China afirma que matar líder de Estado soberano é inaceitável; veja outras repercussões

Por VICTORIA DAMASCENO E FERNANDO NARAZAKI

PEQUIM, CHINA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O chanceler da China, Wang Yi, afirmou que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei na operação conjunta entre Estados Unidos e Israel é "inaceitável".

Segundo nota do Ministério das Relações Exteriores, Wang declarou que "matar abertamente o líder de um Estado soberano e instigar mudança de regime é inaceitável" e que "tais atos violam o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais".

O ministro disse ainda que a China está altamente preocupada com a situação e que se opõe ao uso da força nas relações internacionais.

A declaração ocorreu durante telefonema com o chanceler russo, Sergei Lavrov, neste domingo (1º). Lavrov, segundo a chancelaria chinesa, afirmou que os ataques militares contra o Irã prejudicam gravemente a estabilidade no Oriente Médio.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que houve uma "violação cínica de todas as normas da moralidade humana e do direito internacional" com a morte de Khamenei e prestou solidariedade aos integrantes do regime da república islâmica.

"Por favor, aceite minhas profundas condolências em conexão com o assassinato do Líder Supremo da República Islâmica do Irã, Seyed Ali Khamenei, e membros de sua família", comunicou.

ALEMANHA QUESTIONA LEGITIMIDADE DO REGIME

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, foi outro a prestar solidariedade com o regime do Irã. "O Paquistão também expressa preocupação com a violação das normas do direito internacional. É uma convenção antiga que chefes de estado/governo não devem ser alvos de ataques", lamentou.

Por outro lado, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, questionou a legitimidade do regime iraniano para permanecer no poder após a morte de Khamenei. "Vou discutir a situação com Trump na terça-feira (3)", comentou.

Ele afirmou que tem conhecimento que a inteligência iraniana continua em atuação em território alemão, mas ressaltou que não vê perigo ao país. "Não temos conhecimentos de grandes ameaças à Alemanha no momento", disse neste domingo.

Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, optou por falar sobre os próximos passos para a população local. "Com a morte de Khamenei, há uma esperança renovada para o povo do Irã. Devemos garantir que o futuro seja deles para reivindicar e moldar. Ao mesmo tempo, este momento traz um risco real de instabilidade que pode empurrar a região para uma espiral de violência", disse.

O porta-voz do governo da França Maud Bregeon ressaltou que Khamenei foi responsável por milhares de mortes em seu país. "Ele foi responsável pela morte de milhares de civis em seu país e na região, então só podemos celebrar seu desaparecimento. Agora cabe ao povo iraniano escolher seu próprio destino", afirmou.

Para o chanceler da Itália, Antonio Tajani, o momento é de espera para saber o que ocorrerá com o Irã após a perda de Khamenei. "Por enquanto, o Irã está em uma fase de transição, e resta saber quanto tempo ela durará e qual impacto a guerra terá. O que é certo é que um líder que guiou o Irã por décadas se foi, e isso certamente terá consequências ?incluindo a perda da autoridade pessoal de Khamenei sobre a população".

Já a chanceler da Suécia, Maria Stenergard, declarou que a população iraniana precisa ser ouvida no processo de transição. "Isso pode abrir uma janela de oportunidades. Mas ainda restam muitas incertezas. O futuro do Irã deve pertencer ao povo. Mas o caminho até lá é longo. O risco de uma espiral de violência no Oriente Médio permanece grande", avaliou.

CHINA DEFENDE DIÁLOGO

O posicionamento de Pequim em relação ao ataque, iniciado no sábado por meio de uma ofensiva americana e israelense contra o Irã, segue a linha adotada pelo país em outros conflitos. A China pede que as ações militares cessem imediatamente e que sejam retomados o diálogo e as negociações.

O ataque ocorreu em meio a tratativas dos EUA com o Irã sobre o programa nuclear de Teerã, que o presidente americano, Donald Trump, quer ver completamente desmantelado.

Ainda neste domingo, a chancelaria orientou que cidadãos chineses deixem o país persa e indicou rotas de saída pelo Azerbaijão, Armênia, Turquia e Iraque.

A embaixada da China em Israel também aconselhou seus cidadãos no país a se deslocarem o mais rápido possível para áreas seguras ou a deixarem o território em direção ao Egito.

A China já havia se pronunciado por meio de seu embaixador na ONU, Fu Cong, que condenou os ataques contra o Irã e o uso da força para resolver disputas em discurso no Conselho de Segurança no sábado (28).

"A soberania, a segurança e a integridade territorial do Irã e de outros países da região devem ser respeitadas", disse.

Fu também afirmou considerar "chocante" que a ofensiva tenha ocorrido em meio a negociações diplomáticas entre Washington e Teerã e alertou para o risco de escalada das tensões na região. O embaixador declarou ainda que a China está "profundamente preocupada" com a situação.

O perfil oficial do Ministério das Relações Exteriores da China no Instagram fez uma publicação afirmando que o assassinato viola "seriamente" a segurança e soberania do Irã, além dos princípios da ONU e as "regras básicas das relações internacionais".