Irã, EUA e Israel escalam ataques antes do fim do ultimato de Trump
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Horas antes de o ultimato de Donald Trump para que o Irã reabra o estreito de Hormuz expirar, sinais de potencial escalada militar se avolumam no Oriente Médio. Israel e a teocracia atacaram nesta terça-feira (7) usinas petroquímicas, linhas férreas e a estratégica ilha de Kharg foram alvejadas.
Tudo isso eleva o risco de uma crise sem controle no mercado global de energia, a principal carta de Teerã contra os ataques dos Estados Unidos e do Estado judeu, iniciados há cinco semanas. Nesta terça, a Guarda Revolucionária iraniana afirmou que "o comedimento acabou" e que está pronta para interromper o fluxo de petróleo e gás pelo golfo Pérsico "por anos".
Já Trump voltou a adotar retórica inflamada, postando na rede Truth Social que "uma civilização inteira vai morrer hoje à noite", adicionando que "eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai". Finalizou dizendo que "algo maravilhoso pode ocorrer, vamos descobrir".
Para além da retórica, Israel bombardeou nesta manhã de terça a segunda petroquímica iraniana em dois dias. O alvo foi, após a ação contra uma unidade próxima do campo de gás de Pars Sul, uma usina que segundo Tel Aviv produzia insumos para explosivos em Shiraz.
O Irã retaliou contra o complexo petroquímico de Jubail, no leste da Arábia Saudita. O local foi atacado com sete mísseis e vários drones, segundo informações iniciais, mas o governo de Riad ainda não confirmou se houve danos.
Foram também registradas explosões em Kharg, que Trump já disse que pode tomar para si em uma ação com fuzileiros navais e paraquedistas. Segundo o Pentágono, 50 alvos militares foram atingidos ali. O terminal exporta, em tempos normais, 90% do petróleo do Irã, mas a manutenção de uma ocupação seria arriscada e custosa, dada a exposição da ilha a mísseis e drones do continente.
Tal ambiente sugere um pesadelo econômico. Quando Israel bombardeou com força unidades de processamento de gás iraniano em Fars Sul, aparentemente sem consentimento dos parceiros americanos nesta guerra, a retaliação iraniana gerou pânico nos mercados.
Teerã alvejou o principal terminal de manejo e embarque de gás natural liquefeito do Qatar, o líder mundial desta commodity, removendo em uma só ação quase 20% da capacidade produtiva do país. Trump interveio e fez Israel prometer que não atacaria mais, contendo a disparada nos preços do petróleo e do gás.
O Estado judeu sinalizou que deve aderir a um eventual ataque dos Estados Unidos caso os esforços para algum tipo de acordo com o Irã fracassem até as 21h desta terça em Brasília, prazo dado pelo americano para tal.
Nesta manhã, a conta persa das Forças de Defesa de Israel no X publicou um aviso para que os moradores evitem o uso de trens ao longo desta terça até as 21h no Irã (14h30 em Brasília). "Sua presença em trens ou perto de linhas férreas ameaça suas vidas", diz o texto.
É uma ameaça inédita ao país, que tem cerca de 13 mil km de linhas bastante usadas entre centros urbanos como Teerã e Mashhad. Uma ponte ferroviária já foi bombardeada em Kashan, ação que deixou dois mortos, e linhas foram atingidas em outras três regiões.
Trump ameaça bombardear a infraestrutura civil do Irã, dizendo que se o estreito de Hormuz não for reaberto para os 20% do tráfego de petróleo e gás natural liquefeito que por lá passavam, atacará pontes e usinas de energia.
O governo iraniano pediu que jovens façam correntes humanas em torno das instalações ameaçadas, e disse que 14 milhões dos 93 milhões moradores se voluntariaram para uma eventual guerra terrestre. As Forças Armadas do país têm 610 mil militares, 190 mil deles na Guarda.
O temor de retaliação se espalha pela região. Os sauditas fecharam uma ponte que liga o país ao Bahrein nesta manhã, temendo que ela seja alvo caso as negociações fracassem. O Irã já disse que usinas de dessalinização, vitais para o árido Oriente Médio, serão alvos legítimos caso a situação saia de controle.
Na segunda (6), o republicano rejeitou uma contraproposta feita pelo Irã que exigia não só uma trégua de 45 dias, como os negociadores americanos pediam, mas o fim do conflito e a negociação de uma série de pontos ?voltando à lógica de troca de intenções militares de seu programa nuclear pelo fim de sanções.
Esse trabalho diplomático está sendo concentrado pelo Paquistão, vizinho do Irã e aliado principal da China no Sul da Ásia. Pequim tem grande interesse no desenrolar da guerra, pois importava quase 15% do seu petróleo do Irã, mas, ao mesmo tempo busca um acordo comercial amplo com os EUA, visando restabelecer sua posição exportadora no mercado americano.
Nesta terça, a mídia estatal iraniana disse que as conversas nesta terça seguiam com algum avanço e entraram em "estágios críticos". O vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, disse em Budapeste que os "objetivos militares foram completados" e que ainda acreditava num acordo.
Uma autoridade de Teerã que falou com a agência Reuters parecia menos otimista, e refez a ameaça de levar os aliados houthis do Iêmen a fechar o estreito de Bab al-Mandab, no mar Vermelho, o que interromperia a rota alternativa usada pelos sauditas para escoar seu óleo.
TRUMP JÁ VOLTOU ATRÁS ANTES
Trump, de todo modo, se notabilizou por voltar atrás nos ultimatos, buscando uma saída para a guerra, que divide opiniões mesmo em sua base política e alienou aliados. Ele já mudou quatro vezes o prazo dado para a reabertura de Hormuz, tornada uma prioridade acima de seus objetivos declarados e mutáveis para ter começado a guerra ao lado de Israel, há cinco semanas.
Ao mesmo tempo, o americano tem escalado a retórica, algo usual de seu método negociador. Disse que não se importa com a acusação de crimes de guerra que irá sofrer se atacar alvos civis sem valor militar óbvio, o que de resto ocorre de lado a lado neste conflito.
A ONG iraniana no exílio americano Hrana divulgou nesta terça um balanço de mortos no país persa: 3.600, sendo 1.665 deles civis, até aqui. A guerra se espalhou pela região, e nesta terça ao menos oito pessoas morreram em um bombardeio israelense no Líbano.