Trump insiste que Irã não pode enriquecer urânio

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reafirmou nesta quarta-feira (8) que o Irã não poderá enriquecer mais urânio, um dos passos essenciais para a construção de uma bomba atômica.

Na contraproposta de dez pontos que foi aceita pelo americano como base para a negociação durante o cessar-fogo de duas semanas anunciado na terça (7), Teerã dizia se reservar o direito de soberania sobre seu programa nuclear.

"Não haverá enriquecimento de urânio, e os EUA vão, trabalhando com o Irã, escavar e remover toda poeira nuclear enterrada profundamente (bombardeiros B-2)", escreveu, com sua falta de clareza usual, o americano na rede Truth Social.

Ele aparentemente se referia aos 441 kg de urânio enriquecido a 60%, suficiente para fazer talvez dez bombas de baixo rendimento, que a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) contabiliza nas mãos iranianas.

Ao mesmo tempo, falava do bombardeio com os B-2, que ocorreu tanto no ataque único de 2025 contra o programa nuclear iraniano quanto na guerra deste ano. Trump ainda disse que a "poeira nuclear" não foi tocada no conflito atual, e que está sob vigilância de satélite.

Mais tarde, o secretário Pete Hegseth (Defesa) parece ter clarificado a questão. Ele disse que os EUA querem que o Irã entregue o urânio em sua posse. "Ou então nós vamos tomá-lo", afirmou.

Um dos motivos mais citados pelo presidente para a guerra de cinco semanas interrompida na noite de terça era justamente cercear o programa nuclear dos aiatolás. Em 2018, no seu primeiro mandato, ele havia retirado os EUA do acordo de 2015 que trocava a ambição pela bomba pelo relaxamento de sanções.

Agora, Trump parece querer uma mistura das coisas. Na postagem, disse que irá discutir o fim de punições econômicas, como aliás o Irã pedia em sua proposta enviada a mediadores no Paquistão. Ao mesmo tempo, quer vetar o que considerava falha fundamental do arranjo da época de Barack Obama, a possibilidade de Teerã enriquecer o urânio.

Foi exatamente o que o regime islâmico passou a fazer quando os EUA deixaram o acordo, chegando à massa crítica atual. Agora, o Irã defende a manutenção da capacidade porque ela sempre foi uma de suas cartas mais poderosas para negociações.

Essa dissonância é apenas uma das que serão enfrentadas pelos negociadores em Islamabad. Há a questão do livre trânsito pelo estreito de Hormuz, que Teerã quer agora taxar como o Egito faz com o canal de Suez, compensações pela guerra e mais.

Trump falou de uma das questões de forma ligeira na rede social. Disse que quem vender armas ao Irã terá sobretaxas de importação de seus produtos de 50% aplicadas. Com isso, quer evitar um rearmamento mais rápido do país persa.

Segundo o Pentágono, mais de 160 embarcações iranianas, ou toda sua frota de combate principal, foram afundadas no conflito. A Força Aérea, que já era bastante fraca, foi ao que tudo indica destruída.

Segundo os dados da base de comércio de armamentos do Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo, a Rússia foi o único fornecedor externo de armamentos ao Irã de 2015 a 2024. Em 2025, Moscou e Teerã assinaram um acordo que previa a venda de produtos modernos, como os caças Su-35, mas até aqui nada foi entregue.

Há material chinês anterior também, e antes da guerra atual surgiram rumores de que Pequim poderia fornecer mísseis para Teerã, algo que não se confirmou. Com a medida tarifária, Trump busca desestimular novos acordos, embora nada impeça transações secretas ?China e Rússia são aliadas nominais do Irã.

Além disso, a ameaça não influi na indústria doméstica do país, que manteve vivo e operante o arsenal de mísseis balísticos e drones, garantindo poder de retaliação aos iranianos. É fato que ela foi bastante atacada na guerra e que usa componentes estrangeiros, mas esse fornecimento ocorre por terceiros de forma pulverizada.