Magyar e Europa festejam eleição na Hungria, mas têm negociações delicadas pela frente
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Um dia depois da vitória histórica sobre Viktor Orbán, Péter Magyar, futuro primeiro-ministro da Hungria, ainda recebia congratulações pelo feito. Começava a ouvir também alguns recados, como o do porta-voz do governo alemão em Berlim: o empréstimo europeu de ? 90 bilhões para Ucrânia, travado pelo populista que derrotou, precisa ter solução "rápida".
Dos tantos nós que precisa desatar após 16 anos da "democracia iliberal" de Orbán, as negociações com a União Europeia são delicadas e ao mesmo tempo cruciais para um começo de governo que a maioria dos analistas classifica como difícil.
Em entrevista nesta segunda-feira (13), o advogado e eurodeputado classificou como tarefa-chave desbloquear cerca de ? 20 bilhões de fundos da UE. O montante, algo como 10% do PIB nominal do país, está preso nos cofres de Bruxelas devido às seguidas violações ao Estado de direito na Hungria patrocinadas pela gestão Orbán.
Além da precária situação econômica, Magyar precisa lidar com o fato de que os recursos têm prazo de validade, alguns vencendo já no meio deste ano. Tecnicamente, só conseguirá a liberação promovendo reformas institucionais. A UE, no entanto, pode abrir uma exceção, como já fez com Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia.
Na Coreia do Sul, onde cumpre visita oficial, Tusk celebrou a vitória de Magyar. "Primeiro Varsóvia, depois Bucareste, Chisinau e, agora, Budapeste", declarou o premiê, elencando vitórias contra populistas dos últimos anos no leste europeu, a começar pela sua, em 2023.
"Fico feliz que esta parte da Europa esteja mostrando que não estamos condenados a governos corruptos e autoritários, pois foi isso que o governo de Viktor Orbán infelizmente se tornou após muitos anos no poder."
Tusk tem a própria lista de retrocessos democráticos para sanar, que também foram alvo de retaliação da UE ?fruto de oito anos de gestão do PiS, o partido conservador do atual presidente, Karol Nawrocki. No sistema político polonês, a Presidência tem poder de propor e vetar legislações, o que tem travado os planos do primeiro-ministro.
Não por coincidência, a primeira visita oficial de Magyar será a Varsóvia, no começo de maio, quando o resultado final da eleição já deverá ter sido divulgado.
Magyar terá maioria Constitucional para reformas e pode contar com a compreensão de Bruxelas, como ocorreu com Tusk, mas é difícil imaginar que a Ucrânia não aparecerá na pauta durante as negociações. Além do empréstimo, que é vital para a continuidade do apoio da UE ao país invadido pela Rússia, também o 20° pacote de sanções econômicas do bloco contra Moscou está parado por negativa de Budapeste.
Aos jornalistas, o futuro premiê afirmou que é a favor do empréstimo, desde que a Hungria possa ficar isenta de entrar com recursos, como chegou a ser acordado com Orbán em dezembro. Seu argumento, mais do que razoável, é a "difícil situação financeira" do país.
Conservador e ex-integrante do Fidesz, partido de Orbán, Magyar evitou esse e outros temas espinhosos durante sua campanha, como direitos LGBT e a guerra na Ucrânia. Apesar de pró-Europa e pró-Otan, já se manifestou contra a venda de armas à nação vizinha, assim como a sua adesão ao bloco.
Diplomatas aguardam uma atuação mais pragmática do futuro premiê, como, por exemplo, acabar anuindo pelo menos com o andamento do processo de adesão. Magyar não é novo na área; no começo da era Orbán, ocupou cargos na diplomacia húngara em Bruxelas.
Mostrou isso ao falar de Rússia e segurança energética em sua entrevista. "Não podemos mudar a geografia", disse, ao comentar sobre a polêmica em torno do gasoduto russo que abastece seu país e atravessa a Ucrânia. "A Rússia estará lá, a Hungria estará aqui. Mas vamos tentar diversificar [as fontes de energia]."
Além da dependência do gás russo, construída por Orbán para favorecer oligarcas aliados, segundo investigações, Magyar terá que lidar com uma segunda usina nuclear sendo construída no país pela Rosatom, a estatal russa do setor.
Talvez por isso tenha falado que torce pelo fim do conflito na Ucrânia e o fim das sanções contra Moscou. "Somos vizinhos da Rússia e não é do interesse da Europa comprar matérias-primas a preços mais elevados, pois isso prejudica nossa competitividade."
"Entendo a questões morais da guerra?, mas não podemos atirar no próprio pé."
Sobre política interna, declarou que vai propor um limite de dois mandatos para o cargo de primeiro-ministro, com efeito retroativo. Ou seja, caso aprovada tal legislação, Orbán teria mais como voltar ao poder.
Disse também que será cuidadoso com sua maioria constitucional, sem cair na tentação de "tomar medidas ilegais para restaurar o Estado de direito". E foi firme ao pedir a renúncia imediata do presidente do país, Tamás Sulyok, que chamou de "fantoche de Orbán".
"Ele foi nomeado para assinar tudo; todos os documentos que lhe são apresentados, seja o cardápio, a Constituição ou as leis, por isso não precisamos de pessoas assim. Para mim, ele não é o presidente", afirmou Magyar.