Imagens de satélite da China expõem forças dos EUA contra o Irã

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ator secundário na intrincada política do Oriente Médio, a China está presente de forma pouco usual na atual crise entre os Estados Unidos e o Irã, seu principal aliado regional.

Desde que Donald Trump decidiu escalar dramaticamente a presença militar americana na região para forçar Teerã a capitular e desistir de seu programa nuclear, em janeiro, a principal fonte de comprovações públicas da movimentação dos EUA é a MizarVision.

Trata-se de uma empresa chinesa de análise baseada em imagens de satélites comerciais, fundada em 2021 em Xangai. Apesar de privada, é vista nos meios de inteligência ocidentais como uma aliada fundamental das Forças Armadas de Xi Jinping.

Saíram de seu escritório fotos mostrando sistemas antiaéreos Patriot deslocados para o Qatar, aviões-radar E-3 Sentry na Arábia Saudita, dezenas de cargueiros, aviões-tanque e caças na Jordânia.

Nesta semana, duas cerejas para o bolo: a presença de 11 caças de quinta geração F-22 numa inédita estadia em base israelense, no caso Ovda no sul do país, e o reforço com modelos F-16 e aviões de reabastecimento, patrulha e transporte na ilha de Diego Garcia, no Índico.

Essa última revelação tem especial relevância, pois a base britânica no território que Londres vai devolver às Ilhas Maurício é a mais conveniente para o emprego de bombardeiros fora do alcance de mísseis iranianos.

O Reino Unido por ora tem vetado isso, mas a movimentação de material de apoio e caças nesta semana pode indicar alguma mudança, nem que seja como diversionismo: no ano passado, Trump posicionou seis bombardeiros furtivos ao radar B-2 na ilha, mas acabou atacando o Irã com aviões enviados dos próprios EUA.

A MizarVision faz, desta forma, um serviço análogo ao de empresas americanas como a Maxar, mas se há algo que os EUA não precisam é de satélites espiões privados. A China presumivelmente também não, mas aí entra o componente que Pequim quer sinalizar.

Primeiro, é uma forma de apoiar o Irã e outras forças anti-EUA do Oriente Médio sob o manto de uma atividade comercial. O serviço é tão bem feito que as fotos já vêm com identificação nominal e coordenadas de cada aeronave.

Por evidente, os aviões e outros ativos podem ser movidos, mas isso já é um problema para os planejadores militares americanos.

Extrapolando o raciocínio, a revelação pode obrigar mais emprego de forças antiaéreas, cujos mísseis são caríssimos e se exaurem rapidamente, como Israel viu na sua curta guerra de 12 com o Irã no ano passado.

Com isso, os EUA perigam ficar com menos munição, deixando o teatro do Indo-Pacífico, onde ocorre a competição direta com a China, menos protegido no caso de um hipotético conflito.

Segundo, voltando à crise atual, a divulgação é uma forma de dizer aos EUA o quão acurado é o monitoramento dos ativos americanos por parte de seu principal adversário global.

Mesmo o Exército de Liberação Popular, nome oficial das forças chinesas, publicou na semana passada um vídeo reunindo imagens de alguns de seus 204 satélites mostrando as oito principais bases americanas no Oriente Médio.

Não se sabe o tamanho da constelação a serviço da MizarVision, mas ela introduz um fator novo de presença chinesa numa área do mundo em que sempre ficou atrás em termos de influência dos EUA e, em menor escala, da Rússia.

Isso vinha mudando nos últimos anos, com a intermediação por parte de Pequim de um acordo de reconhecimento mútuo entre Irã e a Arábia Saudita. Em comum, os rivais do Oriente Médio são grandes fornecedores de petróleo para os chineses, o que também explica o interesse asiático.

Envolvimento mais direto da China, de todo modo, parece improvável. Há anos há relatos de que os iranianos usam desenhos simplificados de mísseis antinavio chineses para ajudar a engordar seu próprio arsenal, e nesta semana emergiu a informação de que uma esperada compra de modelos supersônicos CM-302 iria enfim acontecer.

Como no caso do acordo militar russo-iraniano que em tese irá equipar a Força Aérea da teocracia com caças e helicóptero modernos pela primeira vez desde 1990, contudo, anúncios e rumores demoram para ganhar corpo ?paradoxalmente, para evitar melindrar demais os americanos.