Novo líder assume Irã com diversidade étnica e pressão de população jovem

Por GABRIEL BARNABÉ E GUSTAVO QUEIROLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A República Islâmica do Irã carrega no nome a unidade de seus 92 milhões de cidadãos. Nada menos que 99% dos iranianos são muçulmanos no país. A Revolução de 1979, que instaurou a teocracia ainda vigente, oficializou a vertente xiita como a religião do Estado e previu, na Constituição, a presença das minorias cristã, judia e zoroastrista.

É também por conta da mudança de regime que, desde 1979, a autoridade máxima do país é o líder supremo, que encabeça tanto a política quanto a religião. Com a morte do aiatolá Ali Khamenei, nos ataques de Estados Unidos e Israel de 28 de fevereiro, o conselho de clérigos elegeu seu filho, Mojtaba Khamenei para o posto.

Mojtaba é o terceiro a assumir o cargo e o único, até então, que não possui o título de aiatolá --o mais alto dentro do islamismo. Ele é um hojatoleslam, um religioso de posição intermediária.

Se nesse quesito o país parece homogêneo e unificado, é no âmbito das etnias que Khamenei filho enfrentará as dissidências internas. Povos azeris, curdos, luros, árabes, balúchis e túrquicos compõem cerca de 40% da sociedade. A outra porção, pouco mais de 60%, preserva a origem persa da região.

Essa combinação diversa reflete também a distribuição geográfica da população iraniana. O país é rodeado de cadeias montanhosas que, no âmbito interno, contribuíram historicamente para que minorias étnicas se concentrassem nas regiões periféricas do país.

É essa mesma formação geológica, inclusive, que torna a tarefa de invadir o Irã mais custosa. Desde o ataque no fim de fevereiro, o presidente americano Donald Trump flertou com a ideia de lançar uma operação terrestre, algo que especialistas apontam ser uma possibilidade com dificuldades logísticas e militares ímpares.

Não somente pela geologia, a distribuição populacional do país é também fruto de séculos de disputas políticas pautadas e permeadas por seu território. A expansão de dinastias persas e, mais tarde, da consolidação do Estado moderno ajudaram a moldar esse movimento das minorias.

O resultado é um mosaico étnico em que persas predominam no centro, enquanto curdos, azeris, árabes, balúchis e túrquicos se concentram nas fronteiras, muitas vezes compartilhando língua, cultura e religião com populações dos países vizinhos.

Essa configuração ajuda a explicar tanto tensões internas quanto a volatilidade política dessas regiões em momentos de conflito. O regime iraniano enfrenta, nesses locais, seus principais desafios de controle e segurança. Historicamente, grupos armados e movimentos separatistas exploram a proximidade com fronteiras porosas e afinidades étnicas com populações de países vizinhos para minar a manutenção da teocracia.

Em paralelo aos desafios étnicos, o Irã é também composto de um perfil demográfico jovem. A idade média da população gira em torno dos 34,5 anos, resultado de décadas de crescimento populacional acelerado após a Revolução de 1979. Com isso, uma parcela significativa dos iranianos --em torno de 70%-- nasceu já sob a República Islâmica, sem memória direta do regime anterior. Trata-se de uma geração que hoje dá forma à força de trabalho e à população urbana do país.

Foi parte dessa massa que instou os protestos contra a crise econômica que, semanas depois, desembocaram nas manifestações anti-regime de janeiro deste ano. Essa onda de pressão interna contribuiu para elevar a tensão entre Teerã e Washington. Trump ameaçou repetidamente o regime iraniano e, semanas depois, usou a escalada como justificativa para os ataques que iniciaram esta guerra.

O americano apela para a população mais jovem e às minorias étnicas ao sugerir que tomem o poder e derrubem o regime clerical. Já há duas semanas em guerra, no entanto, a teocracia dá sinais de persistência tanto com a escolha de Mojtaba para sua liderança quanto pelo prosseguimento da campanha militar retaliatória a EUA, Israel e aliados.