Alvo de Trump e de Netanyahu, Khamenei liderou teocracia por mais de 35 anos
WASHINGTON, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Hosseini Khamenei, 86, foi morto neste sábado (28) pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país. O veterano da Revolução Iraniana de 1979 comandou o país persa por mais de 35 anos, tendo sido apenas o segundo líder da República Islâmica, estabelecida por seu antecessor, Ruhollah Khomeini (1902-1989).
A morte de Khamenei aconteceu em meio ao bombardeio articulado por Washington e Tel Aviv contra o Irã. Trump afirmou que a ação tinha como objetivo defender o povo americano e eliminar ameaças do regime iraniano. Ele disse ainda que pretende destruir o arsenal de mísseis do Irã e garantir que o país não obtenha uma arma nuclear. Porém, deixou nas mãos dos iranianos a tomada do governo após a conclusão da ação militar.
É improvável que o Irã siga inalterado após perder uma de suas personalidades mais emblemáticas. Ao longo de décadas à frente do regime e com poder total sobre o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e as Forças Armadas, Khamenei tentou controlar a sociedade iraniana pós-revolucionária para mantê-la no curso estabelecido por Khomeini --isto é, um Estado regido por clérigos islâmicos xiitas com pouca participação popular direta.
Internamente, ele presidiu brutais repressões a protestos contra a teocracia ao longo dos anos --a mais recente, e mais grave, matou pelo menos 7.000 pessoas, com organizações de direitos humanos estimando dezenas de milhares de mortos.
Na política externa, Khamenei cultivou rivalidades com as monarquias árabes sunitas do Oriente Médio e foi o principal arquiteto do chamado "eixo da resistência" contra Israel e os Estados Unidos.
Também dependia dele o controverso programa nuclear iraniano, o qual defendia como uma maneira de garantir a independência do país -- já os EUA acusavam o líder de almejar uma arma nuclear, principal motivação para os ataques americanos iniciados por Donald Trump.
De turbante negro e barba branca, Khamenei era uma figura fugidia sobre a qual pouco se sabia, para além de todo o mise-en-scène. Calado, gostava de poesia, de cachimbo e de cuidar do jardim. Dizia que "Os Miseráveis", de Victor Hugo, era o melhor livro já escrito.
Era conhecido, também, pelos raivosos discursos contra seus inimigos, em especial Israel e os Estados Unidos. Sob seu comando, o Irã baseou sua política externa em uma completa rejeição a esses adversários, incluindo a construção da rede de grupos armados que se opunham às duas potências.
Essa teia de facções armadas e grupos terroristas patrocinados por Teerã tinha o objetivo de pressionar Israel, os EUA e rivais como a Arábia Saudita em várias frentes: na Faixa de Gaza, com o Hamas e outros grupos; no Líbano, com o Hezbollah; no Iêmen, com os houthis; e no Iraque, com milícias xiitas.
A morte de Khamenei, se confirmada, ocorre em um momento em que o eixo erguido pelo aiatolá está em ruínas. Parte importante da coalizão, o regime do ditador Bashar al-Assad caiu na Síria com a vitória de grupos apoiados pela Turquia.
Já a capacidade das facções financiadas por Teerã de conter Israel foi sistematicamente destruída por Tel Aviv desde os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 --ao custo de mais de 70 mil palestinos mortos em Gaza e quase 4.000 libaneses mortos na guerra com o Hezbollah, entre outros.
Figura importante da Revolução Iraniana, Khamenei se aproximou do aiatolá Khomeini quando estudou sob as orientações de seu mentor nos anos 1960. Preso diversas vezes pelo regime do xá Reza Pahlavi, Khamenei foi torturado em 1963 por se opor à monarquia iraniana, apoiada pelos EUA.
Pessoas próximas a Khamenei diziam que vinha daí sua incontornável aversão aos EUA e a Israel, dado que o serviço secreto iraniano era apoiado pela CIA americana e pelo Mossad israelense.
Em 1981, logo após a revolução, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato orquestrada por um grupo iraniano de extrema esquerda. Sua mão direita ficou paralisada pelo resto da vida. "Não vou precisar dela", disse, segundo os relatos. "É o suficiente que meu cérebro e língua funcionem." Meses depois, foi eleito presidente do Irã com 97% dos votos, cargo que ocupou até 1989.
Durante o período, marcado pela guerra entre o Irã e o Iraque, Khamenei construiu conexões profundas com as Forças Armadas, em especial a Guarda Revolucionária, que o deixaram em posição forte para suceder Khomeini.
Ainda assim, sua escolha como novo governante estava longe de ser óbvia: quando Khomeini morreu, em 1989, Khamenei não era um aiatolá, isto é, não estava no topo da hierarquia religiosa xiita. Além disso, Khomeini escolheu o então presidente como seu sucessor pouco tempo antes de morrer, e a Constituição iraniana precisou ser alterada para permitir que Khamenei pudesse chegar ao posto de líder supremo sem ser um aiatolá.
Sem o carisma, popularidade e autoridade religiosa do antecessor, Khamenei consolidou seu poder apoiando-se nas suas conexões militares e no aparato de segurança, que utilizou repetidas vezes ao longo das décadas para reprimir protestos no país.
Em 2009, manifestantes foram às ruas em todo o país denunciando fraude eleitoral na reeleição do presidente Mahmoud Ahmedinejad --no Irã, apenas candidatos aprovados pelo chamado Conselho dos Guardiões podem concorrer à Presidência, e o cargo está subordinado ao líder supremo.
Quando os reformistas Mir-Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi foram derrotados no pleito, os piores conflitos até então entre manifestantes e forças de segurança em décadas irromperam no Irã. Ao final dos protestos, de 36 a 70 pessoas foram mortas nos confrontos, e mais de 4.000 foram presas.
Em 2022 e 2023, Khamenei agiu da mesma forma ao prender quase 20 mil pessoas que protestaram contra a morte da jovem Mahsa Amini sob custódia da polícia moral do país --segundo organizações de direitos humanos, mais de 500 pessoas foram mortas pelas forças de segurança.
A resposta aos maiores protestos da história da República Islâmica, em 2026, não foi diferente. Algumas entidades estimaram que o número de mortos pode ter ultrapassado 35 mil, com mais de 300 mil feridos e 53 mil prisões. Alguns manifestantes chegaram a ser condenados à morte, mas as execuções foram suspensas após pressão de Trump.
Analistas apontam que, dentro do complexo sistema político iraniano, Khamenei repetiu a estratégia de Khomeini para manter sua autoridade: impediu que qualquer facção dentro do regime acumulasse poder demais, equilibrando as ambições de rivais a fim de garantir que nenhum pudesse ameaçar sua posição no topo da hierarquia política.
Ainda não há indicações claras de quem poderá vestir o manto de Khamenei. Por anos, a escolha clara era o clérigo Akbar Hashemi Rafsanjani. Ele morreu em 2017, porém. Depois, um dos mais cotados era o então presidente do Irã, Ebrahim Raisi --que morreu em uma queda de helicóptero considerada suspeita em 2024.
Seja quem for o escolhido, herdará uma população cada vez mais secular, com o risco de mobilizações populares exigirem a simples extinção do cargo, com uma guinada democrática. Em outras ocasiões, o Irã já aventou substituir a posição de líder supremo por um conselho consultivo.
