EUA e Irã veem trégua difícil e se ameaçam

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na reta final de mais um ultimato dado por Donald Trump em sua guerra contra o Irã, os rivais estudam propostas para uma trégua de 45 dias visando encerrar de vez as hostilidades. Negociadores de ambos os lados admitem que as chances de acordo parecem baixas.

O presidente americano fez a quarta extensão de prazo para que a teocracia reabra o estratégico estreito de Hormuz no domingo (5), sob pena de "explodir tudo" -no caso, infraestrutura civil como usinas de energia e pontes.

O prazo venceria na noite desta segunda (6), mas, após destempero verbal numa postagem cheia de palavrões, Trump concedeu uma entrevista dizendo que esperaria até as 21h de terça (7, no horário de Brasília). Enquanto isso, emergiram múltiplos relatos acerca da mais recente proposta americana

De lá para cá emergiram múltiplos relatos acerca da mais recente proposta americana, enviada por meio de militares paquistaneses. Os detalhes são escassos, mas preveem os tais 45 dias, citados inicialmente pelo site americano Axios.

Segundo o site e veículos como as agências Reuters e Associated Press, o centro do debate é o mesmo que embasou o acordo de 2015 para coibir o programa nuclear do Irã: trocar a renúncia à bomba atômica pelo fim de sanções.

Mas os entraves seguem os mesmos que levaram Trump a deixar o acordo em 2018: os iranianos não abrem mão de manter capacidade de processamento e enriquecimento de urânio, o que deixa a porta aberta para violações futuras.

As negociações sobre o tema haviam sido reabertas neste ano, após os megaprotestos contra o regime iraniano. Trump aparentemente acreditava que o enfraquecimento faria Teerã ceder, mas acabou por lançar sua guerra no meio das rodadas de conversas.

Nesta segunda, o porta-voz diplomático do Irã, Esmail Baghaei confirmou que Teerã enviou sua contraproposta a um plano inicial americano que exigia praticamente a capitulação da teocracia, que foi rejeitado.

A escalada de tom de Trump no fim de semana, embora possa ser lida como seu típico método negociador de subir a aposta antes de buscar um acordo, manteve os ânimos exaltados.

"O presidente americano ameaçou publicamente cometer crimes de guerra", disse o vice-chanceler Kazem Gharibabadi no X. Ele está correto, à luz da lei internacional, caso os ataques de Trump não tenham objetivo militar claro. Daí a alguém ser punido, porém, é outra história.

O comando militar iraniano disse que se a ameaça de atacar pontes e usinas de energia for concretizada, "uma retaliação muito mais devastadora" será lançada contra a região -assumindo também o risco de cometer crimes de guerra.

No cardápio presumido para mísseis e drones estão, além da infraestrutura petrolífera dos países vizinhos, alvos como usinas de dessalinização vitais para o abastecimento de água no Oriente Médio e cidades israelenses.

O petróleo segue em alta. Por Hormuz passam 20% da produção global do produto e do gás natural liquefeito. Embora o trânsito para navios de alguns países tenha sido autorizado por Teerã, no geral a via segue interditada.

O Estado judeu, que entrou na guerra ao lado dos EUA desde seu começo, há pouco mais de cinco semanas, voltou a matar nesta segunda uma alta autoridade iraniana.

Desta vez, o alvo foi o general Majid Khademi, o chefe de inteligência da poderosa Guarda Revolucionária, principal ente do governo islâmico instalado em 1979. Ele foi morto por um bombardeio nesta manhã.

Com isso, a face de decapitação do regime da campanha militar segue nas mãos principalmente de Israel, que na aurora da guerra matou o líder supremo, Ali Khamenei, e dezenas de chefes militares e políticos em Teerã. A teocracia, por ora, sobrevive, com todos os assassinados sendo substituídos.

Israel seguiu com ataques a alvos no Irã e no Líbano, país onde mira o grupo Hezbollah, que entrou na guerra ao lado dos aiatolás.

Na mão inversa, a retaliação iraniana deixou ao menos cinco feridos nesta segunda na região de Tel Aviv, centro econômico israelense. Em Haifa (norte), quatro corpos foram retirados de um prédio destruído no domingo.