Como deve funcionar a sucessão de Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto por EUA e Israel

Por ANGELA BOLDRINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, neste sábado (28) encerra um capítulo da República Islâmica iniciado em 1989, quando o clérigo chegou ao posto de autoridade máxima do regime teocrático.

Khamenei foi morto por forças militares dos Estados Unidos e de Israel, em uma ofensiva capitaneada pelo presidente americano, Donald Trump.

O clérigo sucedeu o aiatolá Ruhollah Khomeini, que liderou a revolução que derrubou a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979. Quando Khomeini morreu, dez anos depois, Khamenei foi apontado ao posto. Não houve troca na alta liderança do país desde então.

O líder supremo, como o nome indica, é uma autoridade superior ao presidente, escolhido por eleições diretas --mas que costumam ter a lisura contestada.

Agora, com a morte de Khamenei, o país persa enfrenta incerteza política. Não há, até o momento, um indicado claro para substituir o líder supremo e também não está claro se a formatação da liderança iraniana seguirá igual. A continuidade do regime iniciado em 1979 também está em suspenso.

Neste sábado, Trump afirmou ter nomes "em mente" para a sucessão, mas não disse quem poderia ser o candidato, em qual formato --ou como irá impor a escolha.

Em janeiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, admitiu no Senado que a sucessão no Irã é "uma questão em aberto" e que os americanos não têm certeza do que pode acontecer.

Veja o que se sabe a respeito da possível sucessão do líder supremo.

O que diz a Constituição iraniana?

De acordo com a Constituição do país, o líder supremo é escolhido para um mandato vitalício pela Assembleia de Especialistas, composta por 88 clérigos que se reúnem duas vezes por ano.

A última composição da assembleia foi formada em 2024. Formalmente, ela é eleita pelo povo iraniano para mandatos de oito anos, mas todos os candidatos precisam passar pelo crivo do Conselho Guardião. Mas todos os candidatos precisam passar pelo crivo do Conselho Guardião, que tem poder de veto.

Esse conselho, por sua vez, é formado por 12 membros. Destes, seis são indicados pelo líder supremo e os demais, pelo chefe do Judiciário iraniano, que hoje é Gholam-Hossein Mohseni-Eje'i, e confirmados pelo Parlamento. Mohseni-Eje'i foi alçado ao posto por Khamenei em 2021.

A dinâmica de escolha da Assembleia de Especialistas significa que é um órgão controlado, na prática, pelo líder supremo --ou, com a morte dele, por seu grupo político.

As regras da Constituição não garantem que o processo ocorra dessa forma. Segundo um relatório escrito em 2018 pelo cientista político Ali Alfoneh, pesquisador do Arab Gulf States Institute, é possível que as regras sejam ajustadas retroativamente.

"Em linha com casos anteriores, as regras e procedimentos para a sucessão política consagrados na Constituição da República Islâmica serão ignorados e ajustados retroativamente para legitimar o indivíduo ou grupo que prevalecer na disputa entre facções pela sucessão", diz o texto.

O que diz Donald Trump?

O presidente dos Estados Unidos afirmou neste sábado (28) que já tem um "nome em mente" para a sucessão de Khamenei na liderança do país. Ele, porém, não deu mais detalhes sobre quem seria, que status a pessoa teria --que dificilmente seria o de líder supremo-- e como os EUA fariam para impor essa escolha.

Qual é o grupo político de Khamenei?

O aiatolá era um membro do grupo conservador do regime desde que assumiu o poder.

O regime iraniano é dividido entre os reformistas à esquerda e os conservadores, que se subdividem em algumas facções. No início, Khamenei era visto como um pragmático, posição que foi abandonando em defesa do ultraconservadorismo, que ficou evidente em 2021, na eleição do presidente Ebrahim Raisi.

Raisi era cotado para suceder a Khamenei no posto de líder supremo até morrer em uma queda de helicóptero em 2024.

A eleição que seguiu à morte, no entanto, teve um resultado surpreendente: foi eleito Masoud Pezeshkian, o único candidato reformista autorizado pelo Conselho Guardião. Embora tenha sido amplamente vista como uma derrota de Khamenei, a vitória de Pezeshkian contou com apoio de parte dos aliados do aiatolá.

Quem governa a República Islâmica sem o líder supremo?

Já faz alguns anos que o regime possui uma liderança coletiva, explica o cientista político Ali Alfoneh, em entrevista na quarta-feira (25) --antes do início do ataque americano.

Ela é composta pelo presidente, pelo presidente do Parlamento, pelo chefe do Judiciário, por um representante da Guarda Revolucionária Islâmica e por um do Exército regular.

"Essa liderança surgiu por três razões principais: a idade avançada de Khamenei; seu crescente isolamento físico devido ao risco elevado de assassinato por Israel; e sua relutância em assumir responsabilidade direta por decisões políticas de grande consequência, incluindo a aceitação de um cessar-fogo na Guerra dos 12 Dias e possíveis concessões aos Estados Unidos durante as negociações nucleares", afirma Alfoneh.

Isso significa que, embora os EUA tenham assassinado a autoridade máxima iraniana, a teocracia não está acéfala.

A teocracia islâmica deve cair?

Essa questão está em aberto, mas Alfoneh afirma que não. A coletividade da cúpula que dirige Teerã hoje coloca o regime "em posição melhor para sobreviver a uma decapitação do que a de uma ditadura personalista como a Líbia de Muammar Gaddafi".

O pesquisador aponta para uma provável resolução "à la Venezuela". "Não descarto uma variante do modelo venezuelano, na qual a República Islâmica oferece às empresas petrolíferas americanas o retorno ao Irã e adquire aviões da Boeing", afirmou.

A variável em aberto, porém, é a das ruas. Os protestos de dezembro de 2025 e janeiro de 2026 terminaram com milhares de mortos e representaram um dos maiores desafios da história do regime. Uma pressão continuada pode levar à abertura política, mas ainda não há indicativos de que isso vá ocorrer em breve.

E a oposição?

A maior parte dos líderes de oposição que têm interesse em mudar o sistema de governo no Irã está presa ou exilada. Ambas as facções do regime, reformistas e conservadores, são fiéis à Revolução Islâmica e não têm o propósito de desmantelá-la.

No exterior, o filho do xá deposto tem tentado se posicionar como uma alternativa para liderar uma transição para uma democracia secular. Reza Pahlavi, 65, mora nos Estados Unidos e é visto com ceticismo por outros setores da oposição no exílio.