Cessar-fogo faz 6 meses em Gaza, mas não pausa estado de guerra para palestinos

Por GUILHERME BOTACINI

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O barulho constante de drones na Faixa de Gaza não é um produto da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023. Mas o ruído é um lembrete aos palestinos de que o conflito cujo cessar-fogo entrou em vigor há seis meses, sem pausar de fato a violência, ainda perdura.

Ao menos 715 palestinos em Gaza morreram em bombardeios ou por tiros desde o dia 10 de outubro de 2025, segundo o escritório da ONU para coordenação de questões humanitárias (Ocha), com base em informações do Ministério da Saúde, controlado pelo grupo terrorista Hamas.

As mortes acumuladas até o começo de abril passam de 72 mil e, embora o ritmo desses óbitos tenha diminuído, o número total cresce também com corpos encontrados em meio aos escombros do território.

As Forças Armadas de Israel afirmam que fazem operações pontuais desde o cessar-fogo mediante violações em série da trégua por combatentes do Hamas, que segue operando em pouco menos da metade do território. A outra metade, um perímetro de norte a sul de Gaza, é ocupada militarmente por Israel.

Mais de 80% das edificações foram atingidas, e materiais para reconstrução são praticamente inexistentes. Alguns usam o que podem, como terra e cabelos cortados em barbearias, para compor a argamassa que ajuda a erguer paredes feitas com pedras e blocos de construção encontrados mais ou menos inteiros.

"Se uma bala perdida chega, essas pedras podem nos oferecer ao menos algum grau de proteção. Ainda é melhor do que pano", afirma Mohammed al-Jadba, morador da Cidade de Gaza, em vídeo gravado pela ONU.

A organização estima ser 1,7 milhão o número de palestinos vivendo em 1.600 locais -1,3 milhão estão em abrigos improvisados, muitos deles em tendas, sujeitos às intempéries e com pouco acesso a necessidades básicas.

Logo após o anúncio de trégua, o Centro de Satélite das Nações Unidas analisou o território e contabilizou 198.273 construções no mínimo danificadas. Dessas, pelo menos 123 mil foram completamente destruídas. A estimativa da agência, com isso, é de que ao menos 320 mil unidades habitacionais (moradias de fato, como apartamentos em um prédio) foram danificadas.

Esses problemas estruturais se espalham também pelos serviços de saúde de um território que foi alvo de diversas ações militares dentro e ao redor de hospitais. Dezenas de centros clínicos e hospitalares estão inutilizáveis, e dos 283 locais que prestam serviços de saúde, só 20 estão funcionando com toda sua capacidade.

"A situação de saúde é catastrófica. Estamos enfrentando desafios múltiplos em várias especialidades, não apenas lidando com ferimentos. Há grandes dificuldades com pacientes com câncer, e medicamentos se tornaram extremamente escassos", afirma Hassan Al-Shaer, diretor do hospital Al-Shifa, deixado em ruínas em meio ao conflito.

A continuidade da situação precária da população civil é efeito direto de um cessar-fogo que pouco avança após seu anúncio inicial e, na prática, mantém o território em situação humanitária catastrófica, com pouco acesso externo e escassa entrada de materiais básicos. Há apenas dois postos de controle parcialmente abertos atualmente, em Rafah e Kerem Shalom, ambos controlados por Israel.

A trégua entrou em vigor no dia 10 de outubro de 2025, poucos dias após o aniversário de dois anos dos ataques terroristas do Hamas a comunidades do sul de Israel que deixaram ao menos 1.200 mortos e desencadearam a reação de Tel Aviv.

Quando foi anunciado o cessar-fogo, 20 reféns ainda vivos estavam em posse da facção. Pressionado internamente e pelo aliado Donald Trump, o governo de Binyamin Netanyahu concordou com a pausa, cuja primeira fase previa o retorno dos reféns em troca da libertação de prisioneiros palestinos. Três dias depois, o Hamas libertou todos os sequestrados que estavam vivos.

Além disso, as tropas israelenses se retiraram para o perímetro atual e fariam um recuo mais amplo só nas fases seguintes do pacto.

Essas fases, entretanto, que previam o desarmamento do Hamas e a entrega da governança do território a um grupo tecnocrático sem participação da facção, não saíram do papel. O Hamas exige garantias de que as próximas fases do plano serão seguidas por Israel antes de se desarmar e denuncia violações por parte de Tel Aviv, que devolve dizendo reagir a violações cometidas pela facção.

O chamado "Conselho da Paz", grupo liderado pelo presidente americano, exige do Hamas seu desarmamento ainda nesta semana. A exigência, contudo, não tem cara de ultimato e é algo que os próprios integrantes da organização afirmam poder ser estendido, segundo diplomatas ouvidos pelo jornal The New York Times.

Com a guerra no Irã também sob uma frágil trégua e a retomada das hostilidades no sul do Líbano por parte de Israel, não parece haver pressa de mediadores e autoridades envolvidas para avançar com as negociações em Gaza. Até lá, apesar de terem celebrado um cessar-fogo há seis meses, a população civil palestina seguirá convivendo com a penúria, a violência episódica e os ruídos dos drones.