Em depoimento, Clinton afirma que não sabia de crimes de Jeffrey Epstein
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Em depoimento a congressistas, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton afirmou que não sabia dos crimes cometidos pelo abusador sexual Jeffrey Epstein no período em que esteve com ele. Os vídeos dos questionamentos feitos para Bill e Hillary Clinton foram divulgados pelo Comitê de Supervisão da Câmara, que investiga as ligações do abusador com figuras poderosas.
O casal passou por sabatinas na semana passada em Chappaqua, no estado de Nova York, em diferentes datas. Apesar de solicitarem que as audiências fossem públicas, congressistas realizaram os questionamentos a portas fechadas e divulgaram os vídeos na tarde desta segunda-feira (2). Cada depoimento tem mais de quatro horas de duração.
O ex-presidente relatou que conheceu Epstein em 2002, após deixar a Casa Branca. Ele afirma que passou a usar o avião do financista para viagens da Fundação Clinton para fornecer medicamentos contra Aids na África e na Ásia.
Clinton afirmou que havia uma espécie de acordo informal: em troca dos voos, ele conversaria com Epstein sobre política e economia durante as longas viagens. Ele comparou o financista a um "aspirador de pó", pelo desejo de absorver informações sobre tópicos como regulação do mercado de ações e comércio de derivativos.
Apesar deste acordo, Clinton disse que não considerava que "devia favores" a Epstein. "Eu mantive minha palavra e ele pareceu honrar a dele", afirmou. O ex-presidente diz ter decidido encerrar o acordo em 2003, afirmando que já havia cumprido sua parte, que Epstein não parecia genuinamente interessado no trabalho humanitário e que outros doadores haviam se oferecido para ajudar com o transporte.
Também foi questionado sobre imagens prévias, como a de 1993, em que ele e Hillary, ex-secretária de Estado, aparecem cumprimentando Epstein em uma fila de recepção da White House Historical Association. No entanto, ele disse que nem ele nem Hillary se lembram de terem apertado a mão de Epstein naquela ocasião, acrescentando que no evento muitas pessoas passavam para cumprimentar o presidente.
Outro ponto que foi alvo de perguntas foram as idas de Epstein à Casa Branca, uma vez que registros apontam que entre 1993 e 1995, ele esteve ao menos 17 vezes na residência oficial do presidente americano.
O ex-presidente afirmou que considerava Ghislaine Maxwell, namorada e cúmplice de Epstein, uma amiga e que saber de sua prisão foi algo muito difícil para ele. "Nós éramos amigáveis com Ghislaine. Eu fiquei triste. Mas, foi terrível o que ela fez e ela deveria ser punida", disse. Perguntas sobre Donald Trump foram feitas a Clinton e o ex-presidente foi indagado se achava que o republicano deveria ser chamado para testemunhar sobre Epstein. "Isso é algo que vocês devem responder. Mas ele conhecia bem o Epstein", afirmou.
Clinton manteve uma postura solícita durante as horas do depoimento. Ele, porém, criticou a postura do comitê que exigiu um depoimento de Hillary, porém pareceu compreensivo em relação aos questionamentos direcionados a ele. "Eu não achei que isso foi correto. Por outro lado, eu acho que vocês deveriam estar falando comigo. Eu acho que deveriam ter me chamado. Eu estive naqueles voos com ele e vocês têm o direito de me fazer essas perguntas."
Já em seu depoimento, Hillary foi pressionada a responder sobre como se sentia ao ver o marido em imagens ao lado do predador sexual, incluindo uma imagem dele em uma banheira, e ela se recusou a falar. "Não vou oferecer opiniões ou especulações sobre algo para o qual não tenho contexto e onde não estava presente", disse ela.
Ela foi questionada sobre a relação com Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein que esteve no casamento de sua filha. Maxwell está presa por conspiração para abuso de menores de idade. Hillary disse que a enxergava como uma pessoa conhecida. "Alguém que eu poderia encontrar, mas alguém que eu não mantive um relacionamento."
Ela declarou que não tinha conhecimento dos crimes de abuso sexual e tráfico cometidos por Epstein ou Maxwell antes que as acusações se tornassem públicas. Também expressou horror diante dos crimes revelados e criticou o acordo judicial favorável que Epstein recebeu em 2008.
Um dos momentos de tensão do depoimento ocorreu quando Hillary e sua equipe questionaram o vazamento de uma imagem da ex-secretária de Estado no momento em que prestava esclarecimento aos congressistas. Ela se irritou e falou que, desde o início, solicitou que a audiência fosse pública e criticou a postura dos parlamentares.
Ao fim do depoimento, congressistas passaram a questionar Hillary sobre temas como ufologia e até o Pizzagate. "Eu esperava por perguntas criativas hoje, mas Pizzagate não estava na minha lista", ironizou. Pizzagate se refere a uma teoria da conspiração segundo a qual políticos democratas secretamente administravam uma rede de tráfico sexual de crianças em uma pizzaria de Washington. Não há evidência alguma sobre.
O casal de políticos não compareceu às audiências marcadas em janeiro pelo comitê. Depois mudou de ideia e concordou em depor quando foram aprovadas duas resoluções que recomendavam que o plenário declarasse a dupla culpada por desacato criminal ao Congresso. O crime poderia levar a multas de até US$ 100 mil (R$ 532 mil) ou a um ano de prisão.
