50 anos após golpe na Argentina, Milei volta a relativizar ditadura e faz acusações à esquerda
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - No dia de aniversário de 50 anos do golpe militar de 1976 na Argentina, o governo de Javier Milei lançou um documentário em que defende a visão de "memória completa", com relatos de vítimas da ditadura e também de organizações terroristas da época.
A apresentação do filme feita nas redes sociais pela Casa Rosada diz que as novas gerações precisam entender esses eventos "sem ideologias ou censura". O documentário, chamado "As Vítimas que Queriam Esconder", tem uma hora e quinze minutos de duração.
"Amanhã [esta terça-feira] marca o 50º aniversário de 24 de março de 1976, uma data que exige conhecer toda a história, de ambos os lados e sem mentiras", diz a mensagem oficial.
O vídeo foi divulgado antes de uma manifestação marcada para esta tarde na praça de Maio, que deve reunir grupos de esquerda, peronistas e outros políticos críticos ao governo.
O governo Milei argumenta que muitas vítimas de ações estatais e grupos guerrilheiros não foram reconhecidas porque suas histórias não se encaixavam na narrativa oficial dos governos peronistas, sobretudo do casal Nestor e Cristina Kirchner.
Os governistas dizem que a esquerda no país distorceu a história do período, considerando apenas os crimes de Estado, mas ignorando a violência dos grupos guerrilheiros.
No vídeo, uma das histórias contadas é a de Miriam Fernández, uma neta recuperada que compartilha a descoberta de suas raízes. Durante a ditadura argentina, crianças eram tiradas de seus pais, muitas vezes militantes presos pela ditadura, e entregues a outras famílias. Até agora, as Avós da Praça de Maio recuperaram 140 netos e ajudaram na condenação mais de 50 apropriadores de bebês
No filme, Fernández afirma que não se considera uma vítima e destaca que sua infância foi feliz. Ao longo de sua adolescência, descobriu mais sobre sua origem e confrontou seus pais.
narra como sua família de criação a recebeu em sua casa sob uma situação complicada, onde uma menina foi trazida para ficar com eles temporariamente. Ela menciona que, após saber da verdade sobre sua adoção, não quis mais discutir o assunto, escolhendo sempre se identificar com a família que a acolheu.
Além dela, há o testemunho do filho de um ex-oficial militar argentino de Valle Larrabure, que foi sequestrado em 1974 pelo ERP (Exército Revolucionário Popular), uma das organizações guerrilheiras ativas na Argentina na década de 1970.
"Na noite em que ele foi sequestrado pelo ERP, havia feridos e mortos. É o sequestro mais longo da história argentina, durou mais de um ano", diz Arturo Larraburre: "É hora de pedir a união dos argentinos, de todos os argentinos. Temos um país maravilhoso e precisamos aproveitá-lo."
Ao contrário de presidentes que o precederam desde a volta da democracia, em 1983, o governo ultraliberal de Milei tem insistindo na chamada "teoria dos dois demônios", que equipara a última ditadura aos grupos que a combatiam.
Em diferentes ocasiões, mesmo antes de ser eleito, em 2023, o presidente afirmou que não existem provas confiáveis de que são 30 mil os desaparecidos durante o regime, apontando que, segundo a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, o número real é de 8.753.
Embora não tenha mais diálogo com Milei, a vice-presidente, Victoria Villarruel, é uma defensora dos militares e também já criticou em diferentes ocasiões organizações críticas ao período, como as Mães e Avós da Praça de Maio.
Os cortes nos gastos públicos promovidos presidente atingiram o Centro da Memória, localizado no edifício que funcionava como um centro clandestino da ditadura para detenções e tortura, a Escola Mecânica da Marinha, em Buenos Aires.
Por outro lado, em preparação para o aniversário do golpe, o governo liberou documentos históricos da época da ditadura que revelam os métodos de censura do regime a livros e filmes.