Sem 'Delcy local', Cuba teme ser próximo alvo de Trump após intervenção na Venezuela e guerra no Irã
WASHINTON, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Como sabem, circularam nos últimos dias relatos sobre possíveis contatos entre Cuba e o governo dos Estados Unidos. Consideramos apropriado informar à nossa população que, de fato, ocorreram intercâmbios entre autoridades de ambos os governos."
Com o anúncio televisionado na sexta-feira (13), o líder de Cuba, Miguel Díaz-Canel, admitiu que o regime está falando com o governo de Donald Trump após três meses de bloqueio de petróleo, o que levou a ilha a um colapso energético.
O contato não é inédito ?embora antagonistas, os dois países já passaram por outros momentos de negociação desde que a Revolução Cubana tirou do poder o ditador Fulgencio Batista, aliado dos EUA, em 1959. De lá para cá, ao menos 13 presidentes americanos tentaram, sem sucesso, alterar o status quo da ilha, combinando pressões estratégicas e cálculos domésticos.
Em nenhum momento, porém, os ventos pareceram tão favoráveis a Washington, que coloca a ilha como próximo alvo da diplomacia agressiva deste segundo mandato de Trump.
Do lado dos EUA, as tentativas de oposição ao governo têm sido fracas. Nesta sexta, o senador democrata Tim Kaine apresentou uma proposta legislativa baseada no War Powers Act (Lei de Poderes de Guerra) para impedir que o governo Trump realize ações militares ou bloqueios navais contra Cuba sem a devida autorização do Congresso ?prática que o republicano tornou comum.
Já na perspectiva de Havana, há uma crise que já dura mais de cinco anos e combina instabilidade econômica, escassez de remédios e apagões frequentes. Isso tudo em um momento em que não há nenhum aliado no horizonte que possa salvar a ilha, como ocorreu, por exemplo, quando a Venezuela recém-chavista do final dos anos de 1990 se tornou um dos principais patrocinadores do regime após o colapso da União Soviética.
Atualmente, aliados como Irã e Rússia estão preocupados com suas próprias guerras, enquanto a pragmática China não parece interessada em comprar esta briga com a Casa Branca. Já Caracas, que acudiu em socorro há mais de 20 anos, está impedida de enviar petróleo à ilha após os EUA atacarem o país e prenderem o ditador Nicolás Maduro, no início de janeiro.
Logo após a operação na nação sul-americana, Trump deixou suas intenções claras em uma entrevista coletiva. "Cuba é uma nação em falência, e queremos ajudar os cubanos, assim como aqueles que foram forçados a deixar o país", afirmou.
As importações da Venezuela eram essenciais ao país, que produz menos da metade do petróleo de que necessita. No fim de janeiro, sob pressão de Washington, o México ?outro fornecedor relevante? também suspendeu as remessas de combustível à ilha. Desde então, Cuba vive uma deterioração acelerada.
Nas semanas seguintes, Trump passou a afirmar que um acordo com Havana seria iminente, repetindo que o regime estaria desesperado. Mas os detalhes do plano do governo americano ainda não foram esclarecidos.
Segundo o USA Today, pessoas próximas à gestão indicam que um acordo econômico poderia ser anunciado em breve, envolvendo relaxamento de restrições de viagem, além de negociações sobre portos, energia e turismo ?medidas que não exigiriam aprovação do Congresso e têm o potencial de desagradar a quem espera mais do que apenas uma abertura econômica.
"Essa tal libertação é um insulto e uma humilhação para o povo cubano", afirmou o ativista cubano exilado nos EUA Ramón Saúl Sánchez, em um vídeo publicado em seu Facebook na terça (10). "Num momento em que essa tirania está em seus últimos suspiros, isso se torna uma tábua de salvação, e isso é inaceitável para nós."
"Não quero morrer sem ver minha pátria livre, mas também não quero vê-la ocupada por corporações americanas, espremendo até a última gota do que resta do nosso país com esses capangas no poder", continuou Sánchez, membro do Movimento Democracia.
Um acordo do tipo se assemelharia ao que ocorreu na Venezuela, onde a cúpula do regime segue no poder sob a gestão da número dois de Maduro, Delcy Rodríguez.
