Entenda como o Paquistão virou improvável mediador na guerra do Irã

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há décadas acostumado a pontificar o noticiário internacional de forma negativa, com atentados, instabilidade política e crises econômica e humanitária, o Paquistão emergiu na guerra do Irã num improvável papel de mediador dos esforços pela paz.

O papel é mais notável quando se considera que Islamabad e Teerã trocaram fogo há pouco mais de dois anos, em janeiro de 2024. O Irã havia atacado militantes contrários à teocracia abrigados no vizinho, que respondeu com a mesma moeda. Por pouco não houve uma escalada.

Única potência nuclear do mundo muçulmano, com 170 ogivas, o Paquistão é um país onde o Exército tem a palavra final na política, seja por influência, seja por intervenções diretas. Assim, não é surpresa que o homem por trás dessa nova imagem do país seja seu principal militar, o marechal Asim Munir.

Chefe do Estado-Maior do Exército desde 2022, Munir foi diretor do poderoso ISI, a principal agência de inteligência de um país cuja própria existência é baseada num conflito. A partilha da Índia britânica, em 1947, levou a uma rivalidade amarga e a quatro guerras.

No ano passado, uma quinta começou a se formar como escaramuça fronteiriça e Donald Trump, que acabara de voltar ao poder nos EUA, buscou intermediar uma trégua. A Índia sempre rejeitou a alegação do americano de que Trump evitou um conflito entre os dois adversários nucleares, mas Munir viu uma oportunidade.

Por décadas, o Paquistão era um aliado vital dos EUA no Sul da Ásia. Foi de lá que as armas que apoiaram os mujahedin afegãos contra a ocupação soviética (1979-1989) fluíram, mas o ISI sempre buscou vantagens estratégicas na briga com Nova Déli.

Foi assim que a organização ajudou a fundar o Talibã, que viria a tomar o poder no Afeganistão em 1996. Só que a hospitalidade para os terroristas de Osama bin Laden que promoveram os ataques de 11 de setembro de 2001 levou os EUA a desalojar os fundamentalistas de Cabul.

Bin Laden acabou morto dez anos depois escondido ao lado da principal academia militar do Paquistão, o que serviu de prova a Washington de que Islamabad fazia jogo duplo. Além disso, mesmo apoiando diversos grupos militantes de olho na Índia, os paquistaneses também sofriam com ataques terroristas.

A relação com os EUA se esgarçou e a China, vizinha ao norte do Paquistão, ocupou o vácuo com gula. Formou uma aliança econômica que gerou em 2015 um corredor de infraestrutura para escoamento de produtos chineses pelo porto de Gwadar, no Índico paquistanês, uma iniciativa de US$ 60 bilhões.

De quebra, a aliança dava peso militar a Pequim contra a Índia, sua rival na dominância econômica regional e com quem travou algumas disputas de fronteira nos últimos anos.

A retirada desastrosa dos EUA do Afeganistão em 2021, com a volta ao poder do Talibã, bagunçou o coreto regional. China, Rússia e Índia se aproximaram dos fundamentalistas, que passaram a ser acusados pelos antigos patronos no Paquistão de fomentar terroristas contra Islamabad.

O resultado é uma guerra intermitente entre os vizinhos, que teve episódios pesados nos últimos meses, com o bombardeio de Cabul. Essa crise e a tensão do ano passado com o Irã apresentaram um desafio para Munir.

Quando Trump buscou faturar com a quase guerra do ano passado entre Índia e Paquistão, Munir aproximou-se do americano. Se encontraram pela primeira vez em junho passado, e o presidente se refere a ele como "meu marechal de campo preferido".

O seu passado de líder de um dos mais eficazes serviços de inteligência do planeta lhe garantiu acesso à poderosa Guarda Revolucionária do Irã, como ocorre entre os melhores inimigos. E esse contato colocou o marechal como nome ideal para intermediar as difíceis conversas indiretas entre Washington e Teerã.

Elas começam em meio a um instável cessar-fogo neste sábado (11) no famoso hotel Serena, em Islamabad, cujos hóspedes receberam compensação para desocupar o prédio. A negociação tem tudo para dar errado, mas Munir conseguiu colocar seu país na posição de aliado da China e dos EUA.

Não só: no ano passado o marechal costurou um acordo militar de assistência mútua com os sauditas, que patrocinam há décadas investimentos no Paquistão. Na prática, tornou Riad uma potência nuclear, dado que em caso de guerra seu arsenal pode em tese ser empregado para defender os aliados.

A aliança tem peso relativo importante. Quando o Irã lançou mísseis e drones contra a Arábia Saudita na quarta (8), depois do início da trégua, o governo paquistanês disse que isso ameaçava toda a negociação.

Por ora, a advertência parece ter tido efeito: nesta quinta (9), a chancelaria em Teerã disse que evitou romper a trégua justamente a pedido de Islamabad.