Guerra no Irã traz novas armas e situações inéditas

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira semana da nova guerra no Oriente Médio foi coalhada de novidades no campo militar. O emprego da inteligência artificial e novos armamentos tiveram destaque, assim como uma série de embates inéditos e outros, esses no campo da disputa narrativa, nem tanto.

De saída, já no início do conflito no sábado passado (28), a IA se apresentou como central na definição de cenários de ataque, segundo os relatos disponíveis. Não sem polêmica, já que o Pentágono na véspera da ação havia cortado o contrato que tinha com a Anthropic, dona do sistema Claude.

A empresa queria limitar as aplicações de vigilância e militares de sua IA, e logo as rivais como OpenAI se apresentaram. A crise ainda está inconclusa, mas o fato é que o bombardeio israelense que dizimou a cúpula iraniana passou pelos algoritmos do Claude.

Mas máquinas ainda não fazem o trabalho final, e para isso emergiram novidades no campo dos Estados Unidos, após quatro anos assistindo de camarote a ex-superpotência russa e a Ucrânia se digladiarem com novas tecnologias.

Já na barragem inicial, surgiu em quantidade o Lucas, um drone de US$ 35 mil cujo esquadrão entrou em operação no Oriente Médio no fim de 2025.

É o famoso feitiço contra o feiticeiro: o modelo é uma cópia aprimorada do já clássico Shahed-136 do Irã, que virou o Gerânio-2 russo que leva caos à Ucrânia diariamente.

O Lucas foi empregado de forma limitada no ataque que capturou Nicolás Maduro em Caracas, mas agora entrou em ação em quantidade, servindo aparentemente tanto como isca para as defesas aéreas revelarem suas posições acionando radares quanto como meio de ataque simples.

Bem mais caro, acima de US$ 1,3 milhão, está a estrela de ataques americanos desde a Guerra do Golfo de 1991, o míssil de cruzeiro Tomahawk. Ele esteve ao lado de velhos conhecidos, como os caças F-15 e F-16, e os bombardeiros B-1B, B-2 e B-52.

Mas aqui houve também algo novo: imagens da Marinha mostraram que voaram os chamados Black Tomahawks, assim chamados pela cor preta brilhante adotada no lugar do usual cinza para absorver detecção infravermelha em ataque diurno.

A guerra também viu a estreia da mais nova geração de mísseis terra-terra, o PrSM (míssil de ataque de precisão, na sigla em inglês).

Com alcance de 500 km e um sistema avançado de guiagem que une mecanismos inerciais, GPS, infravermelho e sensores antirradiação, a arma de US$ 3 milhões é disparada dos Himars, lançadores famosos por sua ação na Ucrânia.

Num departamento que remete à cinessérie Star Wars, os EUA colocaram em ação armas a laser. O sistema Odin foi visto num vídeo a bordo do destróier USS Spruance. Ele visa cegar a navegação de drones. Não se sabe se outra arma mais sofisticada, chamada Helios, está em operação.

Outra arma a laser que ganhou as redes sociais nesta semana foi a israelense Feixe de Ferro, que entrou em operação no fim do ano passado. Longe de ser uma panaceia contra drones, até porque depende de fatores como as condições climáticas para ter eficácia, o canhão aponta ao futuro.

Vídeos de seu suposto emprego eram leituras errôneas de outras defesas antiaéreas em uso, mas Israel posicionou baterias do Feixe de Ferro ao lado do famoso Domo de Ferro, o sistema de baixa altitude destinado a derrubar drones e mísseis mais lentos, como os do Hezbollah no norte do país.

Há outros ineditismos. O caça de quinta geração americano F-35, que sempre sofreu críticas pelo custo e suposto desempenho regular em ação, parece estar ganhando nova fama ao ser usado em mais ações.

Nas mãos de um piloto israelense, derrubou pela primeira vez um outro avião tripulado, no caso um indefeso caça russo Iak-130 iraniano em patrulha. Antes, um F-35 britânico estreou em ação ao abater um míssil que rumava contra a base de Al-Udeid, no Qatar, onde há forças de Londres.

Na defesa do golfo também se sobressaem dois episódios. Pela primeira vez, caças F-15 qataris abateram aviões do antigo amigo Irã, no caso dois caças-bombardeiros Su-24 que miravam a mesma Al-Udeid.

No Kuwait, um piloto local agora está a dois abates da condição de ás, ainda que com sinal trocado: ele derrubou três F-15 americanos em meio a um ataque iraniano. Ninguém morreu, mas o incidente rendeu uma cena bizarra, com moradores ameaçando um piloto americano que caiu de paraquedas por supor que ele fosse inimigo.

Houve também uma raridade no mar, quando um submarino americano atingiu pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial outro navio, no caso uma fragata iraniana que voltava ao país após exercícios na Índia, matando ao menos 87 pessoas.

Do lado iraniano, houve o lançamento de ao menos dois mísseis balísticos intermediários da família Fattah, mas imagens sugerem que eles foram abatidos fora da atmosfera pelo sistema Arrow israelense.

O que chama a atenção é a capacidade, até aqui, de a teocracia manter sua retaliação regional a partir de lançadores móveis e subterrâneos.

Nas redes sociais, contudo, a guerra toma contornos que justificam seu nome americano, Fúria Épica. Ambos os lados dizem ter dizimado as forças do outro, ainda que a realidade pese negativamente para os iranianos.

Ao mesmo tempo, a maciça vantagem dos agressores pode escamotear alguns fatos. Se nenhum porta-aviões americano foi afundado, imagens infravermelhas de satélite sugeriam um incêndio compatível com o causado por um ataque de drones contra um destróier americano.

O desempenho real dos novos armamentos também é inescrutável a essa altura, e raramente o é antes do fim do conflito.