Fantasma de Tchernóbil segue vivo 40 anos após o acidente

Por IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O fantasma do acidente nuclear na usina de Tchernóbil, na Ucrânia então soviética, segue com uma meia-vida tão ou mais ameaçadora do que aquela dos mais danosos isótopos radioativos emitidos pela explosão do reator 4 do complexo, que completa 40 anos neste domingo (26).

Meia-vida é o termo que indica o tempo que demora para metade dos átomos radioativos se desintegre naturalmente. No caso de Tchernóbil, um dos mais preocupantes é o césio-137, cuja meia-vida é de 30 anos. Já o temido iodo-131, associado a câncer de tireoide, vai ficando mais fraco de oito em oito dias.

Enquanto esse processo vai ocorrendo de forma sucessiva e exponencial, a solução encontrada pela União Soviética e, depois, pela Ucrânia, foi encapsular a área destruída em que o núcleo do reator foi exposto após uma combinação de falha de projeto e erro humano num teste de segurança, à 1h23 de 26 de abril de 1986.

O primeiro sarcófago foi substituído por um segundo, mais eficaz e bancado pela União Europeia, temerosa de vazamentos que causassem o pânico dos anos 1980. Pelo equivalente hoje a R$ 12 bilhões, em 2016 um novo invólucro foi inaugurado, feito para durar um século.

Só que a realidade geopolítica se interpôs, despertando o fantasma radioativo. Em 2022, no caminho para tentar tomar Kiev, as forças de Vladimir Putin ocuparam a usina e seus contaminados arredores. Recuaram um mês depois, deixando o temor da insegurança de uma guerra em um local tão sensível.

O risco ficou evidente em fevereiro de 2025, quando um drone russo atingiu o sarcófago, danificando sua estrutura e causando um incêndio. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) descartou uma tragédia, mas diz que reparos urgentes são necessários para evitar quaisquer riscos.

Ambientalistas são mais alarmistas. O Greenpeace vê o perigo de um colapso estrutural do sarcófago, o que a agência da ONU descarta. Mas não é preciso tomar lados para perceber a gravidade de uma guerra em torno de uma usina nuclear.

Isso é uma realidade mais ao sul, na maior usina do tipo da Europa, em Zaporíjia. Lá uma zona de guerra ativa: os russos tomaram a planta em 2022 e a tocam com um misto de funcionários ucranianos e próprios, além da supervisão da AIEA.

"Estão brincando com fogo", disse à Folha no ano passado o diretor da agência, o argentino Rafael Grossi, candidato a secretário-geral da ONU. Ataques com drones, mísseis e artilharia desconectam a usina inoperante de sua única linha de energia frequentemente, causando o risco de um colapso.

São casos extremos, como apontou Grossi, de interferência humana. Ele avalia que a indústria aprendeu com os erros de Tchernóbil e do outro desastre nuclear que atingiu a escala máxima da AIEA, o de Fukushima (Japão), que completou 15 anos em março.

O impacto na imagem da energia atômica, uma das matrizes mais limpas que existe por não liberar carbono, ainda que haja emissões em sua cadeia produtiva, é um legado dos dois episódios tão importante quanto o da melhoria na segurança.

Ainda há no mundo sete reatores de modelo semelhante aos de Tchernóbil, cuja última unidade foi descomissionada em 2000. Mas eles sofreram melhorias importantes, e nenhum acidente grave foi constatado desde então.

Apesar de vários países que haviam se assustado com o tsunami que causou a tragédia japonesa já terem revertido a decisão de desligar usinas nucleares, outros, como a Alemanha, não mudaram de ideia.

Já atores importantes do mercado, como Rússia, Estados Unidos e França, têm lucrado fortemente com o renovado interesse na matriz nuclear, que com 440 reatores pelo mundo produz 5% da energia total e quase 10% da eletricidade globais. Ainda assim, é uma queda em relação a 1990, quando esses números eram de 7% e 17%, respectivamente.

Tchernóbil segue mais presente no imaginário ocidental, cortesia da excelente minissérie "Chernobyl" (2019) e de filmes trash como "Chernobyl - Sinta a Radiação" (2012) ?esta produção B lida com dois fenômenos, o turismo de aventura que florescia no entorno da usina até o início da guerra e o medo de mutações.

Nenhum monstro foi registrado na zona de exclusão de 2.600 km² ainda, mas há anomalias estudadas ao longo dos anos, como fungos que se alimentam da radiação para crescer e lobos que parecem mais resistentes ao câncer.

O impacto humanitário da tragédia é inescapável, ainda que de difícil mensuração. A União Soviética contou 31 funcionários da usina e bombeiros mortos no combate ao fogo radioativo, mas as estimativas de mortes por doenças associadas ao longo dos anos vão de 4.000 a quatro vezes esse número.

"O que pouca gente fala é como quem lidou com a limpeza daquela sujeira ficou marcado como 'gente radioativa' naquele tempo. Foi o caso do meu pai, que era bombeiro em Kiev e foi convocado na crise", conta por telefone Vladimir Stepanenko, que tinha 12 anos na época e hoje mora em Moscou.

Não foi pouca gente: cerca de 600 mil soviéticos foram envolvidos na operação, enquanto o Kremlin fazia o possível para abafar o caso ?como mostrou de forma acurada, salvo detalhes, a minissérie de 2019.

A certeza de que o governo mentia era tão grande que Mikhail Gorbatchov, então presidente, diria que o acidente foi um fator preponderante para o fim do império comunista, em 1991.

Enquanto isso, cercada pela guerra e com um buraco em seu sarcófago, Tchernóbil ainda tem 4 t de resíduos contaminados no coração da tragédia, e eles seguem a assombrar as novas gerações.

"Tenho parentes na Ucrânia, não muito longe de lá, e eles morrem de medo de ter de deixar de novo suas casas", diz Stepanenko, em referência aos 116 mil cidadãos removidos da zona de exclusão em 1986.