os fatos mostraram novamente que a China e os EUA vão ganhar com a cooperação e perder com o confronto, e que ambos devem e podem se ajudar para prosperar em conjunto", afirmou o vice-premiê ao comentar reuniões e contatos recentes de autoridades americanas e chinesas.
"Em vez de buscar respostas no confronto e no antagonismo, precisamos encontrar caminhos através da comunicação e explorar vias em que todos ganham. A China é um parceiro, não um rival de outros países, e o desenvolvimento da China se apresenta como uma oportunidade, não uma ameaça para a economia mundial", afirmou He.
Indiretamente, as declarações do vice-premiê abordam as recentes ameaças políticas e econômicas de Washington sob Trump, da invasão da Venezuela e captura do ditador Nicolás Maduro, às múltiplas e imprevisíveis tarifas aplicadas tanto a rivais quanto a aliados desde que o republicano retornou à Casa Branca, há um ano.
O pano de fundo mais recente é o atrito entre os EUA e seus aliados europeus sobre a Groenlândia, território autônomo dinamarquês cuja anexação Trump considera inclusive por meios militares ilegais -ação que seria como dinamite para a Otan, a aliança militar transatlântica.
Para além da ameaça militar, a medida mais imediata do americano tem sido a aplicação de tarifas adicionais a oito aliados europeus, incluindo o Reino Unido. Os europeus, por outro lado, falam em reação que inclui acionar instrumento anticoerção da União Europeia, cujas diretrizes implicam restrição de acesso ao mercado continental.
A China, no entanto, não tem se desenhado como o parceiro alternativo óbvio em meio às ameaças americanas. Líderes europeus, há tempos reticentes quanto aos interesses, objetivos e capacidades industriais chinesas, continuam criticando Pequim.
Em seu discurso em Davos, também nesta terça-feira, após a fala do vice-premiê chinês, o presidente da França, Emmanuel Macron, criticou o que chamou de práticas distorcidas da política econômica chinesa. "Controles de exportação se tornaram novas ferramentas mais poderosas, desestabilizando o comércio global e o sistema internacional", disse Macron. Por outro lado, ele defendeu o aumento de investimento chineses em setores-chave da Europa.
Mais tarde, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que se reuniu com o vice-premiê chinês em Davos. "Ele me disse que nesta semana mesmo, eles [chineses] completaram suas compras de soja [dos EUA], e estamos ansiosos pelas 25 milhões de toneladas do ano que vem", afirmou Bessent. O secretário também afirmou que o fluxo de terras raras da China para os EUA estavam normalizados.
