Guerra da Ucrânia, 4, muda planejamento militar global
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Conflito tido como impensável há pouco mais de uma década, a Guerra da Ucrânia entra nesta terça-feira (24) em seu quinto ano dando trabalho aos planejadores militares no mundo todo.
As lições do fracasso russo em emular o modo americano de fazer guerra no século 21, obtendo uma vitória rápida baseada na combinação de ataques aéreos e movimento blindado decisivo, vêm sendo objeto de estudo e reflexão.
A mudança mais óbvia é aquela decorrente da revolução dos drones. Tendo surgido como aviões de combate sem piloto, os robôs foram se tornando cada vez menores e mais letais nas linhas de frente, e vitais nos ataques kamikaze de longa distância.
"É uma evolução semana a semana", disse à Folha o russo Alexei Tchadaiev, criador de um revolucionário drone guiado por fibra óptica. A IA (inteligência artificial) já é um lugar-comum na zona da morte, as faixas de 25 km a 50 km de largura entre as linhas de batalha.
"Nela, nada vive", conta por mensagem o soldado ucraniano Valeri, que perdeu dois terços da companhia em que servia na região de Zaporíjia (sul).
Com isso, o emprego dos blindados foi redesenhado. Eles ainda são vitais para a ocupação de território, mas isso só ocorre quando a artilharia e os drones conseguiram abrir brechas nas defesas. Mais velocidade e menos peso também são fatores importantes.
Não por acaso, a nova geração do mítico tanque pesado americano Abrams, que foi revelada no fim do ano passado, já adota diversas soluções tiradas da prática na Ucrânia.
A torre, a exemplo do modelo russo Armata, é totalmente automática, sem soldados expostos. E há uma parafernália antidrone já embutida no blindado, que deverá ser até dez toneladas mais leve do que a versão atual e trazer um motor híbrido diesel-elétrico.
Dono da força mais poderosa da história, o governo dos Estados Unidos passou recibo no ano passado acerca de seu atraso no campo dos drones, lançando um programa ambicioso para se equipar rapidamente.
Hoje, fabricantes de modelos menores são desafiados a apresentar sua viabilidade produtiva em até duas semanas. Mais que isso, estão eliminados. Tal pressão levou à criação do primeiro esquadrão de drones suicidas para ataques de longa distância no Oriente Médio, em dezembro.
Os modelos, baseados no desenho iraniano do Shahed-136, que a Rússia emprega com várias versões suas na Ucrânia, já viram ação no ataque que capturou Nicolás Maduro em Caracas no começo de janeiro. A previsão de gasto com defesa para 2026 inclui quase R$ 50 bilhões para essas tecnologias.
A China está fazendo o mesmo, e no desfile militar dos 80 anos do fim da Segunda Guerra no ano passado, apresentou um verdadeiro mostruário de drones ?para ataque, vigilância, pequenos, enormes.
Na Europa, a revolução dos drones levou governos a se mobilizar. A Polônia, que viu os russos testarem sua defesa com incursões supostamente acidentais de aviões-robôs, firmou uma parceria com Kiev e deverá comprar tecnologia dos vizinhos em apuros.
Mas é no continente que outro fator central da invasão iniciada por Vladimir Putin há quatro anos, que deixou segundo estimativas cerca de 500 mil soldados mortos em ambos lados, mostra seu impacto: a visão de uma guerra de atrito que lembra mais as trincheiras ensanguentadas da Primeira Guerra Mundial (1914-18).
Em vez da velocidade ao ritmo de videogame das guerras da virada do século 21, começando com o ataque americano ao Iraque em 1991, o que se vê é um grande moedor de carne humana em ação com pouquíssimos avanços: Putin tem tomado territórios lentamente no leste e sul do vizinho.
Mesmo com muito menos recursos humanos, os ucranianos seguem com a vantagem da defensiva e até retomaram alguns quilômetros quadrados na semana passada, cortesia do colapso da comunicação na frente russa devido ao veto de Elon Musk ao sinal de seus satélites da rede Starlink a terminais que não sejam do governo ucraniano no país.
Com essa realidade, os membros europeus da Otan estão recorrendo a soluções mais tradicionais: a Polônia, os Estados bálticos e a Finlândia deixaram a convenção que vetava o uso de minas antipessoais e planejam um esquema para coalhar suas fronteiras com essas armas rapidamente.
A Alemanha, que tem puxado o gasto militar no continente depois que Trump deixou claro que a conta da guerra era um problema europeu, além de prever mais de R$ 2 trilhões em armamentos, quer aumentar seu efetivo em 45% até 2035.
Tão importante quanto, busca elevar de 35 mil para 220 mil o número de reservistas. "Os russos têm conseguido atrair até 35 mil soldados a cada mês, a maior parte com contrato. Isso é essencial numa guerra de atrito", afirma análise do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres.
"É impossível segurar esse ritmo de rolo compressor", queixou-se nesta segunda (23) o ex-chefe das Forças Armadas de Volodimir Zelenski, seu provável rival numa eleição presidencial, Valeri Zalujni, que é embaixador no Reino Unido.
