'Imagine 6% da sua família morta em dois anos', diz padre da única igreja católica em Gaza
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Todo dia, às 7h, o padre argentino Gabriel Romanelli tenta mergulhar em uma hora de oração silenciosa. Nem sempre consegue. "Às vezes escutam-se os tiros", diz o pároco da Igreja da Sagrada Família, a única católica na Faixa de Gaza.
Por volta das 8h30, ele reza os salmos em árabe. À noite, até pouco tempo atrás, o telefone tocava quase invariavelmente às 20h. Do outro lado da linha, um conterrâneo de sua Buenos Aires natal. O papa Francisco. "Todos os dias ele nos chamava. Inclusive quando estava em viagem apostólica", diz Romanelli à Folha de S.Paulo, em áudio de WhatsApp. "Perguntava como estávamos. Começou a conhecer a gente aqui."
A verdade é que eles não estavam bem. E algumas das pessoas que Francisco conheceu foram mortas na guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas -o conflito vitimou mais de 70 mil palestinos, dos quais pelo menos 25 mil foram mortos diretamente por bombardeios israelenses.
São poucos os católicos na região. Numa comunidade que somava 1.017 cristãos antes do atual conflito, 58 morreram em menos de dois anos. Parece irrisório no cômputo geral, mas o peso simbólico assombra Romanelli. Segundo ele, foram 23 mortes violentas, 23 por falta de tratamento médico e 12 por causas naturais. "Imagine 6% da sua família ou da sua cidade morta num arco de dois anos."
Quando um jovem da paróquia morreu, Francisco ligou, como de hábito. O padre lembra que, quando quem morreu foi o pontífice argentino, no dia seguinte à Páscoa de 2025, um fiel católico em Gaza pontuou: "Ao menos escutar a voz dele era um antídoto contra a depressão".
Os sinos da igreja palestina passaram a soar diariamente em memória de Francisco. O sucessor, Leão 14, mantém contato frequente, ainda que mais espaçado, segundo Romanelli. "Ele nos chamou ontem ou anteontem. Agradece, reza por nós."
A jornada não tem sido fácil, admite Romanelli. E um dos momentos mais difíceis, diz, foi justamente ele não poder estar com sua igreja quando os conflitos começaram, logo após a ofensiva terrorista do Hamas em solo israelense, em 7 de outubro de 2023.
O padre tinha viajado à Cisjordânia e foi impedido de voltar para casa na ocasião. Por mais de meio ano, liderou sua paróquia à distância.
Há datas que se repetem como tragédia anunciada. Uma delas é o bombardeio da Igreja de São Porfírio, um templo ortodoxo grego em Gaza. Estima-se que 18 pessoas morreram, e centenas de cristãos refugiados ali foram transferidos às pressas para a Sagrada Família, muitos deles feridos. "Foi um dia terrível."
Outra é o dia em que um franco-atirador matou duas senhoras católicas dentro do complexo paroquial, de acordo com a Igreja Católica -as Forças Armadas de Israel negam que um soldado israelense tenha sido autor do disparo. E há o 17 de julho de 2025, quando um ataque próximo chegou a atingir a fachada da igreja que ele lidera. Saldo: 12 feridos, três mortos.
Se as mortes são o trauma mais visível, o que mais angustia é a ausência de uma frase simples: o conflito acabou. "E acabou para valer, não essas promessas vazias sobre o fim iminente das operações militares. A guerra não termina de terminar, e a paz ainda não nos chega."
Romanelli compara Gaza a uma cidade varrida por um tsunami. A maioria da população dorme em tendas ou amontoada -15, 20 pessoas num único cômodo, "no melhor dos casos". "O grau de degradação é muito difícil de perceber de fora. Às vezes parece exagero. Mas a cidade está triturada."
Há mais mercadorias no mercado do que meses atrás, reconhece. Alguns preços são "bons", outros, proibitivos. O problema é que a maior parte das pessoas não tem renda. E quem tem não consegue sacar dinheiro. Ele só conhece um banco que funciona pelas imediações, de forma limitada. Certos produtos só são vendidos em espécie.
Todo o sistema sanitário, afirma, colapsou, "e tudo quer dizer tudo". Conseguir um paracetamol ou um antibiótico é tarefa hercúlea. Medicamentos para hipertensão ou diabetes são raridade.
A rede de água corrente está destruída em grande parte do território, segundo o padre. Não há eletricidade regular há mais de dois anos.
O diesel chegou a custar US$ 30 (R$ 150) o litro no auge dos combates. Quando fica difícil de consegui-lo, palestinos improvisam misturas com óleo de girassol ou até azeite vencido para manter geradores funcionando. Painéis solares, poucos e muitas vezes danificados, completam o mosaico de gambiarra.
Pelas ruas, multiplicam-se pessoas amputadas. O cenário demanda uma fé ainda mais resiliente, afirma Romanelli. "Nos piores momentos, tratávamos de cantar, de fazer atividades. Festejar aniversários dos idosos, das crianças. Fazer competições. Coisas que parecem até loucura."
No interior da Sagrada Família, um altar lateral preserva uma inscrição em memória do Batalhão Brasileiro de Paz que atuou na região em 1959, junto às forças da ONU. "Muitos deles certamente eram católicos", comenta o padre.
Ele menciona o Brasil como um povo "muito crente" e pede apoio à "paz justa". Isso significa, segundo Romanelli, "defender com meios éticos que a paz entre Palestina e Israel é possível. Que se reconheçam os direitos de ambos os povos, de ambos os Estados".
