Rússia repete EUA e fala de interferência da UE em eleição húngara

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Um dia depois do vice-presidente americano, J.D. Vance, afirmar que "burocratas de Bruxelas" querem tirar Viktor Orbán do poder na Hungria, nesta quarta-feira (8) foi a vez da Rússia corroborar com a tese de interferência externa na eleição parlamentar do país.

Um opositor, Péter Magyar, lidera as pesquisas de opinião, abrindo a perspectiva do fim da era Orbán após 16 anos marcados pela instalação de um governo autocrático.

Segundo Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, "muitas forças na Europa, muitas forças em Bruxelas, não gostariam que Orbán voltasse a vencer as eleições". Peskov tinha sido perguntado, na verdade, sobre uma reportagem da Bloomberg, desta semana, que mostra uma proximidade muito grande entre o premiê húngaro e o presidente russo, Vladimir Putin.

"Estou pronto para ajudar imediatamente... Se precisar de ajuda em qualquer assunto, estou à sua disposição", teria dito Orbán a Putin, em 17 de outubro do ano passado. A frase consta da transcrição de um telefonema entre os líderes, feito durante uma infrutífera negociação de cessar-fogo na Ucrânia, mediada por Donald Trump.

Putin, ao responder, declarou que a Hungria seria "talvez o único país europeu aceitável" como local de encontro dele com Trump. O encontro não aconteceu, mas, à época, Orbán ocupou o noticiário ao declarar que ignoraria o pedido de prisão que pesa contra o russo, emitido pelo Tribunal Penal Internacional.

O episódio se soma a outras revelações feitas nas últimas semanas sobre o envolvimento dos serviços de inteligência russos na campanha de Orbán e a proximidade dos ministros de Relações Exteriores dos dois países. Péter Szijjártó, segundo os relatos, passou anos abastecendo o colega Sergei Lavrov com o conteúdo de reuniões do Conselho Europeu.

Peskov minimizou as reportagens. "Isso é de conhecimento geral, é óbvio a olho nu. E, é claro, eles estão fazendo o jogo das forças que se opõem politicamente a Orbán e acreditam que a divulgação desses materiais poderia prejudicá-lo."

À agência Reuters, porta-voz da União Europeia evitou entrar na polêmica, afirmando que "eleições são uma escolha exclusiva dos cidadãos". Esse tem sido o comportamento de Bruxelas desde que a campanha de Orbán transformou UE e Ucrânia em inimigos públicos. Segundo a narrativa, Bruxelas e Kiev conspiram contra a Hungria, que não quer se envolver na guerra do país vizinho e depende do gás russo.

Ainda assim, um assessor do governo alemão não resistiu ao comentar a passagem de Vance por Budapeste, marcada por uma declaração de amor a Orbán, participação em comício e a da tese de interferência externa. O fato de o vice-presidente dos EUA estar na Hungria "já mostra, ou fala por si só, quem está interferindo no quê", disse o porta-voz.

No segundo dia de visita oficial a Budapeste, Vance classificou de "escandaloso" o comportamento de Volodimir Zelenski em relação a Orbán. Os dois trocam farpas desde que o premiê vetou um empréstimo da UE de ? 90 bilhões para recuperar a infraestrutura da Ucrânia alegando leniência de Kiev no reparo de um gasoduto russo.

A instalação abastece a Hungria, e Orbán busca transformar a disputa em um tema de segurança nacional para tentar reverter a desvantagem nas pesquisas.