Irã tem bomba atômica? O que se sabe sobre o programa nuclear do país

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Com o aumento das tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, voltou à pauta a principal dúvida sobre o programa nuclear iraniano: o país tem ou não uma bomba atômica?

Resposta continua sendo negativa. A suspeita de que Teerã possa estar próximo de desenvolver uma arma atômica tem sido usada como justificativa estratégica para ações militares e pressão diplomática, mas relatórios recentes de organismos internacionais e da inteligência ocidental indicam que o país não possui uma bomba nuclear.

A própria comunidade de inteligência dos Estados Unidos afirma que o Irã não está atualmente desenvolvendo uma arma nuclear. O relatório Annual Threat Assessment 2025, do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, conclui que o líder supremo Ali Khamenei "não reautorizou o programa de armas nucleares suspenso em 2003".

Essa avaliação é consistente com a posição da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA). O órgão reiterou recentemente que não há indicação de um programa coordenado de armas nucleares no país. O diretor-geral da agência, Rafael Grossi, afirmou que "não há indicação crível de um programa coordenado de armas nucleares no Irã".

Declarações feitas nesta segunda-feira (2) reforçam essa leitura. Segundo Grossi, a AIEA não tem qualquer evidência de que instalações nucleares iranianas tenham sido atingidas ou estejam operando com fins militares, apesar das acusações de Teerã de que ataques recentes teriam atingido o complexo de Natanz.

O QUE EXISTE: CAPACIDADE NUCLEAR AVANÇADA

Domínio tecnológico nuclear. Embora não haja confirmação da posse de bomba atômica, o Irã desenvolveu ao longo dos anos uma infraestrutura nuclear avançada que o coloca próximo do limiar tecnológico necessário para produzi-la.

Segundo a Arms Control Association, o país "não é um Estado com armas nucleares". No entanto, o Irã investiu em novas capacidades nucleares após o colapso do acordo internacional firmado em 2015.

Esse acordo, o Plano de Ação Conjunto Global, limitava o programa iraniano e ampliava inspeções internacionais. O Irã cumpriu os termos até 2019, quando passou a ultrapassar restrições após a retirada unilateral dos Estados Unidos e a retomada de sanções.

Desde então, o país ampliou suas atividades nucleares. Antes da guerra recente, a AIEA informou que o Irã enriquecia urânio a até 60%, um nível tecnicamente próximo dos cerca de 90% necessários para uso militar.

O QUE DIZEM AS INVESTIGAÇÕES

A AIEA mantém uma investigação aberta sobre atividades nucleares não declaradas antes de 2003. A agência concluiu em 2022 que o Irã realizou atividades com metal de urânio que deveriam ter sido informadas sob o acordo de salvaguardas do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Ainda assim, o histórico de suspeitas não equivale à existência de um arsenal nuclear.

O relatório da inteligência americana afirma que houve uma "erosão de um tabu de décadas" no debate interno iraniano sobre armas nucleares. Isso, segundo o documento, indica pressão política interna, mas não uma decisão de produzir bombas.

Se o Irã não possui armas nucleares, ele compensa com outros instrumentos de dissuasão. O país mantém um dos maiores arsenais de mísseis balísticos do Oriente Médio, com mais de mil unidades, conforme afirma a Arms Control Association, além de drones e capacidade cibernética ofensiva. Para Washington, esses sistemas são o principal pilar da estratégia de defesa iraniana.

O consenso entre relatórios de inteligência e organismos internacionais é que não há evidência atual de que o Irã esteja construindo uma bomba atualmente. O país teve um programa estruturado de armas nucleares até 2003 e possui conhecimento técnico e material que o aproximam desse limiar. Na prática, isso coloca Teerã na categoria de um Estado com capacidade nuclear latente, mas não de uma potência nuclear.

VISÃO DE TRUMP CONTRAPÕE DOCUMENTOS

As avaliações de organismos internacionais e relatórios de inteligência contrastam com a posição expressa nesta segunda-feira (2) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao comentar os ataques contra o Irã, Trump afirmou que o governo iraniano ignorou advertências anteriores de Washington e continuou tentando desenvolver armas nucleares.

Avisamos para não tentarem reconstruir as instalações em uma nova localização, mas eles ignoraram as ordens e continuaram a fazer as armas nucleares Donald Trump, em coletiva de imprensa.

Ofensiva militar busca impedir que Teerã obtenha esse tipo de armamento, afirma Trump. "Estamos garantindo que o maior patrocinador do terrorismo no mundo jamais consiga obter uma arma nuclear", declarou.

Trump também pontuou que o Irã já possuía mísseis capazes de atingir alvos na Europa e bases militares dos EUA. Além disso, afirmou que, em breve, poderia ter alcance para atingir o território americano.