Argentinos lotam praça de Maio e criticam Milei em ato relembrando 50 anos do golpe militar

Por DOUGLAS GAVRAS

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Bolívar, Defensa, Reconquista e San Martín ?ruas que prestam homenagem a personalidades, locais e passagens da história argentina e que circundam a Casa Rosada se encheram de manifestantes na tarde desta terça-feira (24) em recordação aos 50 anos do golpe militar.

A praça de Maio, onde mães de desaparecidos durante a ditadura se reuniam para dar voltas na pirâmide em frente à sede do governo, mais uma vez se tornou palco do Dia da Memória.

O ato, conhecido pelos argentinos como 24M, sempre costuma reunir manifestantes de diferentes grupos políticos e sociais, mas em 2026 teve um peso histórico ainda maior: a marca de 50 anos do golpe que começou em 24 de março de 1976 e que novamente foi relativizado pelo governo do presidente Javier Milei nesta terça.

Pais carregavam crianças em seus ombros acompanhando a marcha das Mães e Avós da Praça da Maio. Idosos e estudantes se espremiam para chegar até a praça, e a multidão fazia coro para canções de Charly García e Mercedes Sosa. Gritos de protesto, como "são 30 mil desaparecidos, todos presentes", eram comuns.

Conforme a manifestação avançava, a praça e a avenida de Maio se encheram de pessoas carregando retratos de desaparecidos durante o período ditatorial. Mesmo após o fim oficial do ato, muitos manifestantes continuavam se dirigindo até a Casa Rosada.

A marcha também relembrou vítimas brasileiras da ditadura argentina em um ato organizado pela agrupação peronista La Campora, o Núcleo do PT na Argentina e convidados internacionais. Um dos homenageados foi o músico Francisco Tenório Cerqueira Júnior, sequestrado em março de 1976.

Adversários, como o ex-prefeito de Buenos Aires Horacio Rodríguez Larreta e o ex-ministro da Economia e derrotado nas eleições de 2023, Sergio Massa, condenaram os atos cometidos na última ditadura. Na calçada, políticos dividiram espaço com intelectuais e artistas argentinos.

Por volta das 15h, a avenida de Maio estava cheia de pessoas que se moviam lentamente, acompanhadas por tambores e alegria. Os cafés estavam lotados e as filas aumentavam.

Um manifestante segurava um retrato do personagem principal de "O Eternauta", história em quadrinhos e que recentemente virou uma série da Netflix, e cujo autor, Héctor Oesterheld, e suas quatro filhas estão entre as vítimas do regime.

Ao passar pela multidão, uma bandeira branca e azul com os rostos dos desaparecidos trouxe um momento de silêncio seguido de palmas e cantos protestando contra os responsáveis pelos crimes.

Rebatendo falas de Milei que questionam o número de desaparecidos, as organizações de direitos humanos ressaltaram que 30 mil pessoas sumiram, exigindo esclarecimentos do governo.

Um documento lido durante o ato, assinado pelas Avós e Mães da Praça de Maio e outras entidades de defesa da memória do período, pediu justiça e reafirmou que "a memória é defendida pela luta".

Mais cedo, a Casa Rosada divulgou um vídeo em que o governo volta a relativizar ditadura e faz acusações à esquerda. O governo defende a visão de "memória completa", com relatos de vítimas da ditadura e também de organizações terroristas da época.

Ao contrário de presidentes que o precederam desde a volta da democracia em 1983, o governo ultraliberal de Milei tem insistindo na chamada "teoria dos dois demônios", que equipara a última ditadura aos grupos que a combatiam.

As organizações reunidas na praça de Maio criticaram a postura do governo de minimizar o número de desaparecidos, denunciando a situação e afirmando que "não esquecemos, não perdoamos e não nos reconciliamos".

Durante a ditadura argentina, crianças eram tiradas de seus pais ?muitas vezes militantes presos pela repressão? e entregues a outras famílias. Até agora, as Avós da Praça de Maio recuperaram 140 netos e ajudaram na condenação de mais de 50 apropriadores de bebês.

A presidente das Avós da Praça de Maio e referência na luta pelos direitos humanos no país, Estela de Carlotto, afirmou que "o plano sistemático de roubo de bebês ainda persiste" enquanto a busca ativa por "quase 300 homens e mulheres com identidades alteradas" permanece.

O discurso final do ato relacionou a aliança entre governos de direita da região e os Estados Unidos, afirmando que a última ditadura na Argentina instituiu um novo modelo econômico prejudicial ao desenvolvimento e à organização popular.