Irã concentra retaliação em países do golfo Pérsico
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pela primeira vez desde que enfrentou o Iraque nos anos 1980, o Irã está concentrando uma ação militar no Oriente Médio contra seus vizinhos árabes.
Cinco nações do golfo Pérsico receberam mais ataques do que Israel, que com os Estados Unidos começou a atual guerra no sábado passado (28) ao lado dos Estados Unidos.
Os números são de difícil aferição, dada a natural nebulosidade que as brumas de um conflito proporcionam. A partir de dados abertos, o Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel apresenta um quadro parcial, mas que ajuda a compreender o rumo da guerra.
Segundo o instituto, países do golfo relataram até a manhã desta terça-feira (3) 1.815 ataques, 527 deles com mísseis e os restantes, com drones. Já Israel registrou 113 barragens vindas do Irã, sem precisar o número e o tipo de armamento utilizado.
Segundo um militar israelense consultado pela reportagem, é factível pensar numa média de 10 projeteis em cada uma dessas ações. Ou seja, entre 1.130 ataques individuais.
A precisão numérica no caso é menos importante do que o sentido do cálculo. Como a Folha mostrou, Teerã tem buscado expandir ao máximo sua retaliação, a fim de impor custo político aos EUA, já que seus aliados com bases americanas são o alvo dos ataques.
Com efeito, países como os Emirados Árabes Unidos e o Qatar estão segundo relatos pressionando os EUA a acelerar a guerra para evitar um colapso de suas defesas antiaéreas ?a França e a Itália já foram contatadas para fornecer munição.
O risco, claro, é que essas nações acabem contra-atacando o Irã, como qataris, sauditas e emiratis já disseram ser possível. Para algumas que não reconhecem Israel, contudo, há dúvidas se isso é politicamente desejável.
Os Emirados, que com os arranha-céus de Dubai ocupam o lugar de joia da coroa do golfo no imaginário ocidental, são significativamente o principal alvo de Teerã: 998 ataques, 186 deles com mísseis. Nesta terça, seu governo disse que interceptou quase todos os mísseis e 755 dos 812 drones, e que tem reservas para se defender.
Pode ser, mas as imagens constantes de destroços atingindo marcos de Dubai ou incendiando o porto de Abu Dhabi trouxeram um grau de incerteza inaudito para os riquíssimos Emirados. Nesta madrugada, houve ações mais intensas na capital, Abu Dhabi, e em Sharjah.
Em Israel, os iranianos estão espaçando mais seus ataques, em comparação com as barragens do conflito de 12 dias com o país em 2025, quando havia ações concentradas. Na avaliação de uma oficial das Forças de Defesa, isso pode significar também a degradação das capacidades da teocracia.
Israel concentrou na segunda (2) seus ataques ao sistema de estocagem e controle de lançamento de mísseis no oeste iraniano, mirando mísseis de maior alcance destinados ao Estado judeu.
Os dados do instituto corroboram essa impressão: foram 25 barragens na primeira retaliação, no sábado, ante 62 no domingo, 24 na segunda e, na madrugada desta terça, 2 ?número que irá crescer.
Já a entrada no conflito do grupo fundamentalista Hezbollah, aliado de Teerã, até aqui teve mais impacto para o Líbano ?cujo governo tenta se livrar dos radicais xiitas. Foram três barragens contra o norte de Israel na segunda e outras três, nesta noite, talvez refletindo a redução do potencial ofensivo da milícia após os embates de 2024 com Tel Aviv.
No Líbano, os bombardeios são intensos e foram retomados nesta terça. Outros prepostos regionais de Teerã estão tendo participação lateral, atacando bases americanas no Iraque e na Síria, onde morreram quatro pessoas.
A dúvida no ar diz respeito aos houthis, os rebeldes pró-Irã que controlam a capital e boa parte do Iêmen. Nos conflitos decorrentes da reação israelense ao atentado terrorista do 7 de outubro de 2023 cometido pelo Hamas palestino, eles se destacaram ao transformar o mar Vermelho numa praça de guerra.
Até aqui, não entraram na guerra, restando saber se estão sendo guardados como ás na manga pela teocracia que os armou ou se se desistiram de arriscar mais bombardeios.
A questão do tipo de armamento também ajuda a explicar o foco no golfo. Em 2025, foram disparados contra Israel 600 dos talvez 2.500 ou 3.000 mísseis de mais longo alcance do Irã, foco dos ataques de Tel Aviv.
Mas Israel deixou intactas as capacidade de curto e médio alcance do país, que não lhe ameaçavam diretamente. Isso e a mobilidade de seus lançadores, que não sofreram inicialmente o impacto da decapitação da cúpula militar do país para serem usados, colocou o golfo na mira.
Se é visível o foco no golfo, há também o fato de que o estrago em Israel está sendo maior, um reflexo do emprego dos mísseis contra áreas urbanas e não bases isoladas.
Com isso, morreram no Estado judeu 13 pessoas até a manhã desta terça, ante 13 em todos os países do golfo. Os Emirados concentram os feridos, 68, ante cerca de 1.100 em Israel.
Os dados disponíveis também refletem a assimetria nominal de poder de fogo envolvido: EUA e Israel já mataram, segundo o Crescente Vermelho iraniano, 787 pessoas. Quando se comparam as populações dos países, o impacto relativo é maior no Estado judeu: 1 morte a cada 120 mil habitantes, ante 1 a cada 740 mil no Irã.
Não se sabe também quantos dos mortos no Irã são civis, enquanto em Israel são todos. O número geral poderia sugerir o propalado aspecto cirúrgico dos ataques, mas basta uma escola ser atingida como foi no sul do Irã para o argumento cair por terra na prática, noves fora que civil é inocente por definição.
