Mundo não pode voltar à lei da selva, diz Xi sobre guerra de Trump

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um dos comentários mais duros acerca da crise no Oriente Médio, o líder chinês, Xi Jinping, disse nesta terça-feira (14) que "não podemos permitir que o mundo volte à lei da selva" ao comentar as ações do presidente Donald Trump contra o Irã.

Ele recebia em Pequim o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed al-Nahyan. Os Emirados Árabes Unidos foram o país mais bombardeado pelo Irã na retaliação durante as cinco semanas de conflito iniciado por Estados Unidos e Israel contra o a teocracia.

Xi, que comanda a principal rival estratégica dos EUA, divulgou um plano genérico defendendo a paz na região, que vive um cessar-fogo frágil, estabelecido há uma semana.

Segundo os princípios apresentados, a paz precisa de quatro pontos: coexistência pacífica, soberania, proteção ao Estado de Direito e desenvolvimento conjunto. Nada prático em relação aos pontos nevrálgicos da disputa atual, como se vê, como o destino do programa nuclear de Teerã.

Ainda assim, a citação à lei da selva foi direcionada a Trump. "O Estado de Direito não pode usado quando é conveniente e descartado quando não é", disse o líder chinês, que antes da guerra tinha no Irã o terceiro maior fornecedor de seu petróleo, atrás de Rússia e Arábia Saudita.

Embora tenha confortáveis reservas de óleo e gás para passar pela instabilidade confortáveis reservas de óleo e gás para passar pela instabilidade, Xi vê com preocupação o bloqueio imposto por Trump ao trânsito de navios indo e vindo de portos iranianos, que passou a valer na segunda (13).

A chancelaria em Pequim afirmou que a restrição é "irresponsável e perigosa", e pediu a reabertura da vias normais de navegação na região. A negociação direta entre EUA e Irã no Paquistão não avançou, mas há a possibilidade de ser retomada ainda nesta semana ou na próxima, quando expira o cessar-fogo.

A medida surtiu efeito de limitar ainda mais o tráfego pela região, que antes da guerra via cerca de 140 embarcações passando pelo estreito de Hormuz, número que caiu a 10% após o conflito.

Segundo monitores marítimos, ao menos três navios transitaram pelo estreito de Hormuz, o gargalo que o Irã controla e sobre o qual instalou uma rota de pagamento de pedágio ilegal, depois do bloqueio e um deixou a área.

Nenhuma das embarcações ia ou vinha do Irã, então não estavam sob as restrições do embargo, que é policiado por destróieres americanos na saída de Hormuz, que liga o golfo Pérsico ao de Omã e, dali, os oceanos.

Mas dois navios estavam sob sanções ocidentais devido a negócios passados com petróleo iraniano, e um deles era chinês ?justamente o único que rumou no sentido do oceano Índico. O Rich Star levava 250 mil barris de metanol, segundo a consultoria Kpler, embarcados nos Emirados.

Aqui a guerra de narrativas de lado a lado é colocada à prova. Trump chegou a dizer que iria abordar quaisquer navios que tivessem aceitado pagar o pedágio iraniano na rota que passa pelas águas territoriais de Teerã ?o caminho usual está obstruído por minas.

O Irã, por sua vez, já disse que não cobraria o pedágio de países aliados. Assim, fica incerta a situação do Rich Star, mas tudo indica que ele passará incólume em seu caminho para a China.

Em outro ponto de conflito potencial, os EUA estão deslocando ao menos dois navios caça-minas do Pacífico para o Oriente Médio, supostamente para trabalhar na área que o Irã disse ter colocado os explosivos.

Teerã já disse que qualquer belonave na sua vizinhança será vista como hostil e como uma violação da trégua, ameaçando fazer uso de seu arsenal de mísseis de cruzeiro antinavio e drones. Já Trump falou que ameaças navais à sua Marinha serão "eliminadas".

Nesse jogo de quem pisca primeiro, os EUA anunciaram um mal explicado trânsito de dois destróieres por Hormuz no fim de semana, supostamente para trabalhar contra as minas. Ainda que tenham sensores eficazes, esses navios não são desenhados para desabilitar esse tipo de armamento, e não há como saber por onde de fato passaram.