Viktor Orbán mudou de pele para permanecer no poder e testou limites da democracia
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Nos anos 1980, foi preso por ato de insubordinação no Exército. Antes, havia sofrido reprimendas por desobediência. Fã de futebol, o então conscrito faltava ao serviço para assistir a partidas, em especial na Copa do Mundo.
Ele tem histórico de faltar a debates políticos e incentivar laços antidemocráticos entre sua família e a extrema direita internacional. Seus filhos e esposa exercem um outro segmento do cristianismo, diferente do seu ?instrumentalizado para objetivos políticos.
Os fatos acima poderiam ser sobre Jair Bolsonaro. Preso em 1986 por publicar um artigo pedindo aumento salarial a cadetes, ele também não compareceu a debates presidenciais em 2018 e é casado com uma evangélica, muito embora se declare católico. Seus filhos apresentam ligações com a extrema direita, principalmente nos Estados Unidos.
Mas a figura é outra: Viktor Orbán, preso por dez dias em 1982 por brigar com um oficial e sonegador de debates políticos desde que assumiu o posto em 2010. Seu filho Gáspár, único homem entre quatro mulheres, realizou visitas periódicas ao Sahel para incentivar missões militares em nome do cristianismo. Hoje aliado à fé do pai protestante, exerceu a fé católica até 2014, quando foi convertido.
Primeiro-ministro da Hungria há 16 anos, Orbán, 62, é hoje o líder europeu que ocupou por mais tempo a liderança de um país da União Europeia. Como todo carrapato no poder, não é fácil caracterizá-lo de forma monolítica. O Orbán de hoje se esculpiu em fases.
JOVEM INCENDIÁRIO
A primeira fase veio com sua oposição contundente ao Pacto de Varsóvia, aliança militar do bloco soviético durante a Guerra Fria. Após a queda do muro de Berlim, ainda havia cerca de 70 mil soldados e mil tanques no país. Aos 26 anos, Orbán despontou como estrela da nova geração, ao fazer um discurso na cerimônia de homenagem aos mártires de 1956.
Ali, afirmou em praça pública: "Se confiarmos em nossa própria força, seremos capazes de pôr fim à ditadura comunista". O recado foi dado: livrar-se do fardo soviético e caminhar em direção ao liberalismo prometido pela Europa ocidental e pelos EUA.
Ambicioso e esperto, Orbán havia se formado em direito em Budapeste e se politizado nos anos anteriores, em contraste com seu histórico familiar apolítico. Vindo de uma área rural em Fejér, nunca havia tido acesso a banheiros até os 15 anos de idade.
Em 1988, fundou um movimento de oposição ao regime comunista chamado Aliança dos Jovens Democratas, cuja sigla em húngaro é Fidesz. Com o fim do Pacto de Varsóvia, o movimento foi institucionalizado como partido político. Em 1989, foi laureado com uma bolsa da Open Society Foundation, criada por George Soros, para estudar política em Oxford, no Reino Unido.
VIRA-CASACA CÉTICO
Dez anos depois, seu posicionamento não poderia ser mais oposto. Já empossado como primeiro-ministro, Orbán enfatizou sua ruptura com os ideais de 1989 em Viena. Segundo ele, 1989 não teria sido nem uma revolução nem uma ruptura, mas sim uma mudança na continuidade.
Acompanhado na ocasião pelo líder sindicalista Adam Michnik e o então presidente da República Tcheca Václav Havel, Orbán foi reprimido por seus pares. Michnik rebateu o discurso desabonador de Orbán, enfatizando o milagre da transição pacífica à democracia no centro-leste europeu.
Na época, porém, Orbán não conseguiu se manter no poder. Acabado seu mandato em 2002, passou a integrar a oposição. Até ser catapultado de volta em 2010, quando foi eleito primeiro-ministro após dois governos do Partido Socialista Húngaro e uma crise econômica severa na região, em decorrência de 2008.
AUTOCRATA CONVICTO
De 2010 em diante, a Hungria passou a ver uma terceira fase de Orbán. Ele entrou de novo em cena promulgando uma nova Constituição, em vigor desde 2012. Em 2015, o então presidente da Comissão Europeia o saudou com um "olá, ditador" e deu-lhe um leve tapa na cara em Riga, na Letônia.
Seu jogo não poderia ser mais claro: o país deveria virar uma "democracia iliberal" (2014) ou "cristã" (2018). Os significados ficariam patentes nos anos seguintes, regados a engenharia constitucional, redesenho de distritos eleitorais e perseguição a minorias: LGBTs, mulheres, migrantes, ciganos, ONGs ? em particular, a do mesmo Soros que o financiou em 1989.
Em 2014, ganhou menos de 45% dos votos populares, mas 133 assentos no Parlamento. A oposição de esquerda, que conseguiu metade desses votos, alcançou 38. Em 2022, última reeleição de Orbán, a oposição ensaiou coalizão para derrotar o autocrata, mas ela não decolou por divergências internas.
Em 2026, o resultado pode ser outro. Mesmo que, para ganhar de Orbán, a oposição precise conseguir entre 4 e 5% de votos a mais que o Fidesz, segundo Péter Balogh, pesquisador da Universidade Eötvös Loránd.
Peter Magyar, dissidência interna do Fidesz, é o maior oponente. Do partido de centro-direita Tisza, o político de 45 anos promete limitação de mandatos de primeiros-ministros e até um sistema tributário progressivo em seu programa político. O Fidesz não publicou qualquer programa.
A VOLTA DA OPOSIÇÃO
Magyar (nome que significa "húngaro" em húngaro) é perfilado por Orbán como o candidato da guerra, aliado de Volodimir Zelenski e da União Europeia. A população responde com rechaço, em parte. Até o eleitorado histórico do Fidesz, de setores rurais e vilarejos, está se voltando à oposição. Em 08 de abril, Orbán chegou a ser vaiado ao som de "Russos, voltem para casa" ao subir no palanque em Sopron.
Por outro lado, Orbán não esconde laços com a Rússia. Em novembro de 2009, Orbán se encontrou com Vladimir Putin em Moscou. "Não sabemos se foi a cenoura ou o porrete", disse Balogh sobre o que motivou tal aproximação repentina. De abril de 2010 em diante, quando ganhou a chancelaria, Orbán passou a agir como procurador de Moscou na União Europeia. Reportagens recentes confirmam o vazamento de informações secretas entre a UE e a Rússia via chanceler da Hungria.
Mais do que outros líderes da UE, Orbán sabe fazer a "dança do pavão". Bate de frente com a UE ao mesmo tempo em que aparenta concordância frente a sua base. Abraça a Rússia, mas não cogita sair da UE.
Resta saber se, no domingo, Magyar conseguirá se sobrepor a essa dança. Orbán já fez seu apelo: "Precisamos de 3 milhões de votos no domingo à noite, e então haverá unidade nacional". Falta combinar com os húngaros.