Saiba por que é difícil reabrir Estreito de Hormuz
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O Estreito de Hormuz, uma rota marítima crucial por onde passava um quinto dos hidrocarbonetos do mundo, está praticamente paralisado desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. A retomada da via marítima, por sua vez, tem sido apontada por analistas como uma situação complicada.
O Estreito de Hormuz é um trecho de água difícil de atacar. No ponto mais estreito, Hormuz tem cerca de 33 quilômetros de largura e os navios precisam fazer uma curva em frente às ilhas iranianas e a costa montanhosa que fornece cobertura para as forças iranianas, de acordo com a corretora de navegação SSY Global.
Um único soldado em uma lancha rápida "pode disparar um míssil teleguiado contra um superpetroleiro em baixa velocidade ou plantar uma mina magnética em seu casco". Essa é a definição do jornal The New York Times sobre as dificuldades no local. Para o tenente-general S. Clinton Hinote, aposentado da Força Aérea dos Estados Unidos, é um "problema difícil de se resolver". Ainda que os Estados Unidos pudessem utilizar uma tecnologia para mitigar possíveis ataques iranianos, não conseguiriam impedi-los completamente.
O Irã tem se aproveitado da geografia do local. Até agora, ao menos 17 navios de carga e petroleiros foram atingidos no Golfo e no estreito, segundo o New York Times. O Irã teria assumido a responsabilidade pela maioria desses ataques. Além disso, as forças armadas iranianas implementaram mísseis, drones e acredita-se que também estão atuando com minas navais, segundo uma fonte ouvida pelo jornal. A Guarda Revolucionária do Irã alertou que qualquer navio que passar pelo estreito será alvejado.
A Guarda Revolucionária do Islâmica ainda tem muitas armas em seu arsenal para causar danos. Ainda que a marinha convencional do Irã tenha sido em grande parte destruída, a Guarda Revolucionária Islâmica tem embarcações de ataque rápido, embarcações de superfície sem tripulação, lanchas, minissubmarinos, minas e até motos aquáticas com explosivos.
As minas navais teriam vantagem. Como as vias são estreitas e a água no seu ponto mais estreito tem apenas 60 metros de profundidade, as instalações desses campos são favorecidas para atingir alvos de uma maneira mais certeira. Estima-se que o Irã tenha cerca de 5 mil minas navais, de acordo com a agência de inteligência de defesa dos Estados Unidos.
Financeiramente, o risco de navegar por lá não vale a pena. Depois de alguns ataques, o custo de um seguro para uma embarcação disparou, segundo o New York Times. Um especialista ouvido pelo jornal estimou que o valor da cobertura poderia ultrapassar US$ 300 bilhões (equivalente a R$ 1,5 trilhões). A maior parte do tráfego foi interrompida, em parte por precaução e também pelo valor do seguro.
O tráfego marítimo pelo Estreito de Hormuz caiu 97% em comparação com o período anterior à guerra. Essa análise é do grupo de inteligência marítima Windward. O bloqueio marítimo iraniano afeta diretamente a economia global. O Estreito de Hormuz transporta 20% da produção mundial de petróleo e gás natural. Com a queda nas entregas, o preço do barril Brent subiu mais de 42%.
A interdição serve como arma econômica contra Trump. "Se o Trump resolver parar a guerra e disser que ganhou, o Irã não vai abrir o estreito de Hormuz. Há hoje um grande incentivo ao regime iraniano de manter o estreito fechado para os navios aliados dos EUA. A partir de agora, Teerã quer infligir o máximo de danos econômicos", diz Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM.
"Se Trump parar a guerra com o Estreito de Hormuz fechado, o eleitor vai pensar que o país entrou na guerra sem planejamento, o que é verdade. E, se isso ocorrer, vai ser uma humilhação para o Trump e mesmo para o controle republicano no Senado", disse Gunther Rudzit, professor da ESPM.