'Velha ordem acabou', diz Von der Leyen em Davos
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Em discurso a CEOs e políticos nesta terça-feira (20), em Davos, Ursula von der Leyen declarou que a "velha ordem" internacional acabou. A presidente da Comissão Europeia não economizou menções ao principal responsável por dar fim ao Ocidente, Donald Trump, que será a estrela de amanhã na estação suíça, sede do Fórum Econômico Mundial.
Segundo Von der Leyen, o bloco será "inflexível" diante das ameaças do presidente americano de anexar a Groenlândia, território autônomo que integra o Reino da Dinamarca. "A Europa precisa de se adaptar à nova arquitetura de segurança e às realidades que enfrentamos atualmente."
Desde o fim de semana, Trump vem elevando o tom sobre a maior ilha do mundo, que seria estratégica para a política de defesa americana. O presidente americano anunciou tarifas contra seis países da UE, Noruega e Reino Unido por participarem de exercícios militares organizados pela Dinamarca, especulou sobre a aquisição do território e ainda vazou uma conversa privada com o presidente francês, Emmanuel Macron.
A posição europeia é bastante delicada, pois conta com os EUA para lidar com a Rússia e buscar um acordo de paz na guerra da Ucrânia, que completa quatro anos no próximo mês. Além disso, havia fechado um acordo comercial considerado frágil com Trump, no ano passado, aceitando alíquotas de 15% sobre suas exportações.
"Na política, assim como nos negócios: acordo é acordo. Quando amigos apertam as mãos, isso deveria significar algo", disse Von der Leyen, especialmente pressionada no caso das tarifas. O Parlamento Europeu, que já ensaiava protelar a votação do pacto tarifário, assinado na Escócia, em julho, agora se conflagrou. Sobram críticas também à chefe da UE, que teria anuído com muita facilidade à proposta americana.
O tom agora é muito diferente. Von der Leyen falou de "uma nova forma de independência europeia", que se tornou um imperativo diante de "mudanças sísmicas" no mundo. A disputa em torno da Groenlândia, segundo ela, ameaça arrastar a Europa "para uma espiral descendente" que só beneficiaria Rússia e China, "os adversários que precisam ser mantidos longe da área estratégica".
"A segurança do Ártico só pode ser alcançada em conjunto, e é por isso que as tarifas adicionais propostas são um erro, especialmente entre aliados de longa data."
Uma reunião do Conselho Europeu, que reúne os chefes de Estado dos 27 países-membros da UE, foi agendada para quinta-feira (22). Estará em discussão uma lista de reações possíveis à ameaça ou mesmo à invasão americana na Groenlândia.
A mais óbvia é o pacote de retaliações de EUR 93 bilhões sobre produtos icônicos americanos, como jeans Levi's, uísque tipo bourbon e motocicletas Harley Davidson, herança de disputa tarifária ocorrida durante o primeiro mandato de Trump. Uma segunda ferramenta, o instrumento anticoerção, batizado de "bazuca" e nunca empregado, afetaria diretamente os negócios americanos no continente. Não é consenso entre os países e levaria alguns meses para ser empregado.
O pânico europeu com Trump é tamanho que uma saída ainda mais radical é ventilada. Em relatório a clientes, o economista-chefe do Deutsche Bank lembrou que bancos e governos europeus detém US$ 8 trilhões em ativos americanos, como ações e títulos. Mais do que o dobro do restante do mundo. Queimar isso, porém, seria uma opção quase nuclear, dado que derrubaria igualmente a economia europeia.
Em seu discurso, Von der Leyen, preferiu destacar que já há uma "nova ordem", usando como exemplo o recém-assinado acordo de livre comércio entre UE e Mercosul. O movimento expansionista de Trump também acelera tratativas antes emperradas com México, Indonésia e Índia, listou Von der Leyen em sua fala. "A Europa escolhe o mundo, e o mundo escolhe a Europa."
Ilustrando o confuso momento europeu, enquanto Von der Leyen usava o acordo com os países sul-americanos como sinal da independência europeia, milhares de fazendeiros protestavam contra ela e o tratado em frente ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
"O ponto é que o mundo mudou, de maneira definitiva. Temos que mudar junto", disse a presidente da Comissão Europeia.
