Papa Leão 14 viajará a quatro países da África nos próximos dez dias

Por MARINA COSTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O papa Leão 14 começa nesta segunda-feira (13) um roteiro por quatro países da África. Nos próximos dez dias, o religioso percorrerá quase 18 mil quilômetros para participar de compromissos em 11 cidades da Argélia --onde desembarca por volta das 6h no horário de Brasília--, de Angola, de Camarões e da Guiné Equatorial.

Será a primeira vez que a Argélia, cuja religião oficial é o islamismo, seguido por 99% dos cerca de 48 milhões de habitantes, receberá a visita de um papa. Embora a liberdade de culto seja prevista na Constituição argelina, as organizações de direitos humanos Humans Rights Watch, EuroMed Rights e Mena Rights Group pediram que o pontífice aborde a repressão às minorias religiosas do país.

Católicos posam para fotos ao lado de um cartaz de boas-vindas ao papa Leão 14 antes de sua visita à Um dos objetivos de Leão 14 é levar uma mensagem de diálogo e de convivência pacífica entre o islã e o cristianismo. Após reunir-se com o presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune, o religioso visitará a Grande Mesquita de Argel, a maior do continente africano. Depois, participará de um encontro com a comunidade católica na catedral Notre-Dame d'Afrique.

A ida à nação do norte africano também tem significado pessoal para Leão 14. O papa celebrará uma missa na cidade de Annaba, onde viveu santo Agostinho, na terça-feira (14). O americano, integrante da ordem agostiniana do catolicismo desde 1977, se apresentou como um "filho de santo Agostinho" em seu primeiro discurso como pontífice, em 8 de maio de 2025.

À agência de notícias AFP, o padre Fred Wekesa, líder da basílica de Santo Agostinho em Annaba, afirmou que a visita de Leão 14 é um "momento profundamente significativo" que dará à comunidade uma "mensagem de ânimo e solidariedade". "Com a visita do Santo Padre, o mundo inteiro verá a hospitalidade e a generosidade do povo argelino", disse.

O papa segue para Iaundé, capital de Camarões, na quarta-feira (15). Cerca de 37% dos quase 30 milhões de habitantes do Camarões são católicos, e a Igreja administra hospitais, escolas e obras de caridade na nação da África central. Será a quarta visita de um pontífice ao país --a última ocorreu em 2009, pelo então papa Bento 16, e ficou marcada por polêmica.

Quando questionado se a proibição do uso de preservativos por católicos poderia ser flexibilizada para ajudar a combater a transmissão do HIV, Bento disse que permitir "aumentaria o problema", o que provocou indignação internacional diante de 22,5 milhões de pessoas no continente africano vivendo com o vírus na época.

Leão 14 será recebido pelo presidente mais velho do mundo, Paul Biya, 93, católico que governa Camarões há mais de quatro décadas. Além de celebrar missas no estádio de Douala, capital econômica do país, e em Iaundé, o papa deve discursar e rezar, na quinta-feira (16), na Catedral de São José, na cidade de Bamenda.

Localizada na região norte da nação, assolada há anos pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram, Bamenda é o epicentro de conflitos armados entre forças governamentais e movimentos separatistas que acontecem há quase uma década e provocam mortes e deslocamentos forçados.

No sábado (18), o pontífice encontrará João Lourenço, presidente de Angola, nação em que pretende abordar desigualdade, corrupção e gestão equitativa de recursos. O país é um dos principais produtores de petróleo da África subsaariana, mas um terço da população de 39 milhões de pessoas --das quais 44% se declaram católicas-- vive com menos de US$ 2,15 (R$ 10,80) por dia, segundo o Banco Mundial.

Já a Guiné Equatorial, para onde o papa Leão 14 seguirá no dia 21 de abril (terça-feira), recebeu um pontífice pela primeira e última vez em 1982, quando João Paulo 2º esteve no país -nesta época, já governado por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, o ditador mais longevo em exercício do mundo, no poder desde 1979.

Cerca de 80% da população de quase 2 milhões de habitantes se identifica como católica. Na nação da costa oeste do continente africano, um dos desafios do religioso será não passar a impressão de que apoia o regime --que estaria recebendo, segundo a agência Reuters, pessoas deportadas pelo governo de Donald Trump.

Autoridades do Vaticano e líderes da Igreja Católica na África afirmam que o roteiro pelos quatro países é uma prioridade pessoal para o papa Leão 14, que retorna a Roma no dia 23 de abril (quinta-feira), e representa o valor atribuído ao continente onde o catolicismo mais cresce e onde vivem mais de 20% dos católicos do mundo, segundo o Vaticano.

"Ao ir à África tão cedo em seu pontificado, o papa mostra que a África importa", disse à Reuters o cardeal Michael Czerny, alto funcionário do Vaticano e conselheiro próximo do pontífice que afirma que o religioso tem a missão de "ajudar a voltar a atenção do mundo para a África".

Neste domingo (12), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou o papa Leão 14, chamando-o de "frouxo" em relação ao crime e "terrível" para a política externa, após o líder religioso criticar as políticas de imigração e externa do republicano.