"Tudo indica que poderia ser uma transição, não idêntica à da Venezuela, mas com a mesma ideia de negociar mudanças dramáticas", afirma o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly.
Para ele, o segundo mandato de Trump representa uma oportunidade histórica: o presidente enxerga em Cuba a possibilidade de realizar algo que nenhum antecessor conseguiu ?promover uma transição econômica e política negociada, sem recorrer à intervenção militar.
"Cuba é um problema estratégico para a segurança nacional americana", afirma ele, em referência à proximidade de Cuba com China e Rússia. O analista reconhece, porém, que qualquer iniciativa americana terá limites práticos. Conflitos em outras frentes ?como a guerra no Irã? disputam recursos e atenção do governo, o que pode desacelerar as ações em relação à ilha.
Ainda assim, Winter acredita que mudanças graduais são prováveis, conduzidas por pressão econômica e acordos políticos. "O governo cubano terá que negociar", afirma. Havana, no entanto, oferece desafios específicos.
Um deles é o fato de que não há, por ora, uma figura como Delcy no regime cubano ?em parte pela presença, ainda que limitada, do irmão de Fidel, Raúl Castro, 94. "Seria irresponsável apontar quem seria essa pessoa, mas eu não descarto a existência dela", afirma o cientista político e advogado da organização de direitos humanos Cubalex Raudiel Peña Barrios. "Não é um regime monolítico onde todos pensam da mesma forma, independentemente do que digam."
O outro é a própria impopularidade de Díaz-Canel ?algo difícil de ser medido, pelas próprias restrições do regime. Barrios, que mora no México, mas é cubano e esteve na ilha de dezembro de 2024 a janeiro de 2025, diz que a parcela da população insatisfeita e abertamente crítica da situação social é significativa.
"Mesmo apesar da repressão, são pessoas que sabem perfeitamente bem, principalmente por causa da ascensão da internet em Cuba, que seus problemas diários não são produto das sanções americanas nem do imperialismo", afirma.
No entanto, para a especialista em história cubana Sara Kozameh, da Universidade da Califórnia em San Diego, as ações dos EUA têm o potencial de renovar o sentimento nacionalista na ilha.
Ela avalia que uma das mudanças mais notáveis ocorre entre a juventude cubana. Como as sanções contra a ilha remontam aos anos 1960, muitos jovens atribuíam a escassez enfrentada pelo país ao próprio regime cubano. Essa percepção, diz ela, tem mudado.
De acordo com a historiadora, cresce a percepção de que as dificuldades diárias são consequências diretas das sanções americanas, o que leva parte da juventude a concluir que o castrismo não exagerava ao apontar os efeitos do bloqueio.
"Uma lição que se tira da história cubana é que a maioria dos cubanos, independentemente de sua política, são nacionalistas resolutos. Eles não querem os EUA se metendo em seus assuntos e querem manter sua soberania, mesmo quando discordam de seu governo", diz Kozameh.
EUA x Cuba
1959 ? Revolução Cubana
Revolução liderada por Fidel Castro derruba regime de Fulgencio Batista e aproxima o país da União Soviética
1960 ? Primeiras sanções econômicas
Governo dos EUA começa a restringir exportações para Cuba após nacionalizações de empresas americanas
1962 ? Embargo
O presidente John F. Kennedy impõe um embargo comercial quase total contra Cuba durante a Guerra Fria
1996 ? Lei Helms-Burton
Congresso dos EUA aprova a Helms?Burton Act, que endurece o embargo e torna mais difícil sua revogação
2014?2016 ? Reaproximação
Governo de Barack Obama restabelece relações diplomáticas com Cuba e flexibiliza parte das restrições econômicas
2017?2021 ? Retomada das sanções
Durante seu primeiro mandato, Donald Trump reverte várias medidas de Obama e endurece a política contra Havana
2025 ? Nova escalada
Ao iniciar o segundo mandato, Trump volta a ampliar sanções e adota uma política de pressão econômica e política mais intensa
2026 ? Prisão de Maduro e novas ameaças
Desde a prisão do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, as ameaças a Cuba foram intensificadas, a distribuição de petróleo de Caracas foi interrompida e o México, que também abastecia a ilha, interrompeu as remessas