Magyar, ex-aliado, foi aos detalhes para bater Orbán
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Ele é conservador, não apoia a adesão da Ucrânia à União Europeia e defende o recrudescimento da política anti-imigração. Derrotar Viktor Orbán em uma das mais decisivas eleições da Europa nos últimos tempos não credencia Péter Magyar como um adversário da ultradireita.
Advogado proveniente de uma família respeitada na Hungria, Magyar, 45, foi um jovem talento do Fidesz, o partido de Orbán, até 2024. Era casado com Judith Varga, também advogada, que acabou ascendendo mais do que o então companheiro nas fileiras do partido: virou ministra da Justiça de Orbán.
Um escândalo envolvendo a ex-mulher lançou Magyar à aventura de ser do campo de oposição a Orbán, tarefa historicamente ingrata até este domingo (12). Varga foi obrigada a renunciar após assinar o perdão de um acusado de pedofilia ligado ao Fidesz.
"Não quero fazer parte de um sistema por mais um minuto sequer onde aqueles que são realmente responsáveis se escondam atrás das saias das mulheres", escreveu Magyar no Facebook, em uma mensagem que viralizou. Aquilo que deveria soar como uma defesa da esposa, partindo de um integrante do partido que era visto como mulherengo, acabou tendo efeito contrário.
O casal se separou, e um diálogo entre os dois, em que Varga admitia corrupção de integrantes do governo, vazou para a imprensa. A ex-ministra, além de denunciar ter sido gravada pelo próprio marido, afirmou que Magyar era violento com ela na relação.
As acusações nunca foram comprovadas, mas o resultado final do episódio é que Magyar, antes um aliado, havia se tornado uma figura que denunciava a corrupção no governo. A bordo do pequeno partido que fundara, o Tisza, concorreu ao Parlamento Europeu, alcançando uma cadeira com surpreendentes 30% dos votos.
O resultado fez Magyar projetar que havia ressonância de sobra na Hungria para a bandeira anticorrupção e para tirar Orbán do comando do país nas eleições parlamentares. Os resultados pífios da "democracia iliberal" do primeiro-ministro na economia somados à ostentação de riqueza de oligarcas ligados a ele irritavam a população. Era preciso apenas mostrar que havia uma solução.
Magyar sabia como o Fidesz se aproveitava das reformas eleitorais promovidas por Orbán dentro do pacote de mudanças institucionais que construiu para se manter no poder. Sabia, por exemplo, que áreas conservadoras rurais tinham proporcionalmente mais votos do que áreas urbanas liberais.
Fez campanha de cidade em cidade para evitar tais efeitos. Ignorou a imprensa, 80% dominada por Orbán e aliados, e centralizou toda comunicação do partido em suas mensagens no Facebook, rede social dominante no país. Nem os candidatos do partido puderam dar entrevistas durante a campanha.
O controle rígido deu resultado nas urnas, mas governar será outra história. Sua maioria no Parlamento será formada por políticos inexperientes, escolhidos de distrito em distrito para vencer a eleição, de preferência sem ligação com o governo que agora se encerra.
"Ganhamos um mandato sem precedentes", declarou Magyar para uma multidão em Budapeste no fim da noite de domingo. Seu governo terá desafios não menos complexos.