Paquistão declara guerra ao Afeganistão; ataques mútuos matam quase 300 pessoas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Paquistão e o Afeganistão trocaram ataques e bombardeios nesta quinta-feira (26), e o ministro da Defesa de Islamabad, Khawaja Asif, declarou "guerra aberta" contra o Talibã, o regime fundamentalista que hoje governa o território afegão. A Força Aérea paquistanesa bombardeou as cidades de Cabul e Kandahar como retaliação a ataques do Afeganistão na fronteira entre os dois países da Ásia.
"Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês [o Talibã]", escreveu Asif nas redes sociais.
Os ataques mútuos mataram quase 300 pessoas. Ahmed Sharif Chaudhry, o porta-voz das Forças Armadas do Paquistão, afirmou nesta sexta-feira (27) que 274 combatentes talibãs foram mortos, com 22 alvos militares destruídos. Segundo ele, ao menos 12 soldados paquistaneses morreram.
Já Zabihullah Mujahid, o representante afegão, havia afirmado na quinta que 55 soldados paquistaneses foram mortos e 19 postos tomados, enquanto 8 combatentes talibãs foram mortos e 11 feridos, além de outros 13 civis feridos em Nangarhar.
Os ataques foram uma resposta à decisão do governo paquistanês de agir contra combatentes islâmicos que realizam atentados no Paquistão vindos de bases em território afegão, de acordo com o governo em Islamabad. Cabul nega dar refúgio a essas facções.
"Depois dos ataques aéreos contra Cabul, Kandahar e outras províncias, realizamos operações de represália em grande escala contra posições de soldados paquistaneses", disse na quinta o porta-voz Mujahid. Nesta sexta, ele disse que o Afeganistão quer resolver o conflito por meio do diálogo.
No dia anterior, após as ofensivas, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, disse que as forças de seu país "têm plena capacidade para esmagar quaisquer ambições agressivas" do vizinho afegão. "Toda a nação está ao lado das Forças Armadas do Paquistão", acrescentou.
O ministro do Interior paquistanês, Mohsin Naqvi, afirmou que esses ataques contra o Afeganistão constituíram uma "resposta apropriada" aos ataques de seu vizinho.
"Os contra-ataques paquistaneses contra alvos no Afeganistão continuam", disse Mosharraf Zaidi, porta-voz do governo paquistanês, em uma publicação no X, descrevendo a ação como uma resposta a "ataques afegãos não provocados".
Segundo a agência de notícias Reuters, muitas sirenes de ambulâncias puderam ser ouvidas após fortes explosões em Cabul. Um vídeo divulgado por autoridades de segurança paquistanesas mostra clarões durante a noite, provenientes de disparos ao longo da fronteira, e o som de artilharia pesada. Outro vídeo mostra um prédio em chamas, que, segundo as autoridades, era um quartel-general do Talibã em Paktia.
A Rússia, único país que reconhece formalmente o governo do Talibã, pediu que os países vizinhos sentem para negociar. China, Turquia e Arábia Saudita também estariam tentando mediar o conflito.
O Irã, que faz fronteira com ambos, ofereceu-se para ajudar, de acordo com comunicado do Ministério das Relações Exteriores. A proposta ocorre enquanto Teerã mantém negociações com os EUA acerca do seu programa nuclear para evitar um novo ataque de Washington.
O comissário de direitos humanos da ONU, Volker Türk, pediu diálogo, em vez do uso da força.
Os dois países, que mantiveram relações cordiais por muito tempo, têm entrado em confronto esporadicamente desde que o Talibã reassumiu o controle de Cabul em 2021.
O Paquistão possui armas nucleares e suas capacidades militares são amplamente superiores às do Afeganistão. No entanto, o Talibã é experiente em guerra de guerrilha, fortalecido por décadas de combate contra forças lideradas pelos Estados Unidos.
A crise tem sua origem no grupo TTP do Paquistão, uma facção acusada por Islamabad de realizar ataques terroristas na região do Waziristão. O TTP busca combater o Estado paquistanês e impor a lei islâmica sobre o território, criando uma teocracia no país. O Waziristão é conhecido por ser refúgio de vários grupos islâmicos radicais que atuam tanto no Paquistão quanto no Afeganistão.
As relações entre os países deterioraram-se consideravelmente nos últimos meses, com as passagens de fronteira terrestre permanecendo em grande parte fechadas desde os combates de outubro, que deixaram mais de 70 mortos em ambos os lados, embora os afegãos que retornam ao seu país ainda tenham permissão para atravessar a fronteira.
Após um cessar-fogo inicial mediado pelo Qatar e pela Turquia, várias rodadas de negociações ocorreram, mas esses esforços não conseguiram produzir um acordo duradouro.
