Risco de nova guerra com Irã já é parte do cotidiano em Israel
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A perspectiva de uma nova guerra regional com o Irã, ou ao menos a retaliação da teocracia em caso de ataque por parte de Donald Trump, já está integrada ao cotidiano dos moradores de Israel.
País acostumado com guerras maiores e menores, além de atentados terroristas desde sua fundação em 1948, o Estado judeu viu um novo patamar de ameaça a partir do recrudescimento da disputa com Teerã.
Em 2024, houve duas trocas diretas de fogo balístico entre os países, mas contida, e em 2025 a região viu uma guerra aérea aberta de 12 dias. Ainda que Israel diga que tenha derrubado quase 90% dos 600 mísseis lançados pelos iranianos, muitos passaram, matando 30 israelenses e ferindo 3.000.
E agora poderão vir mais, a depende do resultado das negociações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã, que terão uma nova rodada nesta quinta-feira (26) em Genebra.
"O maior impacto psicológico foi a normalização da incerteza. Você acorda, manda seus filhos para a escola, responde às mensagens de trabalho. E tudo isso ocorreu sob um constante cálculo de risco, que cobra um preço, mesmo que a vida pareça funcional", diz a jornalista Yfat Fouchs, 43, mãe de três meninos.
Moradora de Tel Aviv, ela passou parte do conflito do ano passado no quarto seguro de sua casa. Na sua vizinhança, diversas edificações foram atingidas por destroços de mísseis iranianos abatidos.
"As preparações passaram a ser em camadas. No nível prático, eu penso na logística: para onde vou, como vou lidar com as crianças, o que preciso acessar rapidamente. Mas há a preparação emocional, você tem de viver a vida ao máximo aceitando que a disrupção pode vir", conta.
Não muito longe de sua casa, no leste da principal cidade e mais óbvio alvo no caso de uma guerra, Yaniv Razovski, 30, já está em ritmo de guerra. Funcionário de um banco, ele viu ação no fim de 2024 no sul do Líbano, mas acha que não será convocado desta vez.
"A guerra será pelos ares, por isso já reforcei uma porta de meu quarto seguro e estou com água e mantimentos secos comprados para duas semanas", afirmou ele, que mora sozinho. No ano passado, sua casa térrea teve um muro derrubado por destroços.
Israel está em alerta máximo desde a semana passada. O governo de Binyamin Netanyahu inicialmente sugeriu a Trump adiar o ataque que pretendia aproveitar os protestos contra o regime iraniano, mas segundo relatos agora pressiona por uma guerra ampla.
"Trump comprou uma narrativa que mostra o Irã muito mais fraco do que ele é, o que o fez adotar demandas irrealistas", escreveu o analista iraniano Trita Parsi, radicado nos EUA.
Netanyahu está longe de inspirar confiança, após os trágicos dois anos de guerra na Faixa de Gaza e o drama dos reféns israelenses tomados no 7 de outubro de 2023 pelos terroristas do Hamas, o estopim da crise.
"Eu separo confiança nas instituições de confiança na política. Os sistemas de segurança e emergência de Israel são testados, a preparação é série", diz Yfat.
"No nível político, a confiança pública foi danificada, e isso importa. Resiliência não é apenas sobre mísseis e abrigo, é sobre liderança que se comunica honestamente com seus cidadãos. Essa lacuna é algo com que a sociedade ainda está lidando", completou.
Cento e vinte quilômetros ao norte dali, o médico intensivista Gilad, 37, prefere não refletir tanto. "Eu já voltei a trazer minha mochila com roupa para o caso de ter de ficar no hospital mais tempo", diz ele, que prefere não divulgar o sobrenome.
Ele trabalha em Nahariya, a meros 10 km da fronteira libanesa. Se um ataque do grupo Hezbollah, como inúmeros ao longo dos anos na região, é visto como uma ameaça menor, Gilad prefere se precaver.
"O governo diz que acabou com as capacidades deles, e parece que é verdade. Mas estamos no alcance de mísseis portáveis e morteiros, armas simples, fáceis de serem infiltradas perto da fronteira", diz ele, acostumado com a tensão.
Gilad afirma, contudo, temer que os iranianos ataquem com tudo o que têm, caso percebam um risco existencial para o regime. "Aí teremos problemas para segurar todos os mísseis que vão descer aqui. Da minha parte, mandei minha mulher e filha para Tiberíades, onde temos família.
